Qual é a coisa mais básica para um ser humano? Um nome e sobrenome, possivelmente. Mesmo antes de chegar ao mundo, muitos já têm um conjunto de palavras que vai acompanhá-los a vida inteira. E mesmo aqueles que nascem sem um raramente saem do lugar onde nasceram sem ele. Mas ao protagonista de “Do Outro Lado do Mar”, espetáculo do coletivo baiano Cia Teatro dos Novos, que será apresentado neste sábado (17/10) e domingo (18/10), no Teatro de Bolso SESIMINAS, não foi dado o direito de ter um.

Na trama, ele é apenas o Pescador, que, certo dia, depois de ter vários direitos negados por conta dessa condição, vai em busca desse registro. Quem vai auxiliá-lo na obtenção do documento é Dorotéia, uma funcionária pública cuja rotina é marcada pela monotonia e pela apatia, uma vez que passa os dias trabalhando em um balcão de atendimento localizado em uma praia deserta. Esse encontro, banal a princípio, transforma-se em uma história carregada de poesia, que busca provocar uma reflexão profunda sobre trabalho, burocracia, solidão e identidade.

À medida que a trama dirigida por Márcio Meirelles avança, porém, fica evidente que o simples fato de ter um nome não significa necessariamente ter entendimento sobre si mesmo.

“O Pescador, embora não tenha o papel, tem plena consciência da sua identidade. Já Dorotéia, a funcionária pública que tem o documento e, mais que isso, que tem o poder de emitir o documento, vai percebendo que sabe muito pouco sobre si. É uma peça que nos faz refletir sobre quem somos verdadeiramente e sobre aquilo que vamos nos tornando sem perceber. E que fala também sobre quem somos a partir do olhar do outro, que lugar ocupamos em uma sociedade regida pelo capital, pela produtividade, pela burocracia”, afirma Edu Coutinho, ator e produtor do espetáculo.

Ele divide a cena com Chica Carelli, que dá vida a Dorotéia, e com o músico Ramon Gonçalves. “Na história, as palavras ‘identidade’ e ‘nascimento’ extrapolam a ideia de ‘carteira de identidade’ e de ‘certidão de nascimento’ e vão sendo abordadas em suas dimensões mais amplas e profundas”, destaca o ator.

Segundo ele, Dorotéia é uma personagem sequestrada pelo sistema, enquanto o Pescador aparece para mostrar a ela que ainda há tempo para encontrar outras razões para existir e diferentes modos de viver. “Ela vive para o trabalho e encontrou, na sua rotina de escritório, a razão da sua existência. E o mesmo sistema que gerou nela a satisfação ilusória de que ela era útil, valiosa, importante para a sociedade foi a descartando quando ela começou a envelhecer”, detalha.

Já o Pescador vive em outro mundo, em que as leis da natureza valem mais que as dos homens. “O Pescador vive orientado pelas marés, pelos ventos e pelas estrelas, como a própria dramaturgia aponta. Mas, como a vida não é tão bela assim, mesmo o Pescador acaba sofrendo quando se choca com o sistema. Ele não está totalmente livre da violência. E aqui a peça nos faz pensar sobre as desigualdades sociais, sobre os invisíveis sociais”, salienta.

Por invisíveis, Coutinho se refere aos quase três milhões de brasileiros que vivem sem identidade. “Esse número era ainda maior, mas foi diminuindo com a implementação de políticas públicas como o Bolsa Família, que exigem o registro”, sintetiza.

Obra tem texto de escritora de El Salvador
O espetáculo “Do Outro Lado do Mar” tem texto da autora salvadorenha Jorgelina Cerritos, vencedora do Prêmio Casa de las Américas pela obra. Edu Coutinho foi responsável pela tradução, depois de encontrar o texto entre os muitos livros comprados pelo diretor do espetáculo, Márcio Meirelles.

“Essa dramaturgia estava entre os muitos livros comprados por Márcio Meirelles  em um festival de teatro latino-americano, o FILTE/FIGA, que acontece em Salvador. Na época, eu trabalhava com Márcio como assistente de direção em um espetáculo e falava que gostaria de voltar a trabalhar com ele, na função de ator”, lembra Coutinho.

Então, Márcio lhe contou que tinha comprado muitos livros, mas ainda não os havia lido. “Eu levei os livros para casa e me encantei com ‘Al Otro Lado Del Mar’. De imediato, me chamaram a atenção esses dois personagens que a peça traz. São duas figuras interessantes, estranhas. Elas são muito diferentes uma da outra, mas, ao longo da peça, você vai reconhecendo partes de você em uma e em outra. É um jogo interessante, bem construído, que nos capta pela poesia e, aos poucos, vai nos fazendo pensar sobre as injustiças e incoerências da nossa sociedade”, comenta.

Esta é a primeira montagem no país de uma obra da autora salvadorenha. O espetáculo também marca a primeira vez que o coletivo teatral baiano, fundado em 1959, se apresenta na capital mineira. “É muito bonito poder trazer o nosso trabalho a Belo Horizonte. Esta é uma terra de uma tradição teatral muito especial. Uma cidade que abriga grupos e artistas que acompanhamos e admiramos há muito tempo”, afirma Coutinho.

Segundo ele, a Cia Teatro dos Novos é “está sempre em diálogo com o agora”. “Seja em um texto clássico ou contemporâneo, as encenações da companhia estão sempre falando sobre o tempo de agora. Sobre o velho mundo que está morrendo e sobre os monstros que surgem enquanto o novo mundo ainda demora a nascer, como apontou Antonio Gramsci”, elabora.

Montagem saiu do virtual para o presencial
O espetáculo “Do Outro Lado do Mar” foi gestado em 2022, mesmo ano em que o diretor Marcio Meirelles comemorou 50 anos de carreira e o mundo começava a sair do isolamento provocado pela pandemia. Assim, a obra, originalmente concebida para o ambiente on-line, precisou ser transportada para o presencial.

“O nosso diretor escolheu manter a poética original da montagem, inventada naquele contexto de teatro virtual. Então, continuamos utilizando alguns recursos tecnológicos, como os microfones e as câmeras ao vivo. Isso acabou virando uma assinatura, uma marca do trabalho. Em alguns trechos da peça, nós falamos para a câmera e as nossas imagens são projetadas simultaneamente no cenário. É do público a escolha de para onde olhar”, descreve.

O piso do cenário é construído a partir de uma tela utilizada para proteger fachadas de edifícios em construção ou manutenção. “Ela gera um efeito interessante porque, com o jogo da luz e o da imaginação de cada espectador, ela vai se transformando... Em alguns momentos, parece areia; em outros, ondas do mar e nuvens. O painel, no fundo do palco, é feito com caixas de papelão, que dialogam com os materiais do escritório da personagem Dorotéia: as caixas que abrigam os documentos, os livros e as certidões. É uma construção cenográfica que abre, para o espectador, múltiplas possibilidades de leitura e de associações. E por isso é tão interessante. As projeções surgem como uma nova camada narrativa. Ela amplia, expande, sobrepõe”, destaca.

Ele ressalta que, embora esteja em cena ao lado de Chica Carelli, o espetáculo dialoga com outros profissionais. “Ramon Gonçalves, o músico que executa a trilha sonora ao vivo e inclusive improvisa a partir do que acontece no momento; Rafael Grilo, que produz as imagens e opera o jogo de câmeras e projeções; e Marcos Dede, que opera a luz e vai ajudando a compor as diferentes atmosferas. Além deles, temos as contribuições deixadas por Caio Terra, que compôs a trilha sonora ao lado de Ramon; Moisés Victório, que criou o nosso sistema de transmissão na temporada virtual; Clara Trocoli, que assinou a assistência de direção na primeira montagem; Andréa Elia, a atriz que também interpreta Dorotéia e que, neste momento, não pode estar conosco por outro compromisso; além de muitos outros que colaboraram conosco ao longo do tempo”, aponta.