Volta e meia, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, ganha holofotes ao emitir opiniões sobre o governo e sobre a disputa presidencial de 2026. Ele se esmera nas críticas ao terceiro mandato de Lula e à política econômica, em um movimento pendular constante que já apontou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como “fraco”, e o presidente Lula como “forte” para reverter a desvantagem na popularidade até as eleições do ano que vem.

É inegável a habilidade política de Kassab, mas seus ataques e recuos também comunicam um fator importante: o de que ele não tem, como se imagina, o controle do partido que preside.

O PSD é uma junção de políticos que se consideram de “centro-direita sem perder a visão social”, como definiu um integrante do partido em conversa reservada com o PlatôBR. Nesse leque, cabe quase tudo na legenda. Antipetistas, lulistas, bolsonaristas, centristas e, principalmente, pragmáticos – esta última, uma característica que não exclui nenhuma das outras e que pode até servir como motivo para virada de posição, a depender da conjuntura política de momento.

A disparidade de alinhamentos dentro da legenda faz com que as críticas de Kassab batam de forma bem mais amena no governo de Lula. “Quando ele recua, ele faz porque sabe que não tem o controle do PSD”, avalia um petista muito próximo do presidente da República.

A ideia é corroborada por outro político do PSD, que considera não restar a Kassab outra opção a não ser liberar o partido para, em 2026, estabelecer alianças conforme as conveniências locais de cada correligionário. “Kassab sabe que não haverá apoio a Ratinho Júnior se o PT continuar honrando o compromisso com a gente”, disse o político da ala lulista do partido, referindo-se ao anúncio de Kassab de que o governador do Paraná, Ratinho Junior, é o nome mais cotado do PSD para enfrentar Lula em 2026.

Nesta semana, uma ideia lançada pelo prefeito de Maricá, Washington Quaquá, vice-presidente do PT, fez o PSD fazer as contas sobre as divisões estaduais. Quaquá citou o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), como um bom nome para ser vice de Lula em 2026. A oferta evidencia a divisão – que, claro, será explorada pelo presidente da República. “Na reta final, se Eduardo Paes, Alexandre Silveira (ministro de Minas e Energia) e Otto Alencar (senador baiano do PSD) não seguirem com Ratinho Junior, o recado que ele (Kassab) passará será de fraqueza perante o partido”, conjecturou um petista.

Lula calcula que seu campo político montará palanques conjuntos com o PSD em estados populosos e importantes. Em Minas Gerais, o presidente tenta uma aliança com Rodrigo Pacheco, mas ainda não tem o sim do senador mineiro sobre sua candidatura ao governo local. Na Bahia, Lula talvez precise arbitrar uma disputa pela segunda vaga ao Senado entre o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o senador Ângelo Coronel, do PSD. A prioridade do PT é a reeleição de Jaques Wagner, líder no Senado. No Rio de Janeiro, a aliança com Paes é dada como certa, mas não nos termos apresentados por Quaquá – por mais que tenha negado recentemente, o atual prefeito do Rio é tido como forte candidato a governador do estado. No Amazonas, Lula mantém aliança forte com o senador Omar Aziz, outro filiado ao partido de Kassab.

Políticos do PSB apontam que o lançamento de Ratinho Júnior como possível candidato a presidente da República também é revelador do plano do próprio Kassab para 2026. A ideia é ter um palanque nacional, puxado por Ratinho, que possa retroalimentar uma aliança com o Republicanos, tendo Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato à reeleição para o governo do estado. Dois interlocutores próximos de Kassab indicam que o sonho dele é governar São Paulo, e o caminho mais fácil para isso seria sair como candidato a vice de Tarcísio.

Há quem acredite, ainda, que esse desenho traçad0 agora por Kassab seja uma maneira de despistar sobre seu verdadeiro plano, que por diversos motivos não poderia ser admitido ainda: apostar em Tarcísio de Freitas para o Planalto.

Kassab coordena a articulação política de Tarcísio ao mesmo tempo que a bancada do PSD na Câmara reclama uma pasta mais robusta no Esplanada de Lula. Os deputados miram o Ministério do Turismo, que está nas mãos de Celso Sabino, do União Brasil. Hoje, o PSD tem três ministros: além de Alexandre Silveira, na pasta de Minas e Energia, a legenda tem a Agricultura, com Carlos Favaro, e a Pesca, com André de Paula. Mesmo assim, o PSD, assim como outro partidos do Centrão com cargos, nunca entregou todos os votos da bancada nas votações de interesse do Planalto na Câmara.

As especulações sobre a reforma ministerial ainda são no sentido de dar mais espaço ao PSD, mas Lula quer costurar o que puder para 2026, algo que o partido tenta evitar para não ter que assumir compromissos com o cenário da disputa presidencial ainda em aberto.