Crime organizado

Seja por uma forte rivalidade orientada a partir de São Paulo e do Rio de Janeiro ou por conflitos “por procuração”, que mobilizam também gangues locais, a guerra das facções nacionais redesenhou a dinâmica do crime em Minas Gerais, sobretudo em Belo Horizonte – onde, segundo especialistas, se instalam espécies de “franquias” da criminalidade. Essa nova configuração é o que fica evidente a partir de mapeamento feito pela equipe de reportagem do Estado de Minas sobre notícias de crimes e operações divulgadas pelas forças de segurança pública – um levantamento calibrado com a ajuda de especialistas, com o detalhamento que as ocorrências ganharam na mídia entre 2025 e maio de 2026.

Um período de quase um ano e meio, com aproximadamente 400 registros, entre os quais se destacam pelo menos 85 confrontos violentos envolvendo o crime organizado e gangues. Como resultado dessas ocorrências, um total de 86 mortos, 28 feridos e 46 prisões no estado de Minas Gerais, somente em ações nominalmente relacionadas às facções.

Praticamente 50% das vítimas desse combate são inocentes atingidos pelo fogo cruzado. Um balanço já trágico, e que nem considera os relatos de pânico nas comunidades. Entre os motivos, mensagens de toque de recolher que aterrorizaram trabalhadores e estudantes, obrigando a polícia a ocupar aglomerados; disparos de armas de guerra em apertadas vielas entre casas agrupadas lado a lado; explosões de granadas; pichações demarcando territórios; e “tribunais” paralelos impondo regras próprias.

A maior parte dessa guerra está relacionada ao Comando Vermelho (CV), facção de origem carioca, com 34 ações (29,3%) e 43 mortos no período analisado. Em seguida, a organização que domina o crime em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), aparece em 13 menções (11,2%), que deixaram 17 óbitos em Minas no mesmo intervalo de tempo. Rival do CV, sobretudo no Rio de Janeiro, o Terceiro Comando Puro (TCP) apareceu em oito ações (6,9%), com 11 mortos. As demais vítimas foram atribuídas a gangues locais ou a facções, mas sem que fossem mencionadas quais.

Fora do Brasil, o CV e o PCC foram oficialmente declarados, em 17 de junho de 2026, como organizações terroristas na lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos (Ofac, na sigla em inglês). As duas organizações são consideradas Terroristas Globais Especialmente Designados, como o Cartel de Sinaloa (México) e o Tren de Aragua (Venezue

 Grande BH lidera em enfrentamentos

Em solo mineiro, os confrontos mapeados pelo EM se deram em 24 municípios, mas a maioria dos registros ocorreu na capital (55) e região metropolitana (15). No comparativo de janeiro a maio de 2025 com o mesmo período de 2026, ocorreu um aumento dos registros de confrontos de facções, total que saltou de 15 para 30 (aumento de 100%). Suspeitos morreram em igual escala, com montante também subindo de 15 para 30 entre os dois períodos. O número de civis mortos passou de 9 para 17 (+88,9%).

No início, o avanço das facções pelo território mineiro ocorreu como nos estados originários, com “batismos” e iniciações de criminosos em comunidades e nos sistemas prisionais. Cartas, como uma encontrada no Presídio de Itajubá, no Sul de Minas, na década de 2010, mostravam essa cooptação dos internos, além de diretrizes das facções, contabilidades e doutrinas que levaram o estado a mudar sua abordagem de segurança pública.

Operação Cerco Fechado avança em BH com buscas e prisão

Mas a situação confortável nos estados de origem dessas organizações criminosas mudou a dinâmica, segundo avaliação do coronel Carlos Júnior, especialista em inteligência de Estado e segurança pública. “O PCC controla o crime em São Paulo sem ser contestado por outro grupo. No Rio de Janeiro, as comunidades têm barricadas e locais de domínio das facções. A polícia, para entrar, precisa de operações de guerra. Assim, os criminosos das facções preferem ficar lá do que se arriscar em Minas Gerais. Com isso, passaram a fazer 'franquias' com as gangues mineiras. Muitas lideranças em Minas estão hoje protegidas nas comunidades do Rio e de São Paulo, de onde comandam o tráfico, sobretudo em BH, sem se preocupar com a polícia”, afirma o especialista.

Gangues atuam “por procuração”

Ao se coligarem a essas facções, as gangues mineiras passaram a se tornar integrantes “por procuração” das guerras de grupos rivais em outros estados. “As gangues mineiras passaram a receber armas das facções, receber drogas, mas vendem pelos preços que as facções determinam, obedecem à cartilha delas, são obrigadas a punir pessoas, a impor as leis da ideologia da organização e a combater as facções rivais que estão ligadas a outras gangues. Por isso, as guerras estouraram em Minas Gerais”, aponta o especialista.

Ao responder ao EM sobre o assunto, o governador Mateus Simões (PSD) destacou operações das forças de segurança contra esses confrontos, em BH, em ações como a ocupação do Aglomerado da Serra, e no interior, em cidades como Teófilo Otoni (Vale do Mucuri), Araguari (Triângulo Mineiro) e Juiz de Fora (Zona da Mata). Falou ainda sobre o combate às grandes atividades do crime organizado: crimes eletrônicos, falsificação e comércio de combustíveis adulterados, de bebidas e de cigarros, além do tráfico de drogas e do comércio de ouro

Inteligência como arma e escudo

Além de prevenir a violência dos confrontos, para o coronel Carlos Júnior, a inteligência construída com vigilância sobre comunicações e monitoramento previne também que policiais estejam expostos ao crescente poder de fogo dos traficantes, antecipando seus ataques, ações e até incursões fora das comunidades que os abrigam, onde estão mais vulneráveis e representam menos riscos para a população.

“Temos também o apoio aéreo como forma de dar segurança aos policiais em solo, com conhecimento tático nas operações, mas, na maior parte do tempo, para garantir vigilância e construção de inteligência. Drones com câmeras termais, que são silenciosos, permitem um monitoramento aéreo noturno sem alertar os faccionados. Os helicópteros leves, como os da Robinson, são mais silenciosos, de menor custo e permitem embarcar câmeras potentes de observação para esse nível de vigilância vertical”, exemplifica o especialista, que destaca ainda as aeronaves de emprego tático e grande capacidade, como as da Helibras e da Sikorsky.

BH concentra ações de faccionados

A capital mineira, por ser a área mais populosa, de maior mercado de entorpecentes e maior repressão policial no estado, concentrou 55 (65%) dos 85 registros de confrontos violentos entre facções e gangues, segundo levantamento do EM. A Pedreira Prado Lopes, na Região Noroeste de Belo Horizonte, foi onde as facções tiveram os embates mais violentos do período avaliado. Foram pelo menos 14 mortes, sendo oito de suspeitos e seis de civis, além de cinco feridos e outras 17 pessoas presas em ações relacionadas às disputas das facções.

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Trata-se de um dos redutos mais antigos do CV na capital mineira, desde a década de 1990, quando Fernandinho Beira-Mar, uma histórica liderança da facção no Rio de Janeiro, firmou apoio local com o traficante Roni Peixoto a partir daquela comunidade. A prisão de Roni fragmentou o poder entre diversas gangues, sobretudo no Buraco Quente, na Vila Senhor dos Passos, na parte mais baixa da comunidade. Ali, mais recentemente, instalou-se uma cooperação com o PCC.

Com isso, faccionados sob comando do CV têm feito ofensivas para tentar tomar pontos de venda de drogas no Buraco Quente. Em dezembro de 2025, um ciclo de 24 horas de violência estourou na comunidade, com a invasão de criminosos sob ordens do CV e execuções no vizinho Bairro Bonfim. Há registro de rivalidade ainda com o Aglomerado da Serra, na Região Centro-Sul de BH, uma guerra histórica com a Pedreira que resultou em execuções em outras partes da cidade (como nos bairros União e Sagrada Família).

No mês seguinte, nova investida do CV, com o uso de granadas e explosivos, tentou desalojar os coligados ao PCC do local, levando pânico à comunidade até a chegada da Polícia Militar para conter a situação. Em maio de 2026, um carro passou com criminosos atirando contra um bar onde ocorria uma comemoração de aniversário na PPL, resultando em dois mortos, um ferido e reacendendo rivalidades.

A morte de chefes do tráfico, como “Lipão” e “Telo”, em confrontos com a polícia (setembro de 2025), e o assassinato da liderança conhecida como “Índio” (novembro de 2025) geraram instabilidade e novas disputas pelo controle do tráfico na Pedreira e entorno. Além do Buraco Quente, as atividades criminosas e os confrontos ocorrem em outros locais como a Favelinha (próximo à encosta rochosa), a Maloquinha (área mais alta da comunidade) e o Beco do Fi, com registros de prisões e esconderijos de integrantes das gangues também nas ruas e becos Carmo do Rio Claro (parte baixa da comunidade), Serra Negra e Araribá, com impactos nos bairros vizinhos do Bonfim e da Lagoinha.

Em agosto de 2025, a Polícia Militar encontrou uma submetralhadora escondida em um ônibus de viagem com destino a traficantes da Pedreira Prado Lopes. Seguindo essa pista, a Polícia Civil conseguiu desbaratar uma quadrilha que enviava armamento para a comunidade de Santos (SP), evidenciando a ação do PCC.

Em 19 de dezembro de 2025, mais de 200 policiais civis, militares e penais implementaram a Operação Escudo em Belo Horizonte e nas vizinhas Betim, Contagem e Esmeraldas, visando desarticular e identificar lideranças da Cabana do Pai Tomás, Morro das Pedras e Pedreira Prado Lopes. Três pessoas foram presas.

Os “pontos quentes” da Região Centro-Sul

Na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, destacam-se os conflitos entre integrantes de organizações criminosas no Morro do Papagaio e no Aglomerado da Serra. No Morro do Papagaio, o histórico de confrontos no período analisado pelo EM deixou sete mortos, apontando o local como território onde o CV exerce domínio consolidado, usando a comunidade como base para planos de expansão para outras regiões, como o Barreiro.

São três frentes principais de atuação: execuções contra facções rivais; tentativas de avançar sobre comunidades vizinhas e regiões periféricas; e conflitos entre grupos menores que operam dentro do aglomerado, como a Gangue da Curva do Swing e a Gangue do Treze, que muitas vezes se aliam ou se opõem à facção dominante.

No Aglomerado da Serra, as facções nacionais se encontram em meio a uma intrincada rede de alianças e acertos com gangues locais. Há também uma guerra declarada entre o CV e o PCC, que resultou em cinco mortes no período pesquisado e já provocou toques de recolher e clima de terror, afetando o comércio e a rotina dos moradores.

Lideranças da Serra buscam refúgio e proteção no Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão, enquanto o PCC usa rotas de São Paulo para reabastecer arsenais. Entre os grupos locais estão a Gangue do Cokeiro, a RDA (liderada anteriormente por “Juninho da RDA”) e a DRB. São considerados pontos críticos do aglomerado a Vila Fazendinha, Pau Comeu (reduto com forte presença do Comando Vermelho), Rua da Água e Beco José Dírcio.