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O ejiao, tradicionalmente associado a benefícios para a circulação sanguínea, fertilidade e vitalidade, passou de remédio regional a item de prestígio ligado ao aumento de renda da classe média chinesa. Essa valorização econômica elevou o preço das peles e incentivou a formação de redes de fornecedores no exterior. Em muitos locais, os jumentos, antes usados como força de trabalho e patrimônio das famílias rurais, passaram a ser vistos como mercadoria de exportação rápida. Asism, isso altera rotinas agrícolas, modos de vida e relações de dependência entre pessoas e animais.
A cadeia de produção pouco conhecida está afetando profundamente populações rurais e ecossistemas inteiros –
depositphotos.com / gezafarkas
O que é o ejiao e por que a demanda cresce tanto?
O ejiao é um produto obtido pela fervura prolongada da pele de jumentos, que dá origem a uma espécie de gelatina endurecida. Esse concentrado é vendido em tijolinhos, em pó ou misturado a outros ingredientes em xaropes, doces e cápsulas. Assim, a palavra-chave principal dessa cadeia é justamente ejiao, hoje presente em farmácias de medicina tradicional, lojas online e redes sociais chinesas, onde é promovido como suplemento de bem-estar.
Especialistas em mercado apontam alguns fatores para a escalada da procura. São eles: envelhecimento populacional na China, aumento da renda disponível, valorização de práticas médicas tradicionais e campanhas de marketing que destacam supostos efeitos no combate ao cansaço e ao estresse. Com o rebanho de jumentos domésticos na própria China em declínio desde o fim do século XX, indústrias passaram a buscar matéria-prima no exterior. Com isso, desenharam uma cadeia global que envolve criadores formais, intermediários informais e, em alguns casos, redes de tráfico de animais.
Como o ejiao afeta populações de jumentos na África e na América Latina?
O impacto é mais visível em países africanos, onde o jumento é um recurso essencial para transporte de água, lenha e alimentos. Em nações como Níger, Tanzânia, Quênia ou Etiópia, comunidades rurais relatam furtos em massa de animais e matadouros improvisados operando em áreas pouco fiscalizadas. Assim, a redução rápida dos rebanhos encarece a compra de novos animais e torna mais difícil o deslocamento diário de famílias que dependem deles para acessar mercados, escolas e postos de saúde.
Na América Latina, o fenômeno ganhou força a partir da década de 2010, com destaque para o Nordeste brasileiro e regiões rurais de países como Colômbia, Peru e México. Jumentos, antes considerados parte do patrimônio cultural e da economia local, começaram a ser adquiridos em grande volume por atravessadores. Em alguns casos, animais abandonados em rodovias ou áreas semiáridas foram recolhidos por empresas ou pequenos abatedouros com foco em exportação de peles. Portanto, essa demanda repentina contribuiu para uma queda acentuada nas populações, sobretudo onde não havia políticas claras de manejo ou registros detalhados de rebanho.
Há indícios de tráfico e abate irregular de jumentos?
Investigações de organizações internacionais de proteção animal e reportagens locais apontam sinais consistentes de tráfico de jumentos e abate clandestino em diferentes regiões. Entre os padrões mais citados estão o roubo de animais em áreas rurais, transporte em condições precárias por longas distâncias e uso de abatedouros não licenciados. Além disso, há relatos de falsificação de documentos sanitários e de origem para viabilizar a exportação de peles.
Esse tipo de atividade ilícita costuma se aproveitar de fronteiras extensas e pouco vigiadas, da falta de integração entre cadastros agropecuários e da baixa prioridade histórica dada aos jumentos em políticas públicas. Em alguns países africanos, autoridades passaram a registrar apreensões de carretas carregadas de pele ou animais vivos sem documentação adequada. Na América Latina, fiscais sanitários e policiais ambientais relatam dificuldades para rastrear rotas de comércio que misturam operações legais e ilegais, o que cria um cenário propício para a atuação de quadrilhas especializadas.
Quais são as consequências ambientais e sociais dessa cadeia de produção?
A redução rápida de rebanhos provoca uma série de efeitos em cascata. Do ponto de vista social, comunidades que dependem dos jumentos para trabalho agrícola e transporte veem seu cotidiano alterado. Sem o animal de carga, tarefas diárias como buscar água ou levar produtos ao mercado passam a consumir mais tempo e esforço físico, afetando principalmente mulheres, idosos e crianças.
Perda de meios de subsistência: famílias que complementavam renda alugando jumentos ficam sem essa fonte de recursos;
Pressão sobre serviços públicos: aumento da demanda por veículos motorizados comunitários ou transporte escolar onde isso é possível;
Desigualdade rural: quem consegue vender animais por bom preço se reorganiza; quem perde por furto ou desvalorização fica mais vulnerável.
No campo ambiental, a retirada massiva de jumentos altera práticas de manejo do solo. Em áreas de agricultura familiar, esses animais ajudam a transportar insumos, arar pequenas roças e recolher resíduos orgânicos. Sem eles, comunidades podem migrar para alternativas mais intensivas em combustíveis fósseis ou simplesmente reduzir a produção, o que impacta cadeias alimentares locais. Há ainda o problema de descarte inadequado de carcaças em abates clandestinos, que pode contaminar cursos dágua e atrair vetores de doenças.
Do ponto de vista social, comunidades que dependem dos jumentos para trabalho agrícola e transporte veem seu cotidiano alterado – depositphotos.com / sanddebeautheil
Que iniciativas internacionais tentam conter o avanço do ejiao sobre os jumentos?
Diante do ritmo acelerado de abate, diversos países africanos aprovaram proibições totais ou parciais ao comércio de peles de jumento para exportação. Medidas incluem fechamento de matadouros especializados, embargos à exportação e exigência de licenciamento rigoroso. Em alguns casos, governos passaram a cooperar com organizações intergovernamentais para fortalecer fiscalização em fronteiras e capacitar agentes locais.
No plano global, entidades de bem-estar animal defendem a inclusão mais robusta dos jumentos em acordos de proteção de espécies domesticadas e a criação de mecanismos de rastreabilidade para peles e derivados. Também ganham espaço propostas de alternativas sustentáveis, como:
Pesquisa de substitutos de origem vegetal ou sintética que reproduzam as propriedades desejadas do ejiao;
Promoção de boas práticas de manejo em criações formais, com limites de abate compatíveis com a reposição dos rebanhos;
Campanhas de informação ao consumidor na China e em outros mercados para reduzir a pressão sobre populações de jumentos em queda;
Apoio financeiro e técnico a comunidades rurais afetadas, para que possam diversificar suas fontes de renda.
Na esfera diplomática, surgem diálogos entre países exportadores de peles e autoridades chinesas para discutir padrões mínimos de bem-estar animal, rastreabilidade e volume de importação. Ao mesmo tempo, setores da própria medicina tradicional chinesa começam a debater o papel do ejiao em uma era de preocupação crescente com conservação, saúde pública e comércio responsável, abrindo espaço para novos modelos de produção menos dependentes do abate em massa de jumentos ao redor do mundo.
*com uso de Inteligência Artificial
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O ejiao, tradicionalmente associado a benefícios para a circulação sanguínea, fertilidade e vitalidade, passou de remédio regional a item de prestígio ligado ao aumento de renda da classe média chinesa. Essa valorização econômica elevou o preço das peles e incentivou a formação de redes de fornecedores no exterior. Em muitos locais, os jumentos, antes usados como força de trabalho e patrimônio das famílias rurais, passaram a ser vistos como mercadoria de exportação rápida. Asism, isso altera rotinas agrícolas, modos de vida e relações de dependência entre pessoas e animais.
A cadeia de produção pouco conhecida está afetando profundamente populações rurais e ecossistemas inteiros –
depositphotos.com / gezafarkas
O que é o ejiao e por que a demanda cresce tanto?
O ejiao é um produto obtido pela fervura prolongada da pele de jumentos, que dá origem a uma espécie de gelatina endurecida. Esse concentrado é vendido em tijolinhos, em pó ou misturado a outros ingredientes em xaropes, doces e cápsulas. Assim, a palavra-chave principal dessa cadeia é justamente ejiao, hoje presente em farmácias de medicina tradicional, lojas online e redes sociais chinesas, onde é promovido como suplemento de bem-estar.
Especialistas em mercado apontam alguns fatores para a escalada da procura. São eles: envelhecimento populacional na China, aumento da renda disponível, valorização de práticas médicas tradicionais e campanhas de marketing que destacam supostos efeitos no combate ao cansaço e ao estresse. Com o rebanho de jumentos domésticos na própria China em declínio desde o fim do século XX, indústrias passaram a buscar matéria-prima no exterior. Com isso, desenharam uma cadeia global que envolve criadores formais, intermediários informais e, em alguns casos, redes de tráfico de animais.
Como o ejiao afeta populações de jumentos na África e na América Latina?
O impacto é mais visível em países africanos, onde o jumento é um recurso essencial para transporte de água, lenha e alimentos. Em nações como Níger, Tanzânia, Quênia ou Etiópia, comunidades rurais relatam furtos em massa de animais e matadouros improvisados operando em áreas pouco fiscalizadas. Assim, a redução rápida dos rebanhos encarece a compra de novos animais e torna mais difícil o deslocamento diário de famílias que dependem deles para acessar mercados, escolas e postos de saúde.
Na América Latina, o fenômeno ganhou força a partir da década de 2010, com destaque para o Nordeste brasileiro e regiões rurais de países como Colômbia, Peru e México. Jumentos, antes considerados parte do patrimônio cultural e da economia local, começaram a ser adquiridos em grande volume por atravessadores. Em alguns casos, animais abandonados em rodovias ou áreas semiáridas foram recolhidos por empresas ou pequenos abatedouros com foco em exportação de peles. Portanto, essa demanda repentina contribuiu para uma queda acentuada nas populações, sobretudo onde não havia políticas claras de manejo ou registros detalhados de rebanho.
Há indícios de tráfico e abate irregular de jumentos?
Investigações de organizações internacionais de proteção animal e reportagens locais apontam sinais consistentes de tráfico de jumentos e abate clandestino em diferentes regiões. Entre os padrões mais citados estão o roubo de animais em áreas rurais, transporte em condições precárias por longas distâncias e uso de abatedouros não licenciados. Além disso, há relatos de falsificação de documentos sanitários e de origem para viabilizar a exportação de peles.
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Quais são as consequências ambientais e sociais dessa cadeia de produção?
A redução rápida de rebanhos provoca uma série de efeitos em cascata. Do ponto de vista social, comunidades que dependem dos jumentos para trabalho agrícola e transporte veem seu cotidiano alterado. Sem o animal de carga, tarefas diárias como buscar água ou levar produtos ao mercado passam a consumir mais tempo e esforço físico, afetando principalmente mulheres, idosos e crianças.
Perda de meios de subsistência: famílias que complementavam renda alugando jumentos ficam sem essa fonte de recursos;
Pressão sobre serviços públicos: aumento da demanda por veículos motorizados comunitários ou transporte escolar onde isso é possível;
Desigualdade rural: quem consegue vender animais por bom preço se reorganiza; quem perde por furto ou desvalorização fica mais vulnerável.
No campo ambiental, a retirada massiva de jumentos altera práticas de manejo do solo. Em áreas de agricultura familiar, esses animais ajudam a transportar insumos, arar pequenas roças e recolher resíduos orgânicos. Sem eles, comunidades podem migrar para alternativas mais intensivas em combustíveis fósseis ou simplesmente reduzir a produção, o que impacta cadeias alimentares locais. Há ainda o problema de descarte inadequado de carcaças em abates clandestinos, que pode contaminar cursos dágua e atrair vetores de doenças.
Do ponto de vista social, comunidades que dependem dos jumentos para trabalho agrícola e transporte veem seu cotidiano alterado – depositphotos.com / sanddebeautheil
Que iniciativas internacionais tentam conter o avanço do ejiao sobre os jumentos?
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