A terça feira foi marcada por caos no trânsito de Belo Horizonte. Desta vez foi a chuva, que desceu em volume acima do esperado, lavando a cidade e trazendo prejuízos para quem esteve preso nos engarrafamentos que se multiplicaram e se estenderam por toda a Região Metropolitana. Alguma novidade até aqui? Não, a desorganização no trânsito está presente no cotidiano da cidade todos os dias.

No dia seguinte a desordem na mobilidade sempre é justificada por algum motivo de força maior. Um dia é a chuva, no outro a véspera de um feriado, ou acidente no Anel Rodoviário. Porém, o dever de casa segue sendo empurrado, com o agravante de que todas ou as poucas ações do poder público municipal para “melhoria” do trânsito caminham a passos lentos no sentido oposto ao que deveria.

A pergunta que precisa ser respondida: O que de fato tem sido feito para melhorar a mobilidade em Belo Horizonte? E a resposta pode surpreender até o mais experiente dos especialistas. Não tem sido feito nada. MobiCentro, Zona 30 e Ciclovias são três projetos da BHTrans para enfrentar o drama da falta de fluidez no trânsito e isto é nada perto do que precisa ser feito. A Sudecap faz o básico, e não apresenta nenhuma novidade substancial como deveria na condição de Superintendência de Desenvolvimento.

Ironicamente os poucos e medíocres projetos em curso tornam a mobilidade ainda pior, pois visam restringir o uso de veículos em regiões conturbadas da capital. Não existe no horizonte de curto ou médio prazo projetos que visem dar fluidez ao trânsito através de corredores sem interrupção de tráfego. Todos os corredores de trânsito estão saturados e possuem cruzamentos em nível com sinais funcionando em onda vermelha. Não existem uma única rua ou avenida em que os sinais funcionem em onda verde por toda a cidade.

O paradigma de que obras não resolvem precisa ser quebrado. Justificar o caos com a desculpa de que a cidade tem 2,2 milhões de veículos e que por isso é necessário afunilar cruzamentos esperando com isso que a população seja desestimulada a usar carro beira a insanidade. Não é fechando cruzamentos ou aumentando passeios que o trânsito vai melhorar, mas fazendo o dever de casa, que passa por obras e gestão pro ativa dos recursos disponíveis.

Entre outros, a gestão dos sinais de trânsito  funcionando em onda verde. Estímulo ao uso das rotas alternativas, que devem ser sinalizadas, conhecidas e bem asfaltadas. Isso vale também para a carona solidária e a gestão humanizada do trânsito nos mais de 200 gargalos que não deixam o trânsito fluir, a exemplo do que fazia o Batalhão de Trânsito na década de 80. Quem não lembra dos apitos dos guardinhas que faziam o trânsito andar?

O passivo de obras da cidade cresce na medida em que a frota aumenta. E ela cresce a taxas de 8% ao ano. Isso significa que em 10 anos a cidade terá um carro para cada habitante. BH não possui recursos para fazer todas as obras que deixaram de ser feitas nos últimos 40 anos, mas precisa eleger aquelas que não podem esperar mais. Exemplos estão no trevo do BH Shopping, por toda extensão do Anel Rodoviário e em todos os corredores que atravessam a cidade. No lugar de sinais (caixa preta da BHTrans), trincheiras, viadutos, túneis, passarelas, elevados e via expressas cruzando a cidade.

Com efeito, as desculpas ou o silêncio não resolvem o caos, tampouco podem ser justificativas para amenizar o prejuízo causado pelo trânsito que não anda por toda a cidade. A população espera do prefeito alguma medida urgente para enfrentar o problema, usando o que existe disponível e uma pitada de ousadia. Cruzar os braços não resolve, só piora…

 
José Aparecido Ribeiro
José Aparecido Ribeiro

Jornalista, licenciado em Filosofia, Administrador, MBA em Marketing, Bacharel em Turismo e estudioso de temas urbanos. É membro da Comissão Técnica de Transporte da Sociedade Mineira de Engenheiros, do Observatório da Mobilidade. Colunista das revistas Minas em Cena, Mercado Comum e Exclusive. Blogueiro no portal uai.com.br