O governador de Minas e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD), afirmou que a doação para a campanha de R$ 100 mil que recebeu da CEO da Sigma Lithium S.A, Ana Cristina Cabral, não teria sido feita de forma transparente caso houvesse algo ilícito na transferência. Após reportagem de O TEMPO mostrar que a contribuição foi feita 11 dias após o governo de Minas liberar o retorno das atividades da mineradora suspensas após fiscais da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) flagraraem uma série de supostas irregularidades na operação, Simões foi questionado sobre o tema na manhã desta quarta-feira (23/9), durante sabatina promovida pela Rádio CBN e pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico.

“Se houvesse algum tipo de ilícito, a doação não seria feita de forma transparente e pública, com depósito com CPFs e CNPJs declarados”, afirmou durante a entrevista. “Seria muito estranho se ela tivesse feito alguma doação e o governo tivesse tomado alguma ação em favor dela, mas o governo já tinha tomado a decisão. O Ministério Público acompanhou e concordou.”

Simões afirma que soube da doação após divulgação pela imprensa. Ele diz que não se envolve em processos de licenciamento no estado e que o repasse partiu de uma decisão pessoal da CEO da Sigma.

“Entendo que esse é um ato completamente externo à figura do chefe do Executivo, tem que acontecer nas instâncias de controle”, argumenta. “Tanto é que nunca tivemos uma denúncia de corrupção envolvendo os membros do primeiro escalão. Tivemos a Operação Rejeito, mas a nossa secretária, na confusão, é uma das vítimas, ameaçada por um dos presos”, cita, em referência à ex-secretária de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, Marília Carvalho de Melo, que teria sido ameaçada por alvos da operação da Polícia Federal que trouxe à tona um complexo esquema criminoso especializado em mineração ilegal.  

Um dos investigados pela operação “Rejeito”, da Polícia Federal, é o ex-presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) Rodrigo Gonçalves Franco. Segundo a PF, ele teria favorecido os interesses do grupo investigado, tendo exercido influência direta sobre processos de licenciamento ambiental. Franco também teria participado de tratativas diretas com o grupo, cobrando e recebendo vantagens indevidas, como pagamentos mensais em espécie. Ele foi exonerado do cargo. 

Questionado se já havia se encontrado pessoalmente com Ana Cristina, o governador contou que esteve com ela na China e participou de duas reuniões para acompanhar os investimentos da mineradora no Vale do Jequitinhonha para exploração do lítio.

Doação para campanha

Reportagem publicada por O TEMPO nessa terça-feira (22/9) mostrou que, 11 dias após o governo liberar o retorno das atividades da Sigma Lithium S.A – suspensas pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) por uma lista de supostas irregularidades ambientais – a CEO e cofundadora da mineradora, Ana Cristina Cabral, doou R$ 100 mil para a campanha de Mateus Simões.

Pelas redes sociais, Ana reforçou que a transferência não tem ligação com “interesses próprios”. “Doei às claras, no meu CPF, 100% declarado, 100% legal. Não recebo dividendos da Sigma. E faria novamente”, disse. A assessoria da Sigma disse que essa seria a resposta dela aos questionamentos feitos pela reportagem.

Já o governo de Minas afastou qualquer laço de relação entre a assinatura do TAC e a doação de campanha. “A Feam esclarece que as defesas administrativas apresentadas em relação aos autos de infração seguirão o fluxo regular de análise e serão avaliadas conforme a ordem cronológica de recebimento, ressalvadas as hipóteses de prioridade previstas em lei ou decorrentes de decisão administrativa ou judicial devidamente fundamentada”, disse.