No braço de milhões de brasileiros, uma pequena cicatriz costuma marcar uma das primeiras vacinas da vida. Aplicada logo após o nascimento, a BCG continua sendo a principal proteção dos bebês contra as formas mais graves da tuberculose, doença que, ao contrário do que muita gente imagina, ainda representa um problema de saúde pública no país.

No Dia da Vacina BCG, celebrado em 1º de julho, especialistas reforçam a importância da imunização. Somente em 2024, o Brasil registrou 85.936 novos casos de tuberculose, o maior número dos últimos anos, segundo o Boletim Epidemiológico Especial Tuberculose 2025, do Ministério da Saúde. A incidência chegou a 40,1 casos por 100 mil habitantes, mantendo o país entre aqueles com maior carga da doença no mundo.

A maioria dos diagnósticos é de tuberculose pulmonar, forma responsável pela transmissão da bactéria entre as pessoas. Nos bebês, embora menos frequentes, as formas disseminadas da doença podem ser fatais, o que torna a vacinação no período neonatal uma medida essencial de proteção. 

A orientação é reforçada pelo pediatra Tomaso Zanato Francia. Segundo ele, a vacina deve ser administrada o mais cedo possível desde que o recém-nascido tenha mais de 2 quilos. "Essa é a recomendação do Ministério da Saúde. No entanto, desde a incorporação da triagem para erros inatos da imunidade no teste do pezinho em Minas Gerais, muitos pediatras têm seguido a recomendação da Sociedade Brasileira de Imunizações e adiado a vacinação até o resultado dessa triagem. Tão logo os pais tenham o resultado normal em mãos, devem vacinar seu filho com a BCG", explica.

Proteção
A BCG não impede a infecção em todos os casos nem evita de forma consistente a tuberculose pulmonar em adolescentes e adultos. Seu principal benefício é reduzir os riscos na infância, principalmente em um país que possui elevada circulação da doença, como ressalta Francia.

"O Brasil é um dos países com maior número de casos de tuberculose no mundo, sendo esse número muito acima do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta como aceitável. Nesse contexto, crianças nascidas no Brasil têm maior chance de ter contato com pessoas infectadas. Além disso, crianças pequenas são aquelas em maior risco para formas graves e disseminadas de tuberculose", frisa o especialista.

O pediatra destaca que a vacina oferece proteção expressiva justamente contra essas complicações. "A vacina BCG, quando administrada ao nascimento, tem cerca de 74% de proteção contra todas as formas de tuberculose e chega a 90% de proteção contra a tuberculose miliar e a meningite por tuberculose, que são as formas mais graves da doença".

Alta incidência no Brasil
A tuberculose é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis e é transmitida pelo ar quando uma pessoa com a forma pulmonar ou laríngea da doença tosse, fala ou espirra. De acordo com o Ministério da Saúde, aproximadamente 84% dos casos registrados no país são da forma pulmonar, justamente a que mantém a cadeia de transmissão.

De acordo com o infectologista e presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Adelino de Melo Freire Jr., fatores sociais têm peso importante na persistência da doença.

"A tuberculose está muito relacionada às condições sociais e de vida. Locais com maior vulnerabilidade social, moradias precárias, aglomeração, dificuldade de acesso aos serviços de saúde, desnutrição, população em situação de rua, população privada de liberdade e pessoas vivendo com HIV concentram maior risco de adoecimento", explica.

Ele lembra que outro desafio é o diagnóstico tardio. "Muitas vezes a pessoa convive por semanas ou meses com tosse e outros sintomas antes de procurar atendimento. Nesse período, se tiver tuberculose pulmonar ativa, pode transmitir a doença. A pandemia de Covid-19 também prejudicou por algum tempo o diagnóstico e o acompanhamento de várias doenças, incluindo a tuberculose, e isso teve impacto nos indicadores".

Atenção à tosse
Por atingir principalmente os pulmões, essa é também a forma que mais preocupa as autoridades sanitárias. "A tuberculose pulmonar é a forma mais comum porque o pulmão é o principal órgão acometido pela bactéria. Ela também é a que mais preocupa do ponto de vista coletivo porque é a forma que transmite a doença de uma pessoa para outra", afirma o infectologista.

Ele explica que identificar rapidamente os pacientes faz diferença para reduzir novos casos. "Quando uma pessoa com tuberculose pulmonar tosse, fala ou espirra, pode eliminar pequenas partículas contendo a bactéria no ar. Por isso, identificar rapidamente os casos pulmonares, iniciar o tratamento e acompanhar os contatos próximos são medidas fundamentais para interromper a cadeia de transmissão", defende.

 O principal sinal de alerta é a tosse persistente. "Em geral, uma tosse que dura três semanas ou mais deve ser investigada, especialmente se vier acompanhada de febre, suor noturno, emagrecimento, cansaço, falta de apetite ou presença de sangue no escarro. A orientação é não esperar a doença avançar", orienta Adelino Freire.

Ele lembra que o tratamento está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde e tem altas taxas de cura quando seguido corretamente.