No final de 2025 e início de 2026, Trancoso, distrito de Porto Seguro no sul da Bahia, consolidou-se mais uma vez como o refúgio preferido de celebridades e endinheirados. Virginia Fonseca, Vini Jr., Bruna Marquezine, Ivete Sangalo, Luciana Gimenez e até nomes internacionais como Shawn Mendes escolheram o local para celebrar a virada do ano, lotando festas luxuosas como a do Taípe e o Ayumar, com shows de Jorge & Mateus, Wesley Safadão e Bell Marques. 

O aeroporto privado de Terravista esgotou vagas para pousos e pernoites, com um congestionamento de jatinhos que reflete o influxo de uma elite midiática e financeira em busca de praias exclusivas e noites badaladas. Mas por trás das fotos glamorosas nas redes sociais, há uma história de apagamento cultural e social que transforma um antigo território quilombola em um enclave para poucos.

Antigo quilombo

Trancoso surgiu no século 16 como um aldeamento jesuíta, mas sua essência remete aos quilombos, comunidades formadas por escravos fugitivos que resistiam à opressão colonial no Brasil. Até os anos 1970, era uma vila de pescadores nativos, com sincretismo religioso, festas comunitárias como as puxadas de mastro e um cotidiano marcado por memória coletiva, tambores e partilha. O Quadrado, coração histórico do lugar, era um espaço vivo de convivência, onde rezadeiras, parteiras e famílias locais teciam o dia a dia.

Esse cenário mudou drasticamente com o boom turístico e a especulação imobiliária. A partir dos anos 1980, hippies e artistas descobriram o vilarejo, mas o que se seguiu foi um processo de gentrificação acelerada, disfarçado de "progresso" e "turismo qualificado". Nativos foram expulsos, casas simples vendidas como ativos de luxo, e o território "higienizado" para atrair visitantes endinheirados. O que era comunidade virou vitrine: lojas de grife, restaurantes caros e hotéis exclusivos substituíram o samba na mesa e o baba de fim de tarde. A igreja, outrora centro espiritual, agora serve de cenário para casamentos badalados. Dinheiro fluiu para alguns, mas a memória coletiva foi apagada, deixando um lugar bonito, caro e vazio de alma.

Paraíso sem alma

Um post no Instagram de Iza Souza (@manjar_ancestral), publicado na última quinta-feira (9/1), captura essa crítica de forma pungente. Na postagem, ela narra como chegou a Trancoso há vinte anos e viu o Quadrado como território vivo, com pescadores, sincretismo e festas familiares. "Trancoso foi higienizado, branqueado e arrancado de quem o fez existir", escreve ela, descrevendo o apagamento brutal disfarçado de valorização imobiliária. O post, com imagem antiga do Quadrado resgata memórias do passado, enfatiza a perda de pertencimento: "o sincretismo religioso não era espetáculo, era prática cotidiana. Tudo começava com reza e comida partilhada nas casas simples".

Iza Souza vai além: "esse território tinha memória, cheiro de comida, som de tambor e riso de criança. Tinha conflito, improviso e pobreza, mas tinha pertencimento. E isso foi arrancado com pressa. Onde havia vida, vizinhança e cotidiano comunitário, hoje há lojas e restaurantes de grife. O território virou vitrine, o afeto virou mercadoria e a memória passou a incomodar”. O post ecoa discussões sobre resistência cultural, com usuários lamentando a especulação que empurra os originários para fora, enquanto a elite desfruta do "paraíso.

A cozinheira e pesquisadora finaliza a postagem com um desabafo: "a história de Trancoso não está nos livros, está na lembrança dos que ficaram e dos que foram empurrados para fora. Está na oralidade, nas ausências e nos silêncios. Existem pessoas resistindo, mas a especulação imobiliária é uma máquina pesada. O que se vê hoje é um lugar bonito, caro e vazio de alma. Quando um território perde sua gente, ele deixa de ser comunidade e vira apenas cenário".

Esse "embranquecimento" não é isolado. Quilombos em todo o Brasil enfrentam pressões semelhantes, com herança africana invisibilizada em nome do desenvolvimento. Em Trancoso, a virada de 2025 para 2026 exemplifica isso: enquanto famosos como Gabigol, Memphis Depay e Elba Ramalho curtiam festas luxuosas, o aeroporto lotado simbolizava a exclusão. Como aponta um post no X, há confusão entre elite econômica e midiática – Trancoso é acessível à classe média alta, mas os verdadeiramente ricos buscam discrição em outros lugares, deixando o vilarejo como palco para a ostentação visível.

O turismo de luxo em Trancoso beneficia poucos, enquanto agrava desigualdades. A especulação imobiliária, como vista em outros contextos brasileiros, expulsa comunidades tradicionais, transformando herança em commodity. O que resta é um destino "exclusivo", mas esvaziado de sua essência quilombola, onde a elite escapa da realidade enquanto os originários lutam pela memória. Sem políticas de preservação cultural, Trancoso arrisca virar apenas um cenário bonito para selfies de famosos, ignorando as raízes que o tornaram único.