* por Sérgio Marchetti - Convidado
Dia desses, um cliente da mentoria me confidenciou que estava depressivo e que talvez seu atual estado o impedisse de acreditar na solução de tantos problemas que assolam o Brasil.
Fiquei preocupado com sua desesperança, mas disse a ele que a crise de caráter e a corrupção afetam as mentes das pessoas de bem.
Horas depois, refletindo melhor, já solitário em meu canto, me lembrei do conto de Machado de Assis: “O Alienista”. Lá, naquelas ricas páginas, um médico psiquiatra, depois de internar toda a população do lugar, concluiu que o louco era ele; por ser o único que não tinha hábitos e costumes estranhos.
O conto Machadiano me faz pensar que os honestos, aqui nesta terra de Cabral, correm o risco de serem considerados “idiotas” e merecerem o cárcere.
Mas, voltando a mim, recolhendo-me à minha insignificância, consigo entender o que aconteceu com meu cliente e, de sobra, compreendi o que acontece com as pessoas neste momento do mundo, ou melhor me situando, do Brasil.
Não somos loucos. Apenas não conseguimos conviver com o “absurdo” e, considerando a impotência para conter tanta audácia, acabamos adoecendo.
Contextualizando, em 2025 tivemos um aumento expressivo de afastamentos por saúde mental. Foram mais de 546 mil. Nosso país lidera o ranking na América Latina em casos de ansiedade e depressão. Os afastamentos por síndrome de burnout cresceram exponencialmente, atingindo quase 500% entre 2021 e 2024.
imagem ilustrativa gerada com auxílio de inteligência artificial
O Brasil está em coma por falência de órgãos. A população está doente, as mentes confusas, os pensamentos perdidos e a vergonha reprimida por compactuar com tanta ilegalidade. A ética morreu atropelada. A verdade foi suprimida de nosso dicionário. O rei está nu. Mas toda nudez será perdoada.
Não somos cidadãos. Somos vítimas de escolhas equivocadas.
É preciso aceitar os erros. Afinal, errar é humano. Mas é necessário ter humildade e coragem para corrigi-los.
O que é pior, nesse vergonhoso e lamentável contexto, é o fato de sabermos de onde vem tanto desvio de conduta (para usar um eufemismo).
A esperança, mesmo sendo a última que morre, agoniza em berço esplêndido.
Rui Barbosa, com sua cabeça grande de gênio, não conheceu a verdadeira face da “desonestidade lícita” e da justiça sem a venda nos olhos. Teria, hoje, ainda mais vergonha de ser honesto.
Prevalece, no aqui e agora, um estado de estagnação coletiva. Nenhum pensador, de qualquer tempo, compreenderia, filosoficamente, os caminhos tortuosos que homens ditos “inteligentes” escolheram.
Há um requinte de crueldade no ar.
David Hume, Auguste Comte e Schopenhauer, para citar alguns filósofos, defendiam respectivamente a virtude moral, o altruísmo, a moralidade e, o último, a compaixão.
Infelizmente, nada do que vemos no mundo real reflete a ideia de humanização pregada por eles.
Esse cenário incerto e insidioso se repete nas organizações, nas quais os dirigentes – muitos de caráter duvidoso – usam “parceiros” de boa fé para os trabalhos mais difíceis, abusando de sua prestatividade e gratuidade. Porém, quando surgem as melhores oportunidades, os escolhidos, em detrimento dos “parceiros”, são pessoas que têm alguma influência ou podem gerar status aos pobres de espírito que, do alto de suas vaidades e de um hedonismo corrompido, imaginam-se semideuses.
Creio que muitos de vocês, dedicados leitores, já tiveram o desgosto de passar por isso. A verdade é que “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”. (Mateus 22:14).
Essa é a realidade desse teatro mesquinho, sustentado por um jogo de interesses; situação na qual não cabem confiança, gratidão e lealdade.
O sistema cheira mal e gera asco.
(”Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder/ o que não dá mais pra ocultar/e eu não posso mais calar(…)”).
E, mesmo com toda a positividade que procuro exercitar, constato, com tristeza, que há algo de muito podre no reino da Dinamarca. Da Dinamarca?
*Sérgio Marchetti é consultor organizacional, palestrante e Educador. International Certification ISOR em Holomentoring, Coaching & Advice (coaching pessoal, carreira, oratória e mentoria). Atuou como Professor de pós-graduação e MBA em instituições como Fundação Getúlio Vargas, Fundação Dom Cabral, Rehagro e Fatec Comércio, entre outras. É pós-graduado em Administração de Recursos Humanos e em Educação Tecnológica. Trinta anos de experiência em trabalhos realizados no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br




