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O tempo, para Alceu Valença, tem um modo distinto de existir. Como versa em “Samba do Tempo”, citado acima, ele não é rígido, linear. Ao contrário, ele está em constante movimento, se estica, se contrai, se adapta aos caminhos que a vida propõe.
Nessa passagem, Alceu não sabe ao certo se é 8 ou 80. “Prefiro ser o 8, pois sou muito ligeiro”, conta o artista, que percorre o Brasil com a turnê “80 Girassóis”, celebrando os 80 anos de vida que se aproximam – mais precisamente, no dia 1º de julho. Agora, é a vez de Belo Horizonte comemorar com o menino nascido em São Bento do Una, no Agreste pernambucano, que se tornou um dos nomes mais inventivos da música brasileira justamente por nunca permanecer parado.
A turnê – que neste ano ainda vai percorrer a Europa – não se resume a uma celebração de aniversário, mas se desdobra como uma autobiografia em movimento de Alceu. Um espetáculo que mistura música, cinema, literatura, fotografia, artes visuais e memórias pessoais para contar a história de um artista que se recusou a caber em meras definições.
“Quando tinha 12 anos, jogava basquete na seleção juvenil pernambucana. Cheguei a jogar contra os Harlem Globetrotters. Ao mesmo tempo, sempre fui apaixonado por leitura. Vivia com um livro debaixo do braço. Isso tudo se reflete na minha vida”, relembra Alceu. “Existe esse lado do menino atleta, depois o lado intelectual. Em seguida vem o Alceu apaixonado pelo cinema, pela nouvelle vague francesa e pelo neorrealismo italiano. Foi daí que surgiu o artista”, prossegue o músico, percorrendo os caminhos de sua vida desde tenra idade, em entrevista cheia de memórias e saudosismo a O TEMPO.
Se o esporte ficou para trás – “desisti quando descobri que era um micróbio naquele universo” –, a paixão pelos livros permaneceu. Na juventude, dividia o tempo entre os estudos e a leitura de autores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e seu tio, o poeta Geraldo Valença. Mais tarde, mergulhou na literatura de forma ainda mais intensa, escrevendo poemas enquanto cursava direito na Universidade Federal de Pernambuco.
Diploma na mão, Alceu chegou a atuar na área durante o período de estágio. Mas bastou uma situação prática para perceber que aquele não era seu caminho.
“Estive diante de uma disputa jurídica e acabei concordando com a parte contrária”. Foi o suficiente para entender que a advocacia não estaria no seu trajeto.
E é a partir desse momento, no raiar dos anos 1970, que a narrativa artística, inquieta e elétrica de Alceu Valença desponta. O resto é história... que ainda segue.
Segue o baile
A forma como Alceu Valença escolheu para contar sua própria história se traduz em “80 Girassóis”. O espetáculo comemorativo reúne fotografias raras preservadas ao longo de décadas por sua mãe, obras de artistas plásticos de Olinda, projeções especialmente concebidas para o show e referências a diferentes fases de sua vida. O resultado é um percurso por cidades, lembranças e personagens que ajudaram a formar sua identidade artística.
“Eu quis participar de tudo. Trabalhei nas projeções, no roteiro e na concepção visual. O show tem algo de cinematográfico porque tudo está conectado. Nele, aparece o baião da minha terra, São Bento do Una, o frevo do Recife e também o lado urbano, cosmopolita, conectado ao mundo”, conta o músico, sobre a elaboração do espetáculo.
E, nesse percurso artístico de mais de cinco décadas, Belo Horizonte e Minas Gerais também marcam presença no afeto e no cancioneiro de Alceu. Foi na capital mineira que nasceu uma de suas composições mais pessoais. “Depois de uma apresentação no Palácio das Artes, fui sozinho para o hotel e encontrei no quarto, deitada na minha cama, a Dona Insônia. A megera desalmada não me deixava dormir. Abri a janela do quarto, encontrei a solidão da rua, a solidão da lua, a minha solidão...”, poetiza Alceu, recordando sua inspiração para “Solidão”, sucesso do álbum “Mágico”, de 1984.
Se Minas e sua gente são motivo de alegria para o pernambucano Alceu Valença, o encontro do artista com a Orquestra Ouro Preto não poderia ficar fora dessa celebração. “Sou um sujeito inquieto. Talvez mais inquieto do que a maioria. Sempre gostei de experimentar. Já havia trabalhado com diversas orquestras, inclusive em Nápoles, Curitiba e Rio de Janeiro. Mas com a Orquestra Ouro Preto aconteceu algo especial, uma espécie de simbiose. Viramos uma família”, exalta o artista, que, na sua inquietação, dá um salto no tempo – pregresso, presente e futuro – para falar de duas de suas energias vitais: São João e o Carnaval.
“São manifestações pilares em minha vida e também no espetáculo. Quando canto ‘Coração Bobo’, por exemplo, me lembro imediatamente de Jackson do Pandeiro e de toda aquela época. É uma viagem pela memória”, passeia Alceu, que, nesse constante, elétrico e intenso movimento – ainda que sem perceber o deslocamento –, se mostre, de fato, mais próximo dos 8 que dos 80.
Serviço
O quê. Alceu Valença: 80 Girassóis
Quando. Sábado (20/6), às 22h
Onde. BeFly Hall (av. Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi)
Quanto. A partir de R$ 100, à venda no Sympla
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Nessa passagem, Alceu não sabe ao certo se é 8 ou 80. “Prefiro ser o 8, pois sou muito ligeiro”, conta o artista, que percorre o Brasil com a turnê “80 Girassóis”, celebrando os 80 anos de vida que se aproximam – mais precisamente, no dia 1º de julho. Agora, é a vez de Belo Horizonte comemorar com o menino nascido em São Bento do Una, no Agreste pernambucano, que se tornou um dos nomes mais inventivos da música brasileira justamente por nunca permanecer parado.
A turnê – que neste ano ainda vai percorrer a Europa – não se resume a uma celebração de aniversário, mas se desdobra como uma autobiografia em movimento de Alceu. Um espetáculo que mistura música, cinema, literatura, fotografia, artes visuais e memórias pessoais para contar a história de um artista que se recusou a caber em meras definições.
“Quando tinha 12 anos, jogava basquete na seleção juvenil pernambucana. Cheguei a jogar contra os Harlem Globetrotters. Ao mesmo tempo, sempre fui apaixonado por leitura. Vivia com um livro debaixo do braço. Isso tudo se reflete na minha vida”, relembra Alceu. “Existe esse lado do menino atleta, depois o lado intelectual. Em seguida vem o Alceu apaixonado pelo cinema, pela nouvelle vague francesa e pelo neorrealismo italiano. Foi daí que surgiu o artista”, prossegue o músico, percorrendo os caminhos de sua vida desde tenra idade, em entrevista cheia de memórias e saudosismo a O TEMPO.
Se o esporte ficou para trás – “desisti quando descobri que era um micróbio naquele universo” –, a paixão pelos livros permaneceu. Na juventude, dividia o tempo entre os estudos e a leitura de autores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e seu tio, o poeta Geraldo Valença. Mais tarde, mergulhou na literatura de forma ainda mais intensa, escrevendo poemas enquanto cursava direito na Universidade Federal de Pernambuco.
Diploma na mão, Alceu chegou a atuar na área durante o período de estágio. Mas bastou uma situação prática para perceber que aquele não era seu caminho.
“Estive diante de uma disputa jurídica e acabei concordando com a parte contrária”. Foi o suficiente para entender que a advocacia não estaria no seu trajeto.
E é a partir desse momento, no raiar dos anos 1970, que a narrativa artística, inquieta e elétrica de Alceu Valença desponta. O resto é história... que ainda segue.
Segue o baile
A forma como Alceu Valença escolheu para contar sua própria história se traduz em “80 Girassóis”. O espetáculo comemorativo reúne fotografias raras preservadas ao longo de décadas por sua mãe, obras de artistas plásticos de Olinda, projeções especialmente concebidas para o show e referências a diferentes fases de sua vida. O resultado é um percurso por cidades, lembranças e personagens que ajudaram a formar sua identidade artística.
“Eu quis participar de tudo. Trabalhei nas projeções, no roteiro e na concepção visual. O show tem algo de cinematográfico porque tudo está conectado. Nele, aparece o baião da minha terra, São Bento do Una, o frevo do Recife e também o lado urbano, cosmopolita, conectado ao mundo”, conta o músico, sobre a elaboração do espetáculo.
E, nesse percurso artístico de mais de cinco décadas, Belo Horizonte e Minas Gerais também marcam presença no afeto e no cancioneiro de Alceu. Foi na capital mineira que nasceu uma de suas composições mais pessoais. “Depois de uma apresentação no Palácio das Artes, fui sozinho para o hotel e encontrei no quarto, deitada na minha cama, a Dona Insônia. A megera desalmada não me deixava dormir. Abri a janela do quarto, encontrei a solidão da rua, a solidão da lua, a minha solidão...”, poetiza Alceu, recordando sua inspiração para “Solidão”, sucesso do álbum “Mágico”, de 1984.
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“São manifestações pilares em minha vida e também no espetáculo. Quando canto ‘Coração Bobo’, por exemplo, me lembro imediatamente de Jackson do Pandeiro e de toda aquela época. É uma viagem pela memória”, passeia Alceu, que, nesse constante, elétrico e intenso movimento – ainda que sem perceber o deslocamento –, se mostre, de fato, mais próximo dos 8 que dos 80.
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O quê. Alceu Valença: 80 Girassóis
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