Como economista especializado em planejamento estratégico e análise de conjuntura macroeconômica é minha tarefa ficar atento aos movimentos do mercado interno e externo, ter atenção redobrada às políticas econômicas adotadas pelo governo,  observar atentamente a movimentação dos indicadores e, mesmo numa situação de muita instabilidade, buscar deduzir para onde caminha o Brasil.

Dentre os indicadores que gosto de observar estão projeções para o PIB, a inflação, o dólar, os juros, a arrecadação pública e o desemprego. Irei, então, neste breve artigo,  tratar sobre cada um desses indicadores e os fatores que lhes influenciam, abordando  suas consequências para as pessoas e seus movimentos futuros.

Começando pela PIB, em que pese termos iniciado 2022 na perspectiva de uma recuperação da economia, no momento em que a Covid-19 dava seus sinais de arrefecimento, representado por hospitais menos cheios e vacinação crescente da população, hoje podemos dizer que chegaremos ao final do primeiro trimestre em níveis pré-covid, mas já em processo de perda de dinamismo em decorrência da inflação crescente, guerra da Ucrânia, novo desalinhamento de cadeias produtivas internacionais e da forte subida dos juros.

As prévias do PIB para 2022 variam das estimativas do mercado, em torno de 0,6% até as do governo 1,5%. O que representam um crescimento pífio. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,99% em janeiro, na comparação dessazonalizada com dezembro de 2021, conforme divulgado pela autoridade monetária. O volume de serviços prestados recuou 0,1% em janeiro, frente ao mês anterior, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em dezembro de 2021, o setor tinha crescido 1,7% (dado revisado após divulgação inicial de aumento de 1,4%).

Então, com o desempenho de janeiro, os serviços estão, em média, 7% acima do nível pré-pandemia, em fevereiro de 2020. Algumas atividades, no entanto, ainda não recuperaram o patamar do pré-pandemia. Na comparação com janeiro de 2021, o indicador teve alta de 9,5%. Nos 12 meses até janeiro, houve expansão de 12,2%. No próximo trimestre não vejo chances do setor seguir se expandindo.

Falemos então do processo inflacionário brasileiro recente. Quando as atividades econômicas voltaram a se recuperar, em decorrência do relaxamento de medidas protetivas de saúde, com a maior circulação de pessoas, maior circulação de dinheiro e de mercadorias, houveram choques de ofertas que prejudicaram as cadeias produtivas. Com falta de componentes e peças, dificuldades para importar, portos congestionados produziu-se uma inflação de oferta, ao mesmo tempo em que as pessoas voltavam ao mercado de consumo, pressionando a demanda, especialmente com a recuperação do setor serviços (comércio, o turismo, o setor financeiro, dentre outros). O auxílio emergencial ajudou muito durante a pandemia e mesmo tendo sido reduzido em 2022, foi fator importante para ajudar as famílias mais vulneráveis.

O Brasil também viveu problemas no setor agropecuário, com estiagens localizadas e aumento das exportações, produzindo escassez interna e aumento nos preços dos alimentos. Numa situação em que o governo federal abriu mão de ter estoques reguladores dos preços através da CONAB. Agora se vive a ameaça de escassez de fertilizantes e outros insumos para o plantio da próxima safra, além da perspectiva de que esses insumos serão comprados a preços muito mais elevados.

Para completar a onda ruim, o preço do petróleo começou a subir, primeiramente pelo excesso de demanda internacional e agora em decorrência da Guerra Rússia/Ucrânia. Situação difícil de ser administrada uma vez que o Brasil se tornou um importador de cerca de um quarto dos combustíveis aqui consumidos; e a política de preços da Petrobrás segue as variações dos preços internacionais do petróleo (quem ganha são os acionistas e a diretoria, que recebe bônus a cada aumento de lucros). Como o dólar se tornou moeda muito valorizada em 2021, em relação ao real, tudo isso formou um vetor força de aumento dos preços dos combustíveis, com reflexos em todos os demais preços da economia, devido ao aumento dos custos dos transportes (o Brasil é um país que circula mercadorias majoritariamente em cima de caminhões movidos a diesel).

A grande consequência de toda essa pressão inflacionária é a subida dos juros. Depois de elevar a Selic para 11,75% no dia 16-03-2022, o Copom (Comitê de Política Monetária) indicou que deve elevar a taxa básica de juros em mais 1% na próxima reunião. Se a previsão for confirmada, a Selic chegará a 12,75% em maio. Juros altos representam economia sendo freada. Significa um agravamento das condições de operação das empresas, menos recursos sendo emprestados e mais inadimplência de empresas e famílias. Situação muito difícil para a maioria dos brasileiros. Então, a persistência das pressões inflacionárias, a alta dos juros e o endividamento das famílias devem continuar pesando sobre a atividade econômica no Brasil nos próximos meses, ainda que o setor de serviços e as medidas de estímulo anunciadas pelo governo possam atuar no sentido contrário.

O dólar então seguiu uma trajetória de alta em 2021, mas ao que parece terá muitas flutuações em 2022, tendo reduzido seu valor para a faixa dos R$5,00, onde tem se mantido, recebendo incentivos de queda, com a subida de juros e a entrada de capitais especulativos, que também entraram no Brasil com força, no primeiro trimestre de 2022, aproveitando-se das ações das empresas brasileiras, que estavam sendo consideradas baratas, atraindo assim investidores estrangeiros.

A arrecadação vai muito bem, em todos os níveis de governo, com reflexos, ainda que defasados em relação aos movimentos da economia, representando uma redução momentânea do déficit público. Contudo, a abertura da caixa de bondades eleitoreira, com o aumento de gastos públicos e cortes de impostos (o IPI reduziu em 25% para a maioria dos produtos industrializados; e há ainda a redução de PIS/Cofins sobre os derivados de petróleo, dentre outras medidas de cortes de impostos) pode trazer uma piora dos números da dívida pública, com retorno de déficits fiscais de maior monta. Para ter-se uma ideia, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e a isenção do PIS/Cofins sobre os combustíveis impactarão as contas públicas da União em R$ 24,2 bilhões em 2022. O cálculo foi feito pela IFI (Instituição Fiscal Independente) do Senado Federal.

O governo vai zerar, até 2028, as alíquotas do Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro, ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários (IOF) incidentes sobre operações de Câmbio, segundo nota do Ministério da Economia. A redução será gradual e escalonada em oito anos. Ou seja, mais queda na arrecadação.

O presidente Bolsonaro está atrás nas pesquisas eleitorais, o tempo de campanha está se reduzindo e ele sabe que tem a caneta na mão para a aquisição de apoios, em especial colocando renda na mão dos mais pobres, dos pequenos empresários e dos seus apoiadores em geral.

Falarei agora sobre o desemprego. Observa-se que o desemprego teve nova queda, no mês de fevereiro. A taxa de desemprego no país ficou em 11,2% no trimestre até janeiro de 2022. A taxa é a menor para o trimestre encerrado em janeiro desde 2016, quando ficou em 9,6%, informa a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE. Considerando-se os dados do trimestre até janeiro, o país tinha 12,048 milhões de desempregados — pessoas de 14 anos ou mais que buscaram emprego, sem encontrá-lo. O número aponta retração de 6,6% frente ao trimestre anterior (menos 858 mil pessoas) e queda de 18,3% frente a igual período do ano anterior (menos 2,7 milhão de pessoas).

Segundo noticiado no jornal Valor de 18-03-2022, a população ocupada cresceu em 1,470 milhão de pessoas totalizando 95,428 milhões de trabalhadores. Desse total, 1,157 milhão foi de trabalhadores incluídos no setor formal, que considera aqueles que trabalham no setor privado com carteira assinada, os trabalhadores do setor público, os empregadores com CNPJ e conta própria com CNPJ. O contingente do setor informal cresceu em 313 mil, para 38,524 milhões. O aumento da população ocupada como um todo foi de 1,6%, enquanto o do setor informal foi de 0,8%. E a qualidade dos empregos gerados é muito ruim na perspectiva de ter-se uma mão de obra mais qualificada.

O Brasil tinha 27,8 milhões de trabalhadores subutilizados no trimestre encerrado em janeiro de 2022, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Houve queda de 7,2% (menos 2,2 milhões de subutilizados) frente ao trimestre móvel anterior — encerrado em outubro — e retração de 15,5% (menos 5,1 milhões de pessoas) em relação a igual trimestre do ano anterior.

A renda média dos trabalhadores teve queda. O rendimento médio real habitual dos trabalhadores (considerando a soma de todos os trabalhos) foi de R$ 2.489,00 no trimestre móvel até janeiro, com queda de 1,1% frente ao trimestre móvel anterior (R$ 29,00 a menos). É o menor rendimento para os trimestres comparáveis da série histórica da pesquisa. Frente a igual período de 2021, houve redução de 9,7% na renda média, uma diferença de R$ 266,00. Conclusão, apesar da melhora na situação do emprego formal, o desemprego segue alto, assim como a mão de obra informal, com o agravante de perda de renda dos trabalhadores e má qualidade técnica e de formação da mão de obra empregada. Ou seja, menos renda, menos consumo, menor produtividade.

Por fim uma palavra sobre o que está acontecendo na economia mundial. O economista Dani Rodrik, professor de Harvard, disse que a era da “hiperglobalização”, iniciada nos anos 1990, chegou ao fim. A pandemia e a guerra da Ucrânia enterraram o tempo em que a integração econômica e financeira deixava em segundo plano as preocupações geopolíticas e com a segurança nacional. Para ele, a economia global que emerge neste momento é mais fragmentada e regionalizada. A produção, as cadeias de fornecedores e as relações financeiras estarão organizadas a partir de três polos - EUA, Europa e China (com o Sudeste Asiático). Ou seja, o camaleão chamado capitalismos vai se preparado para uma nova etapa de grandes mudanças, sempre focado em aumento da produtividade e absorção de novas tecnologias e conquistas de novos mercados neocoloniais. Pensando bem, ganha-se muito impulso com a economia de reconstrução no pós-guerra.

No caso do Brasil, o maior desafio na economia global em rápida transformação não é integrar-se ao mundo, mas domesticamente: disseminar a inovação e alta produtividade de seus setores de ponta para aqueles considerados retardatários, com uma mão de obra pouco preparada e com seu foco em bens de natureza primária como as commodities agrícolas e minerais. Dar atenção crescente ao necessário processo de reindustrialização, planejamento de longo prazo e recuperação da capacidade de investimento do setor público, saindo da armadilha de estar focado numa economia primário exportadora sem os devidos cuidados com a soberania Nacional.

 

 

*Paulo Bretas

Economista pela UFMG e Membro da Coordenação Executiva Nacional da ABED