CIÊNCIA BRASIL - ESTADOS UNIDOS

Depois da imobilização de tráfego internacional que a pandemia do novo coronavírus impôs e o encolhimento de quase 60% dos programas de cursos superiores no exterior, pesquisadores e instituições de ensino internacionais estão à procura de estudantes para seus programas; há, inclusive, cientistas dedicados em identificar tais talentos, alguns deles mineiros.

O reaquecimento do setor aumenta as chances de aperfeiçoamento de brasileiros em áreas de pesquisas com benefícios para toda a humanidade. Para se ter uma ideia, segundo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação, em 2019 um total de 7.613 estudantes recebiam bolsas no exterior. Em 2020, primeiro ano da pandemia, o quantitativo caiu para 4.452 (-42%), e para 3.148 no ano seguinte, o último de dados consolidados (-59%, comparando com 2019).

Um desses caçadores de talentos na área de saúde é o belo-horizontino Gepoliano Chaves, de 35 anos, doutor em engenharia biomolecular e bioinformática pela Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, nos EUA, e pós-doutor em genômica de neuroblastoma, câncer pediátrico, pela Universidade de Chicago.

"Nossa missão pela Universidade da Califórnia, aqui no Estados Unidos, tem sido encontrar, recrutar e desenvolver talentos para cooperar com a educação e a medicina, desenvolver tecnologia genômica em específico, assim como a ciência, tecnologia e inovação em geral. Como já fui beneficiado um dia, procuro incentivar outros brasileiros", afirma o cientista mineiro.

Por meio do escritório de Diversidade do Instituto Genômica da UCSC, Chaves e seus associados criaram essa oportunidade para brasileiros e pessoas do continente. "Queremos contribuir para a identificação de talentos nas Américas, falantes de inglês, português e espanhol, a fim de desenvolver tecnologias que permitam crescimento profissional dos talentos das diversas regiões e línguas do continente, bem como desenvolver tecnologias de ponta para investigação e tratamento de doenças", afirma.

Há vários programas que brasileiros podem aderir, com bolsas de 25%, 50% e 100% de alojamento, alimentação e taxas escolares. O estudante só precisa arcar com as despesas do visto e a viagem.

Ele mesmo sente que essa é uma forma de colaborar com as universidades, com a saúde humana e ainda retribuir a oportunidade que recebeu. "Fui bolsista do Programa Ciência Sem Fronteiras e isso me possibilitou continuar nas pesquisas fazendo um pós-doutorado
estudando câncer pediátrico. Ganhei prêmios, participei de eventos para levantar fundos para pesquisas com pesquisadores e fundações de ciência brasileiros", conta.

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Gepoliano quer retribuir a brasileiros pela oportunidade que teve nos EUA

Arquivo Pessoal

Nos EUA, em 2014, Chaves ingressou no programa de ensino de biologia computacional, baseado na sua experiência como mentor no Science Internship Program – SIP (Programa de Estágio em Ciência), da Universidade da Califórnia Santa Cruz.

"O programa se desdobrou na criação de uma empresa que chamei de ReComBio Scientific (Pesquisa em Biologia Computacional). A missão da empresa para a sociedade e os jovens brasileiros que podem se candidatar está alinhada com a missão do Science Internship Program, fundado pelo professor da UCSC Dr. Raja Guhathakurta e com quem Chaves trabalho há mais de 8 anos. "Iniciamos um curso ponte de bioinformática para alunos de graduação, com suporte do Instituto de Genômica da UCSC, fundado pelo Dr. David Haussler, importante ator no sequenciamento do primeiro genoma humano, em 2001", conta.

"Dessa forma, como abordado pelo Dr. Guhathakurta, promoveremos o desenvolvimento das ciências e ferramentas que possibilitem enfrentar doenças como a COVID-19 e o câncer através da capacitação e treinamento de jovens cientistas", salienta.

Entre os trabalhos já realizados em colaboração com brasileiros, um dos destaques foi junto ao professor Jaime Amorim, que faz trabalho em vigilância epidemiológica de doenças como a Chykungunia, na Bahia.

No ano passado, a pesquisa do belo-horizontino se destacou como o melhor projeto de pesquisa básica do Departamento de Pediatria da Universidade de Chicago, sob supervisão dos Drs. Mark Applebaum, Susan Cohn e Alexander Chlenski.

FINANCIAMENTO

O fim da pandemia também marcou investimentos estaduais no aperfeiçoamento dos estudantes mineiros no exterior, mas ainda é muito recente em comparação com os investimentos nacionais.

A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) informa que financia, desde 2022, o projeto Cidadão Global - De Minas para o Mundo, ativo na Fundação Helena Antipoff, em Ibirité, e que prevê o financiamento de 20 bolsas de intercâmbio para estudantes do 1º e 3º anos do Ensino Médio em Tempo Integral (EMTI) por meio de um investimento estimado de R$2,4 milhões.

Em 2023, nove bolsistas foram beneficiados com bolsas de estudo em países como Itália, França, Bélgica, Argentina e África do Sul. Em 2024, mais 11 estudantes serão contemplados.

O projeto Cidadão Global - De Minas para o Mundo destina-se à conscientização dos estudantes, educadores e comunidade sobre questões globais significativas, com relevância no âmbito local também, por meio dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), que contempla a concessão de bolsas de intercâmbio estudantil no exterior.

Já no ensino superior, a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) participa do Programa de Intercâmbio Acadêmico Latino-americano (PILA), programa interinstitucional em que universidades anfitriãs custeiam a permanência de estudantes estrangeiros em um sistema de reciprocidade.

No primeiro semestre de 2023, a Uemg recebeu oito estudantes estrangeiros e foram enviados nove estudantes ao exterior por meio de investimento de cerca de R$114 mil. Já neste segundo semestre, a universidade tem oferecido bolsas de estudo a sete estudantes estrangeiros em suas Unidades Acadêmicas que totalizaram, até o final de 2023, cerca de R$76 mil. Em reciprocidade, 11 de seus estudantes encontram-se em universidades parceiras estrangeiras sem que a instituição mineira tenha que custear seus estudos e permanência.

Em 2022, ano de adesão ao PILA, em versão virtual, 27 estudantes da Uemg cursaram, sem gerar qualquer custo para a universidade, disciplinas a distância oferecidas por universidades estrangeiras parceiras.