A novela da venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do América ganhou novos capítulos nessa terça-feira (10/2), quando Elias Weber, fundador do GPA Capital, enviou um e-mail a conselheiros e pessoas ligadas ao clube para oficializar a retirada da proposta de compra, que, segundo o grupo, é de quase R$ 1 bilhão. As partes negociavam desde agosto do ano passado.

O motivo da desistência gera divergências entre os lados das tratativas. O América alega que o GPA Capital discordou de deliberações e exigências feitas pelo conselho consultivo (CC) do clube e, assim, encerrou as conversas pela compra. Já o fundo de investimentos aponta que a desistência partiu do próprio Coelho.

O No Ataque buscou todas as partes envolvidas nessa história, teve acesso a documentos e a informações da proposta. A seguir, a reportagem detalha a “guerra” de versões nos bastidores do clube mineiro, que promete se pronunciar oficialmente sobre o tema em entrevista coletiva nesta quinta-feira (12/2), no CT Lanna Drumond, por meio do ex-presidente Marcus Salum, principal responsável pela busca de um investidor para a SAF.

A guerra de versões

Às 20h53 dessa terça-feira, Elias Weber, fundador do GPA Capital, enviou um e-mail a 11 destinatários em que declara ter sido surpreendido com notícias sobre o “não prosseguimento de tratativas relacionadas à SAF”. No texto, afirma que o fundo concentrou esforços para atender aos pleitos feitos pelo América, mas, ainda assim, o alviverde “seguiu demonstrando dificuldade em avançar para uma decisão definitiva”.

 Diante do cenário de indefinição, o fundador do grupo decidiu pela retirada da oferta de compra. “Esse movimento contínuo de revisões, sem horizonte claro de conclusão, nos leva à convicção de que não houve, em nenhum momento, a disposição necessária para a efetiva conclusão do negócio”, escreveu Elias, na mensagem à qual a reportagem teve acesso na íntegra.

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E-mail enviado por Elias Weber(foto: Reprodução)

A ótica do América

“A narrativa contida no e-mail não espelha com precisão a realidade das negociações”, iniciou Paulo Lasmar, vice-presidente do conselho consultivo do Coelho, ao NA. “O conselho deliberou que o Memorando de Investimento (MOU) não resguardava as premissas básicas da participação do América no negócio, como também havia situações comerciais que deveriam ser melhor avaliadas antes de qualquer assinatura”, acrescentou.

A divergência de versões se torna ainda mais nítida quando Paulo Lasmar afirma que “o América procurou os investidores para consultá-los a respeito das deliberações do CC, mas não obteve retorno”. Por outro lado, o GPA Capital defende que, ao longo da negociação, aceitou diversos pedidos do Coelho para destravar o acordo.

“Fui para BH umas três vezes para tratar do assunto. Sentamos com o conselheiros. Alguns são pessoas sensacionais, que estavam ali querendo atuar em prol do clube. Outros víamos que estavam querendo colocar água no churrasco (…) Eles pediam para colocar alguma coisa e nós concordávamos. (Acatamos) praticamente todos (os pedidos). Para não falar que foram 100%, foram 90%.”

Representante do GPA Capital, que pediu para não ser identificado
“Foram três reuniões presenciais, fora as online. Entendemos que alguns conselheiros não estão com vontade de fazer o negócio acontecer. E o que mais me chateou foi que recebi essa informação pela imprensa, não fui nem comunicado pelo América”, acusou o potencial investidor.

 A informação sobre o fim do negócio entre América e GPA Capital foi dada inicialmente pela Itatiaia. O NA avançou na apuração.

Divisão no América

Um conselheiro do América, que preferiu não se identificar, detalhou à reportagem o processo de recusa da proposta. Segundo ele, a negociação foi discutida durante seis meses pelo Grupo de Trabalho formado por quatro membros do Conselho Deliberativo e, ao ser votada, a oferta recebeu dois votos favoráveis e dois contrários.

 “O América SAF teria uma nova diretoria profissional com executivos recrutados no mercado e um conselho de administração de cinco membros (dois indicados pelo clube). Não é somente um negócio de venda da SAF, mas uma estruturação muito mais ampla que visava, além do resultado no futebol, à exploração do patrimônio imobiliário”, declarou o conselheiro, favorável à venda.

A proposta bilionária

O No Ataque teve acesso a detalhes da proposta feita pelo GPA Capital, que estava disposto a arcar com quase R$ 1 bilhão por 80% da SAF do América – os outros 20% ficariam com a associação. A divisão atual aponta 90% para a SAF e 10% para o clube associativo. Além de controlar o futebol, o grupo se tornaria dono do Centro de Treinamento Lanna Drumond – o Independência, porém, não seria repassado.

 Do total, R$ 187 milhões seriam destinados imediatamente ao pagamento das dívidas da associação e da SAF, enquanto R$ 800 milhões seriam diluídos em 10 anos de investimento – o valor seria colocado no futebol, com correção pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPCA).

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Imagem aérea do CT Lanna Drumond(foto: Divulgação/América)


Ficaria também combinada a criação de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) para exploração comercial de um terreno pertencente ao América localizado em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). O projeto seria de incorporação imobiliária (casas e apartamentos) e lotes. O GPA Capital assumiria os custos da construção, e o América (associação) ficaria com 20% das receitas das vendas (Valor Geral de Vendas – VGV).

O Coelho criaria também uma Sociedade em Conta de Participação (SPC), com o CNPJ do clube, para a exploração comercial do Independência, com obras de estacionamento vertical e uso de gramado sintético, com objetivo de transformar o estádio em palco para shows e evento culturais. Os custos seriam arcados pelo fundo de investimentos – o alviverde teria direito a 50% do lucro da operação.