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string(65) "Novas tarifas de 25% dos EUA podem gerar efeito dominó no Brasil"
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A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros pode gerar efeitos que vão além da balança comercial. Para economistas, o principal risco para o Brasil não está apenas em uma eventual redução das exportações, mas na possibilidade de um choque de confiança capaz de afetar câmbio, inflação, juros e investimentos.
A justificativa da Casa Branca envolve alegações de práticas brasileiras que prejudicariam empresas norte-americanas, incluindo decisões relacionadas ao comércio digital e aos serviços de pagamento, barreiras ao etanol, tarifas preferenciais concedidas a outros países e supostas falhas em políticas de combate à corrupção.
A medida, de caráter provisório, ficará em consulta pública até julho, antes de uma eventual adoção definitiva. Para evitar desabastecimento no mercado americano, o pacote prevê uma ampla lista de exceções. Do ponto de vista econômico, a estimativa é que as barreiras atinjam cerca de US$ 10 bilhões em exportações, elevando a tarifa efetiva incidente sobre produtos brasileiros para perto de 18%.
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, o aspecto técnico mais relevante é justamente essa relação de isenções, distribuída em 73 páginas, que preserva segmentos importantes da economia brasileira. Entre os itens excluídos da taxação estão aeronaves civis — beneficiando diretamente a Embraer —, além de medicamentos, fertilizantes, terras raras, suco de laranja e café.
Na avaliação do executivo, a configuração inicial reduz o impacto sobre uma parcela significativa das exportações brasileiras para os Estados Unidos. "Boa parte do que o Brasil exporta para os Estados Unidos, especialmente do agronegócio e da indústria aeronáutica, está protegida nesse desenho inicial", afirma. "O efeito real concentra-se em aço, alumínio, carne bovina, calçados e têxteis", acrescenta.
Para Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, um eventual tarifaço não deve ser interpretado como um choque homogêneo sobre a economia brasileira. O impacto, segundo ele, tende a variar entre os setores e dependerá do alcance das medidas, das exceções concedidas e do espaço para negociações diplomáticas.
"A possibilidade de o Brasil ser tarifado em 25% pela administração Trump opera menos como um choque uniforme de comércio e mais como um choque de incerteza com assimetria setorial, cuja intensidade final dependerá do escopo, das exceções e da possibilidade de negociação política", avalia.
Segundo Simioni, a primeira reação ocorre nos mercados financeiros, que antecipam a redução das margens das exportadoras e das vendas aos EUA antes dos impactos na economia real. "O mercado tende a precificar primeiro o risco de compressão de margens e a queda de volumes nas exportações mais expostas, depois o efeito indireto sobre o câmbio, juros, inflação e múltiplos acionários no Brasil", explica.
Os segmentos mais vulneráveis seriam aqueles com forte dependência do mercado americano e menor capacidade de redirecionar vendas para outros destinos. Nesses casos, a tarifa funcionaria como um custo adicional difícil de ser repassado integralmente ao consumidor final.
"Quando a elasticidade-preço da demanda é alta, a tarifa não é totalmente repassável ao importador americano. Portanto, parte do ajuste recai sobre o exportador brasileiro via desconto de preço, compressão de margem e, em alguns casos, perda de participação de mercado para concorrentes de outros países", destaca.
Nas commodities, porém, o efeito tende a ser diferente. Por serem negociadas em mercados mais amplos e com maior possibilidade de redirecionamento das vendas, o impacto direto pode ser menor. Ainda assim, Simioni avalia que um aumento da oferta doméstica poderia pressionar os preços internos no curto prazo.
"Em commodities mais fungíveis, o ajuste tende a aparecer menos como uma queda seca do comércio bilateral e mais como uma realocação geográfica das vendas, com pressão de curto prazo sobre os preços internos no Brasil se houver excesso de oferta doméstica", afirma.
Câmbio e juros
Além do canal comercial, o economista destaca os riscos financeiros e macroeconômicos associados à medida. Uma deterioração das expectativas para as exportações brasileiras poderia aumentar a volatilidade cambial e elevar a percepção de risco do país. "Uma medida dessa natureza eleva o prêmio de risco do Brasil a partir da piora do saldo comercial esperado, pelo aumento da volatilidade cambial e pela reprecificação da política monetária, caso a depreciação do real contamine a inflação via bens comercializáveis", diz Simioni.
Segundo ele, o mercado já começou a reagir à possibilidade de novas barreiras comerciais dos Estados Unidos. "Até o momento, a reação do mercado foi de depreciar a moeda, venda de ações expostas ao comércio exterior e abertura do prêmio dos juros longos", observa.
Na prática, explica Simioni, o receio é que uma eventual desvalorização do real aumente as pressões inflacionárias, reduzindo o espaço para cortes de juros ou até exigindo uma postura mais restritiva do Banco Central. "O câmbio reage porque o mercado antecipa menor entrada líquida de dólares por exportação e maior incerteza regulatória. A bolsa reage por revisão de lucro e aumento da taxa de desconto, enquanto a curva de juros incorpora o risco da autoridade monetária precisar ser mais restritiva caso haja repasse cambial para a inflação", diz.
Há também um componente de equilíbrio geral, observa o economista-chefe da Blue3 Investimentos. Segundo ele, o redirecionamento dos fluxos comerciais pode beneficiar países concorrentes e, em alguns casos, reduzir o preço de insumos no mercado brasileiro diante de um excesso de oferta. "Isso significa que o efeito líquido sobre o PIB pode ser menor do que o impacto bruto sobre as exportações, mas maior do que o investidor inicialmente imagina por causa da interação entre margem, câmbio e confiança", ressalta.
Negociação
Apesar das incertezas, o cenário-base ainda é de negociações até 15 de julho, com possibilidade de um acordo parcial ou da ampliação da lista de isenções. Na avaliação da MAG Investimentos, embora o impacto macroeconômico agregado tenda a ser limitado pela resiliência comercial do Brasil, alguns segmentos deverão sentir os efeitos de forma mais intensa. "Politicamente, a decisão volta a tensionar as relações diplomáticas, mesmo após a recente visita do presidente Lula à Casa Branca", afirma a instituição.
O formato final da taxação, contudo, ainda pode sofrer alterações. "O governo brasileiro continuará atuando pelos canais diplomáticos e técnicos durante o período de audiências nos Estados Unidos para mitigar os impactos da proposta e defender os interesses das exportações nacionais", diz a nota.
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A justificativa da Casa Branca envolve alegações de práticas brasileiras que prejudicariam empresas norte-americanas, incluindo decisões relacionadas ao comércio digital e aos serviços de pagamento, barreiras ao etanol, tarifas preferenciais concedidas a outros países e supostas falhas em políticas de combate à corrupção.
A medida, de caráter provisório, ficará em consulta pública até julho, antes de uma eventual adoção definitiva. Para evitar desabastecimento no mercado americano, o pacote prevê uma ampla lista de exceções. Do ponto de vista econômico, a estimativa é que as barreiras atinjam cerca de US$ 10 bilhões em exportações, elevando a tarifa efetiva incidente sobre produtos brasileiros para perto de 18%.
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, o aspecto técnico mais relevante é justamente essa relação de isenções, distribuída em 73 páginas, que preserva segmentos importantes da economia brasileira. Entre os itens excluídos da taxação estão aeronaves civis — beneficiando diretamente a Embraer —, além de medicamentos, fertilizantes, terras raras, suco de laranja e café.
Na avaliação do executivo, a configuração inicial reduz o impacto sobre uma parcela significativa das exportações brasileiras para os Estados Unidos. "Boa parte do que o Brasil exporta para os Estados Unidos, especialmente do agronegócio e da indústria aeronáutica, está protegida nesse desenho inicial", afirma. "O efeito real concentra-se em aço, alumínio, carne bovina, calçados e têxteis", acrescenta.
Para Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, um eventual tarifaço não deve ser interpretado como um choque homogêneo sobre a economia brasileira. O impacto, segundo ele, tende a variar entre os setores e dependerá do alcance das medidas, das exceções concedidas e do espaço para negociações diplomáticas.
"A possibilidade de o Brasil ser tarifado em 25% pela administração Trump opera menos como um choque uniforme de comércio e mais como um choque de incerteza com assimetria setorial, cuja intensidade final dependerá do escopo, das exceções e da possibilidade de negociação política", avalia.
Segundo Simioni, a primeira reação ocorre nos mercados financeiros, que antecipam a redução das margens das exportadoras e das vendas aos EUA antes dos impactos na economia real. "O mercado tende a precificar primeiro o risco de compressão de margens e a queda de volumes nas exportações mais expostas, depois o efeito indireto sobre o câmbio, juros, inflação e múltiplos acionários no Brasil", explica.
Os segmentos mais vulneráveis seriam aqueles com forte dependência do mercado americano e menor capacidade de redirecionar vendas para outros destinos. Nesses casos, a tarifa funcionaria como um custo adicional difícil de ser repassado integralmente ao consumidor final.
"Quando a elasticidade-preço da demanda é alta, a tarifa não é totalmente repassável ao importador americano. Portanto, parte do ajuste recai sobre o exportador brasileiro via desconto de preço, compressão de margem e, em alguns casos, perda de participação de mercado para concorrentes de outros países", destaca.
Nas commodities, porém, o efeito tende a ser diferente. Por serem negociadas em mercados mais amplos e com maior possibilidade de redirecionamento das vendas, o impacto direto pode ser menor. Ainda assim, Simioni avalia que um aumento da oferta doméstica poderia pressionar os preços internos no curto prazo.
"Em commodities mais fungíveis, o ajuste tende a aparecer menos como uma queda seca do comércio bilateral e mais como uma realocação geográfica das vendas, com pressão de curto prazo sobre os preços internos no Brasil se houver excesso de oferta doméstica", afirma.
Câmbio e juros
Além do canal comercial, o economista destaca os riscos financeiros e macroeconômicos associados à medida. Uma deterioração das expectativas para as exportações brasileiras poderia aumentar a volatilidade cambial e elevar a percepção de risco do país. "Uma medida dessa natureza eleva o prêmio de risco do Brasil a partir da piora do saldo comercial esperado, pelo aumento da volatilidade cambial e pela reprecificação da política monetária, caso a depreciação do real contamine a inflação via bens comercializáveis", diz Simioni.
Segundo ele, o mercado já começou a reagir à possibilidade de novas barreiras comerciais dos Estados Unidos. "Até o momento, a reação do mercado foi de depreciar a moeda, venda de ações expostas ao comércio exterior e abertura do prêmio dos juros longos", observa.
Na prática, explica Simioni, o receio é que uma eventual desvalorização do real aumente as pressões inflacionárias, reduzindo o espaço para cortes de juros ou até exigindo uma postura mais restritiva do Banco Central. "O câmbio reage porque o mercado antecipa menor entrada líquida de dólares por exportação e maior incerteza regulatória. A bolsa reage por revisão de lucro e aumento da taxa de desconto, enquanto a curva de juros incorpora o risco da autoridade monetária precisar ser mais restritiva caso haja repasse cambial para a inflação", diz.
Há também um componente de equilíbrio geral, observa o economista-chefe da Blue3 Investimentos. Segundo ele, o redirecionamento dos fluxos comerciais pode beneficiar países concorrentes e, em alguns casos, reduzir o preço de insumos no mercado brasileiro diante de um excesso de oferta. "Isso significa que o efeito líquido sobre o PIB pode ser menor do que o impacto bruto sobre as exportações, mas maior do que o investidor inicialmente imagina por causa da interação entre margem, câmbio e confiança", ressalta.
Negociação
Apesar das incertezas, o cenário-base ainda é de negociações até 15 de julho, com possibilidade de um acordo parcial ou da ampliação da lista de isenções. Na avaliação da MAG Investimentos, embora o impacto macroeconômico agregado tenda a ser limitado pela resiliência comercial do Brasil, alguns segmentos deverão sentir os efeitos de forma mais intensa. "Politicamente, a decisão volta a tensionar as relações diplomáticas, mesmo após a recente visita do presidente Lula à Casa Branca", afirma a instituição.
O formato final da taxação, contudo, ainda pode sofrer alterações. "O governo brasileiro continuará atuando pelos canais diplomáticos e técnicos durante o período de audiências nos Estados Unidos para mitigar os impactos da proposta e defender os interesses das exportações nacionais", diz a nota.