Um antigo aliado do candidato a governador de Minas Gerais Patrus Ananias (PT) tem na ponta da língua o conselho que gostaria de dar ao participante da corrida pelo Palácio Tiradentes. Integrante da “velha guarda” da política do estado, três vezes deputado federal e ex-diretor da Cemig, Aloísio Vasconcelos avalia que o candidato precisa concentrar a campanha em três regiões do interior do estado.

Sul, Zona da Mata e Triângulo Mineiro deveriam ser os três focos principais da campanha do candidato do Partido dos Trabalhadores, conforme afirmou durante entrevista ao Café com Política, disponível no canal de O TEMPO no YouTube. Em Belo Horizonte, que governou, Patrus Ananias já tem popularidade suficiente, afirma Vasconcelos.

Patrus e Aloísio estiveram juntos em uma campanha, a de 2012, para a Prefeitura de Belo Horizonte. Patrus era cabeça de chapa, com Aloísio, então filiado ao PMDB, partido no qual passou a maior parte de sua trajetória política, de vice. Aloísio também foi presidente da Eletrobras no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 2003 a 2006. 

Na Cemig, ocupou três cargos. As diretorias de geração, distribuição e de comercialização. Todos durante o governo de Itamar Franco, que comandou o estado de 1999 a 2002.

Aloísio Vasconcelos, hoje sem partido, destrincha a estratégia que sugeriria a Patrus, com quem não teve contato, pelo menos por enquanto, na campanha atual. “Eu sugeriria que ele deixasse Belo Horizonte, onde tem índice de conhecimento de 94%. Ele está muito consolidado na capital. Se eu pudesse influenciar na campanha, diria: ‘Patrus, vá para o Triângulo, para o Sul de Minas e para a Zona da Mata’”, disse, na entrevista. As três regiões reúnem alguns dos principais colégios eleitorais do estado, excluída a capital.

No Triângulo Mineiro, está Uberlândia, cidade com o segundo maior número de eleitores em Minas Gerais, com 538 mil títulos. Na Zona da Mata, está Juiz de Fora, que ocupa a quarta colocação, com 235 mil eleitores. No Sul, ficam cidades como Poços de Caldas, Pouso Alegre e Varginha, que não estão entre as dez com mais eleitores, mas todas com mais de 100 mil eleitores.

“Triângulo, Sul e Zona da Mata, somadas, têm quase 53% dos eleitores do estado. (Para) quem ganha nessas três regiões, a chance eleitoral é muito grande”, argumenta Vasconcelos.

Juiz de Fora. Patrus, ao menos nos últimos dias, parece dar à sua campanha o mesmo direcionamento que o aliado o sugeriria. O candidato esteve nos últimos dias em Juiz de Fora e faria campanha em Uberlândia, o que não foi possível por falta de condições para pouso no aeroporto da cidade, na terça-feira passada.

Patrus já esteve também em Varginha, no Sul de Minas. A passagem para ato de campanha na cidade aconteceu em 31 de agosto. Na eleição de 2012, Patrus e Aloísio foram derrotados pelo prefeito Marcio Lacerda, que disputava a reeleição.

Cemig é “intocável”, diz ex-diretor

O ex-deputado federal e ex-diretor da Cemig Aloísio Vasconcelos, que ocupou por quatro anos cargos de comando na estatal, classifica a empresa como “intocável” diante da possibilidade de privatização da companhia. O ex-dirigente diz que a empresa tem um papel social a cumprir, o de fazer eletrificação rural, possibilitando o desenvolvimento do estado.

Aloísio ocupou três diretorias na Cemig durante o governo de Itamar Franco: geração, distribuição e comercialização de energia. A possibilidade de privatizar a Cemig foi promessa de campanha do ex-governador Romeu Zema (Novo) que, no entanto, não conseguiu levar a proposta adiante por obstáculos enfrentados na Assembleia Legislativa, onde a venda precisava ser aprovada. A maioria dos deputados era contra a privatização. 

“A privatização não pode existir. A Cemig é uma empresa para prestar serviço: para prestar eletrificação rural e para levar desenvolvimento a todas as regiões”, diz.

“Orçamento secreto é afronta à decência”

Vinte e oito anos após encerrar, em 1998, o último de seus três mandatos consecutivos como deputado federal, o engenheiro elétrico Aloísio Vasconcelos, hoje sem partido, mas com longa passagem pelo MDB, fez uma análise do atual momento da Casa Legislativa em que ocupou cadeiras por 12 anos. O ex-deputado criticou a existência de algo que não havia nos anos em que esteve na Câmara: o orçamento secreto, como é conhecido o mecanismo de repasse de recursos da União via indicação de parlamentares.
 
Para o ex-deputado, “trata-se de uma afronta à decência política.” Criado em 2019, 25 anos, portanto, após a última eleição de Vasconcelos para a Casa, o mecanismo, na avaliação do ex-deputado, é também uma forma de permitir concorrência desleal entre possíveis candidatos às eleições. “Isso não combina com a decência política. Não combina com a transparência eleitoral”, diz o ex-deputado federal.

O orçamento secreto permite o direcionamento, por parlamentares, de recursos federais para obras e projetos sem identificação do destino, o que pode favorecer a corrupção. À época em que ocupou cadeiras na Câmara, havia o direcionamento de recursos federais por deputados, o que ocorria, assim como hoje, via emendas parlamentares com destino identificado.