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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Com a inflação mais pressionada, o Banco Central pode fazer um dos menores ciclos de queda de juros da história. Para esta quarta-feira (17/6), o mercado financeiro espera um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic, a 14,25% ao ano, mas vê chance de que essa queda seja a última antes de uma pausa no processo de calibração da taxa básica.
A volatilidade provocada pela guerra no Oriente Médio, a piora nas expectativas de inflação e os estímulos fiscais dados pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tornam, na avaliação dos economistas ouvidos pela "Folha de S.Paulo", o cenário mais desafiador e podem levar o BC a endurecer o tom e aumentar a cautela nas próximas reuniões.
Desde março, quando iniciou a flexibilização dos juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,5 ponto percentual, com dois cortes seguidos de 0,25 ponto percentual. Em perspectiva histórica, outros curtos ciclos de queda ocorreram em 2002 e em 2004.
O acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã para reabrir o estreito de Hormuz ainda é visto com ceticismo por parte dos economistas. Para Ana Madeira, economista-chefe para Brasil do Morgan Stanley, apesar da perspectiva positiva, esse evento aumenta a incerteza e não parece suficiente para sozinho guiar a decisão do Banco Central.
O banco apostava em uma série de cortes de 0,25 ponto percentual, mas revisou seu cenário na semana passada e passou a projetar uma pausa em agosto depois de uma queda derradeira de mesma intensidade. A expectativa da economista é que o Copom ajuste sua comunicação e prepare o terreno para mudanças na condução dos juros.
"Não achamos que o Banco Central quer surpreender o mercado neste momento dando uma pausa imediata. Eles gostam de um pouquinho de previsibilidade", diz. "Achamos que eles vão mudar o tom, fortalecer os pontos 'hawkish' (duros) do comunicado para sinalizar que estão agora considerando a possibilidade de reavaliar a política monetária para frente."
O argumento mais sólido para eventual mudança de tom, segundo Madeira, é o risco de uma nova onda de piora das expectativas de inflação. Os dados do boletim Focus, divulgados na última segunda-feira (15/6), mostram um afastamento das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em relação ao alvo de 3%.
Para este ano, houve um salto de 5,11% para 5,30% – bem acima do teto da meta (4,5%). A estimativa de inflação para 2027 – prazo na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia –, atingiu 4,10% (contra 4% quatro semanas antes). A projeção do IPCA para 2028 também subiu, a 3,68% (ante 3,65%).
Madeira também ressalta a semana de forte estresse nos juros futuros. "Na teoria, o Banco Central não deveria ter que seguir o que o mercado está precificando. No entanto, um mundo mais inflacionário e com taxas de juros globais mais altas, o cenário do Brasil um pouquinho dividido tornam o ambiente desfavorável (...) as expectativas de inflação iriam reagir muito se o Banco Central continuasse sugerindo a continuação dos cortes", disse.
"Esse gasto de R$ 215 bilhões a mais está gerando um impulso na atividade econômica de mais de 1 ponto do PIB (Produto Interno Bruto). Isso vai na direção oposta ao (trabalho do) Banco Central, é uma política que conflita com o que o Banco Central quer fazer", afirma Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio e conselheiro da Jubarte Capital.
O economista ressalta que o poder da política de juros é limitado e que não faria sentido o BC levar a Selic a um nível ainda mais alto, citando 20% ao ano como exemplo hipotético. Para o ex-BC, as medidas têm viés eleitoreiro.
"O gasto público cresceu mais 5% em termos reais todos os anos, num país cujo endividamento não para de crescer e é altíssimo, mesmo em situações em que a gente precisa dar uma certa esfriada na economia para trazer inflação para meta. A inflação é o pior dos impostos", acrescenta.
A reaceleração da demanda é também um dos pontos de atenção da XP, que estima impacto potencial de 1,5 ponto percentual sobre o crescimento anual do PIB. A preocupação cresce à medida que ocorre simultaneamente a choques globais de oferta.
Inflação e guerra
Caio Megale, economista-chefe da XP, destaca que a inflação ficou mais pressionada por motivos que vão além da guerra no Oriente Médio. Como exemplo, cita os custos de insumos ligados à tecnologia e à inteligência artificial, e as chances de um El Niño de fortes proporções, que pode afetar a produção de alimentos no segundo semestre.
Guerra do Irã vai impedir queda do juro no Brasil? Entenda o que é a Selic e como ela afeta o seu bolso
Ele também aponta que a taxa de câmbio, que se depreciou nas últimas semanas, deixou de ajudar as projeções de inflação do Banco Central e de compensar parcialmente a piora em outras variáveis, como a deterioração das expectativas.
No encontro de maio, a cotação do dólar usada pelo BC foi de R$ 5. A tendência é que fique em R$ 5,10 nesta quarta. "Se usar mesmo R$ 5,10 (nos cálculos), vai ser a primeira vez desde o final de 2024, ou seja, em um ano e meio que o câmbio do Copom vai estar mais depreciado do que o câmbio do (encontro do) Copom anterior", diz.
Para Megale, essa combinação de fatores tirou espaço para corte de juros neste ano. Ele considera que o Copom não deve indicar explicitamente que o ciclo de queda da Selic terminou, mas deve retirar menções a "próximos passos da calibração dos juros", sugerindo que pode fazer uma pausa em breve.
"A gente está bem dividido (sobre a decisão de agosto), meio a meio entre 14% e 14,25%. A guerra põe um grãozinho no 14%, o Focus põe um grãozinho no 14,25%. (...) Dadas as projeções de inflação e o estímulo que o governo colocou na economia, não nos parece que no curto prazo os juros vão abaixo de 14%", diz.
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Com a inflação mais pressionada, o Banco Central pode fazer um dos menores ciclos de queda de juros da história. Para esta quarta-feira (17/6), o mercado financeiro espera um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic, a 14,25% ao ano, mas vê chance de que essa queda seja a última antes de uma pausa no processo de calibração da taxa básica.
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Desde março, quando iniciou a flexibilização dos juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,5 ponto percentual, com dois cortes seguidos de 0,25 ponto percentual. Em perspectiva histórica, outros curtos ciclos de queda ocorreram em 2002 e em 2004.
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O banco apostava em uma série de cortes de 0,25 ponto percentual, mas revisou seu cenário na semana passada e passou a projetar uma pausa em agosto depois de uma queda derradeira de mesma intensidade. A expectativa da economista é que o Copom ajuste sua comunicação e prepare o terreno para mudanças na condução dos juros.
"Não achamos que o Banco Central quer surpreender o mercado neste momento dando uma pausa imediata. Eles gostam de um pouquinho de previsibilidade", diz. "Achamos que eles vão mudar o tom, fortalecer os pontos 'hawkish' (duros) do comunicado para sinalizar que estão agora considerando a possibilidade de reavaliar a política monetária para frente."
O argumento mais sólido para eventual mudança de tom, segundo Madeira, é o risco de uma nova onda de piora das expectativas de inflação. Os dados do boletim Focus, divulgados na última segunda-feira (15/6), mostram um afastamento das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em relação ao alvo de 3%.
Para este ano, houve um salto de 5,11% para 5,30% – bem acima do teto da meta (4,5%). A estimativa de inflação para 2027 – prazo na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia –, atingiu 4,10% (contra 4% quatro semanas antes). A projeção do IPCA para 2028 também subiu, a 3,68% (ante 3,65%).
Madeira também ressalta a semana de forte estresse nos juros futuros. "Na teoria, o Banco Central não deveria ter que seguir o que o mercado está precificando. No entanto, um mundo mais inflacionário e com taxas de juros globais mais altas, o cenário do Brasil um pouquinho dividido tornam o ambiente desfavorável (...) as expectativas de inflação iriam reagir muito se o Banco Central continuasse sugerindo a continuação dos cortes", disse.
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Inflação e guerra
Caio Megale, economista-chefe da XP, destaca que a inflação ficou mais pressionada por motivos que vão além da guerra no Oriente Médio. Como exemplo, cita os custos de insumos ligados à tecnologia e à inteligência artificial, e as chances de um El Niño de fortes proporções, que pode afetar a produção de alimentos no segundo semestre.
Guerra do Irã vai impedir queda do juro no Brasil? Entenda o que é a Selic e como ela afeta o seu bolso
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