Brasil247 – O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, propôs a criação de um selo de acurácia para premiar institutos de pesquisa cujos levantamentos apresentem maior proximidade com os resultados oficiais das eleições. Especialistas e representantes do setor criticaram a iniciativa por entenderem que pesquisas medem a intenção de voto em determinado momento e não funcionam como previsões das urnas, segundo a Folha de São Paulo.

A minuta da proposta foi entregue nesta terça-feira (14) a representantes de 16 institutos durante reunião convocada por Nunes Marques na sede do TSE. O ministro afirmou que o texto ainda não é definitivo e abriu prazo até sexta-feira (17) para que as empresas apresentem sugestões.

O encontro ocorreu em meio às discussões sobre uma possível regulamentação das pesquisas eleitorais. O debate ganhou força após Nunes Marques impedir a divulgação de um levantamento da Atlas/Bloomberg sobre a disputa pela Presidência da República.

Batizada de “selo de acurácia eleitoral”, a certificação teria como objetivo “reconhecer e valorizar empresas de pesquisa eleitoral cujas estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais”. A avaliação incluiria eleições nacionais, estaduais e no Distrito Federal.

Segundo a minuta, o selo também serviria para estimular o aperfeiçoamento contínuo das metodologias, ampliar a transparência das informações e dar maior visibilidade às empresas consideradas de melhor desempenho.

A premiação seria dividida em duas categorias: pesquisas de boca de urna, realizadas no dia da eleição, e levantamentos conduzidos nos sete dias anteriores ao pleito. Os critérios de comparação ainda seriam definidos em um regulamento específico.

Datafolha considera proposta “inaceitável”

A diretora do Datafolha, Luciana Chong, manifestou-se contra a iniciativa durante a reunião. Para ela, a proposta parte de uma compreensão equivocada sobre a finalidade das pesquisas eleitorais.

“O Datafolha respeita profundamente o papel da Justiça Eleitoral e reconhece sua contribuição histórica para a credibilidade das eleições brasileiras. Justamente por isso, entende que esta iniciativa é inaceitável”, afirmou.


Luciana destacou que os levantamentos registram as preferências declaradas pelos entrevistados no período em que a coleta é realizada. Mudanças de opinião posteriores, abstenções e acontecimentos de última hora podem alterar o resultado das urnas.

“Pesquisas não têm o objetivo de prever o resultado de uma eleição. Seu papel é retratar, por meio de métodos estatísticos reconhecidos, as intenções de voto existentes no momento em que são realizadas. Confundir pesquisa com previsão é um erro comum entre pessoas mal informadas sobre a ciência estatística. Não deveria ser uma premissa admitida na mais alta corte eleitoral do país”, declarou.

Lavareda diz que “pesquisa não é prognóstico”

O cientista político Antonio Lavareda, presidente de honra da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e presidente do conselho científico do Ipespe, também se posicionou contra o selo. “Pesquisa não é prognóstico”, afirmou.

Lavareda observou que parte dos eleitores utiliza os levantamentos divulgados nos últimos dias de campanha para orientar a própria decisão. Nesse contexto, a publicação de uma pesquisa pode influenciar o comportamento posterior do eleitorado. “Voto é comportamento, pesquisa mede atitude”, disse.


O cientista político também criticou a possibilidade de a Justiça Eleitoral assumir o papel de avaliar e premiar os institutos de acordo com a proximidade entre seus números e o resultado oficial. “É uma coisa absolutamente bizarra, que não existe em nenhum lugar do mundo. É uma jabuticaba que precisa ser refletida e evitada”, declarou.

Segundo Lavareda, entidades representativas do setor, como a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) e a Abrapel, devem reagir à proposta por considerarem que ela pode prejudicar o desenvolvimento das pesquisas eleitorais.

Selo pode estimular levantamentos mais conservadores

O cientista político Bruno Bolognesi, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), classificou a iniciativa como um “absurdo completo”. Na avaliação dele, o modelo desconsidera fatores sociais, políticos e circunstanciais que podem produzir diferenças entre a intenção declarada e o voto registrado.

Entre esses elementos estão as taxas de abstenção, que atingem os diferentes grupos da população de maneira desigual, além de condições específicas do dia da votação, como chuva, dificuldades de deslocamento ou a proximidade de feriados.


Bolognesi alertou ainda que o selo poderia levar empresas a priorizar levantamentos considerados mais seguros, reduzindo a abrangência das pesquisas para aumentar as chances de receber o certificado.

“Há institutos que colocam na pesquisa todos os candidatos lançados pelos partidos. Eles poderiam, por exemplo, medir a intenção de voto apenas do Lula e do Flávio Bolsonaro, por ser mais seguro”, afirmou.

Para o professor, a Justiça Eleitoral deveria concentrar-se em medidas de qualificação técnica, como exigir a presença de estatísticos e cientistas políticos nas diferentes etapas das pesquisas e promover formação para aprimorar a elaboração dos questionários.

Proposta causa estranheza no Supremo

Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e um auxiliar de outro integrante da Corte também demonstraram estranhamento com a proposta. A avaliação é que o TSE passaria a comparar como concorrentes diretos institutos que adotam metodologias, amostras e formas de coleta diferentes.

Os interlocutores veem na iniciativa uma possível tentativa de Nunes Marques de superar o desgaste provocado pela decisão que impediu a divulgação da pesquisa Atlas/Bloomberg. O levantamento apontou queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, após o caso conhecido como “Dark Horse”.

O julgamento sobre a pesquisa foi interrompido no início de junho por um pedido de vista da ministra Estela Aranha. A discussão deve ser retomada pelo plenário do TSE em agosto, depois do recesso do Judiciário.

Nunes Marques disse a interlocutores estar confiante de que conseguirá maioria para aprovar uma regulamentação das pesquisas eleitorais. Uma das propostas discutidas prevê limitar o uso de áudios e vídeos nos questionários apresentados aos entrevistados.

O argumento favorável à restrição é que a reprodução desse tipo de conteúdo poderia influenciar as respostas. Até o momento, decisões contrárias à divulgação de pesquisas costumam ser baseadas em critérios técnicos, como a ausência de registro na Justiça Eleitoral ou um número insuficiente de entrevistados.

No caso da Atlas/Bloomberg, Nunes Marques atendeu a um pedido do PL, que questionou a apresentação aos participantes de um áudio no qual Flávio Bolsonaro cobrava de Daniel Vorcaro, do Banco Master, recursos para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A coleta das intenções de voto, no entanto, ocorreu antes da reprodução do áudio aos entrevistados.