O jornalista, ex-vereador e vice-prefeito Álvaro Damião (União) toma posse nesta quinta-feira (3/4), às 9h, em solenidade oficial na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH), como prefeito da capital mineira. Com a morte, na semana passada, de Fuad Noman, ele assume oficialmente o comando da cidade, a sexta maior cidade do Brasil, com 2,4 milhões de habitantes e muitos desafios.

Damião já exerce o cargo interinamente desde janeiro, quando Fuad, reeleito em outubro, se licenciou para tratamento de saúde. No entanto, ainda responde como prefeito em exercício, inclusive nas publicações oficiais do município, como a veiculada nesta quarta-feira, que já trouxe as primeiras nomeações e exonerações do novo governo que começa, oficialmente, a ser formado a partir desta sexta-feira. Desde a morte de Fuad, em respeito ao luto oficial de sete dias decretado pela prefeitura, Damião se recusou a discutir com aliados a formação de seu governo, mas as conversas já estão marcadas.

Na seara política, o principal desafio de Damião será garantir base na Câmara Municipal, na qual foi vereador por dois mandatos consecutivos, para poder aprovar ou barrar os projetos de interesse ou não da PBH. Para isso, terá que estreitar laços com o presidente da Casa, Juliano Lopes (Podemos), com quem teve rusgas no começo desta legislatura em função da disputa pelo comando do Legislativo.

 

Pelo presidente passam as decisões sobre o que entra na pauta de votação da CMBH, incluindo matérias de interesse da PBH. Lopes já disse, mais de uma vez, que os desentendimentos ficaram no passado e o mais importante, de agora em diante, são os interesses da cidade. O presidente da CMBH não quis dar entrevista.Juliano Lopes: 'Não sou oposição. Quero legislar de forma harmônica'

Damião terá também que obter o apoio da maioria dos vereadores e conciliar as forças políticas que levaram a eleição da chapa com Fuad na montagem do seu secretariado. Na pauta da Câmara, não há nenhum projeto que seja prioridade da prefeitura, porque os importantes foram todos votados na legislatura anterior, o que dá fôlego para Damião organizar sua base.

Para o vereador Wagner Ferreira (PV), que foi vice-líder na gestão Fuad, o desafio de Damião é “formar não só uma maioria”. “Também respeitar todas as visões dos vereadores e grupos políticos existentes. Pecar por excesso no diálogo. Fuad conseguiu isso mesmo sendo candidato pela primeira vez na vida”, disse o vereador, se referindo à eleição municipal passada, a primeira disputada por Fuad como cabeça de chapa.

Ferreira integra hoje o maior grupo político da Câmara, liderado pelo secretário de Governo de Minas, Marcelo Aro, de quem Fuad era próximo, mas Damião nem tanto. O presidente da CMBH também é ligado a Aro.

Do PT ao União Brasil, foram 12 partidos que se alinharam à chapa Fuad-Damião, que reuniu no primeiro turno PSD, Solidariedade, União Brasil, PRD, Agir, Avante e a federação PSDB-Cidadania, garantindo o maior tempo no horário eleitoral gratuito. No segundo turno, na disputa contra o deputado bolsonarista Bruno Engler (PL), aderiram à campanha PT, PSB, Psol e PV.

Todos esperam ser contemplados na distribuição dos cargos de comando da cidade. “Conciliar todas essas forças políticas talvez seja o maior desafio para garantir a governabilidade, medir onde ele pode fazer mais concessões e onde ele pode ser menos plural. Mas acredito na experiência do prefeito, que foi vereador, conhece a Câmara e seu funcionamento, e é extremamente habilidoso no diálogo”, afirmou um vereador governista ouvido pela reportagem.

O novo prefeito também tem a missão de manter a boa relação que a PBH na gestão Fuad sempre teve com os governos federal e estadual, para garantir investimentos e portas abertas para buscar soluções para os problemas da cidade.

Essa capacidade de diálogo, por exemplo, é fundamental para o projeto da PBH de municipalizar o Anel Rodoviário, hoje sob responsabilidade do governo federal, uma das vias de trânsito mais violentas da capital. E também para as obras de mobilidade e construção de um bairro popular no terreno do antigo aeroporto Carlos Prates que serão feitas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), financiado pela União.

Para isso, conta com o apoio do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD), pré-candidato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao governo de Minas, e principal avalista da candidatura de Damião a vice-prefeito de Fuad. E deve ter ainda o apoio do PT e da bancada de esquerda. O vereador Bruno Pedralva (PT) disse que o desejo da legenda e ver “prefeitura e governo federal alinhados para melhorar a vida do povo de Belo Horizonte”. Pedralva disse ainda que o partido aguarda o convite de Damião para dialogar nesse sentido.

Contas no azul

No campo administrativo, Damião não terá problemas de caixa como os enfrentados pelo governo de Minas. As contas estão em dia e a arrecadação supera o gasto. A PBH é um dos municípios brasileiros com maior folga orçamentária e uma das poucas cidades mineiras, sete ao todo, com nota máxima em capacidade de pagamento de dívidas no indicador anual do Tesouro Nacional que avalia endividamento, poupança corrente e liquidez.

Apesar das contas no azul, a cidade sofre com engarrafamentos, problemas no transporte coletivo, gargalos na saúde e aumento da população em situação de rua e vulnerabilidade social. Caberá ao novo prefeito renovar o contrato do transporte coletivo que se encerra no fim de 2028, e é alvo de muitas críticas.

Câmara de BH dá primeiros passos para revisão do contrato de ônibus
Já o plano diretor, conjunto de regras que regularizam a ocupação da cidade, deve ser alterado a partir de 2027. Os dois assuntos são fundamentais e devem ser discutidos ao longo do mandato de Damião pela PBH e pela Câmara. Para o vereador Helton Junior (PSD), gerir uma cidade do tamanho de BH é um desafio diante da “amplitude e complexidade dos problemas de uma metrópole”.

“Todos os problemas são desafiadores, caberá ao prefeito aproveitar as oportunidades para tratar de todos os eles. Damião é um prefeito que conhece bem a cidade e transita muito por ela, isso é uma vantagem”, analisa Helton, que assumiu esta semana a vice-liderança do governo na CMBH.