ENTREVISTA

Em seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Lohanna França (PV) se destaca como uma das principais lideranças no bloco de oposição ao governador Romeu Zema (Novo). Aos 30 anos recém-completados, a parlamentar já planeja sua campanha para a Câmara dos Deputados e, em entrevista ao Estado de Minas, falou sobre suas pretensões para 2026 também como um nome capaz de se opor ao senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), seu rival político local.

Em primeira mão, a deputada contou ao EM sobre seu trabalho para representar o PV em Brasília e revela a insatisfação da legenda com a não representação na Câmara dos Deputados. Líder da bancada feminina da Assembleia, Lohanna ainda trata sobre seu trabalho na luta pela igualdade de gênero e destaca a expansão do pensamento progressista pelo interior de Minas Gerais como uma das principais bandeiras de seu mandato.

Lohanna iniciou sua jornada em Divinópolis, pólo do Centro-Oeste mineiro e absolutamente relevante no cenário político contemporâneo. A Câmara Municipal da cidade contou em seus quadros recentes com a parlamentar de oposição a Zema e com o atual senador Cleitinho, nome cotado para concorrer ao governo estadual em 2026. Com a missão de fazer frente ao rival local, a parlamentar se cacifa ainda mais como um nome importante da centro-esquerda no pleito do ano que vem.

Como foi a sua atuação nesses dois primeiros anos e quais são as prioridades para os próximos dois anos finais dessa legislatura? 

Nós tínhamos três desafios muito grandes quando assumimos o mandato. O primeiro desafio era conseguir pautar uma política progressista no interior, porque a gente sabe que a Região Metropolitana tem nomes progressistas muito importantes, muito relevantes e que fizeram muito na história do nosso estado. Mas enquanto vereadora no interior de 2021 ao final de 2022, eu sempre senti uma ausência dessas figuras nas lutas cotidianas que a gente tinha. Eu me lembro de uma situação muito específica quando eu estava conversando sobre sobre a luta contra os resíduos da construção civil e a poluição nos rios de Divinópolis, e vários amigos aqui da Região Metropolitana, muito engajados nas lutas pelo meio ambiente, não faziam ideia do que a gente tinha passado, mesmo com ampla divulgação nas redes.

Havia uma uma decisão do mandato, desde o início, de pautar uma política progressista, uma visão de mundo de centro-esquerda, de defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, da cultura, das mulheres, educação pública e tantos outros temas com a perspectiva do Partido Verde. Minas Gerais é um país, o estado é muito grande e a gente precisa ter atenção com o que acontece nas cidades, contando com a Região Metropolitana, mas com esse olhar que consegue ir além dela. A gente também tinha uma perspectiva importante de conseguir pautar a defesa da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg). Foi uma das minhas principais pautas de campanha por entender que uma universidade tão preciosa, tão capitalizada, tão fundamental, inclusive para o estudante trabalhador, que é o público principal, estava abandonada no governo e eu acredito que nesse ponto também a gente conseguiu avançar muito.

Um terceiro aspecto foi criar algum alguma força política, porque eu fui eleita vereadora, apesar de tudo. Eu fui eleita vereadora com ninguém acreditando que isso era possível, como muitas mulheres, colocada na chapa para servir para dar votos e eleger alguém, e eu fui a mais votada da história da cidade numa eleição que não teve um padrinho político. Eu não venho de família política, eu não venho de família rica, eu venho de uma família de professores, de advogados, de fotógrafos, de trabalhadores. E nessa família que não tem ninguém político, não parecia ter alguém que colocou a mão na minha cabeça e me conduziu até a cadeira. A eleição para deputada foi uma eleição que, apesar de começarem a achar que eu tinha alguma chance, eu também não tinha nenhum grande padrinho político e continuo não tendo.

A senhora acredita que o trabalho de barrar projetos do Executivo, que toma tanto tempo da oposição, dificulta um trabalho propositivo também dos deputados que são contrários ao governo? 

Não, de forma alguma. A gente consegue fazer as duas coisas, dá muito trabalho. A gente tem feito propostas para o estado em âmbitos diferentes, o  problema é que o governo se organiza para barrá-las nas primeiras comissões. Hoje a gente está inclusive no momento de discutir com a Comissão de Constituição e Justiça um melhor avanço das pautas, porque o governo tem sido muito agressivo e tentado segurar vários projetos de vários deputados que tem uma perspectiva propositiva [...].

Se o governo parte para o enfrentamento puro e simples, o número de parlamentares costuma ter para vencer. Mas a questão é que dá a impressão de que a gente não tá ali para construir, mas nós estamos. Entendemos que a oposição tem que minimamente escutar o que a gente tem para trazer, porque afinal de contas, os deputados foram eleitos pelos mineiros, como foi o governador e os deputados da base. 

Um dos seus pontos principais desse mandato era ampliar essa questão progressista no interior. Fica mais complicado quando o governador é tão abertamente oposto ao PT e principalmente ao governo federal? 

Eu acho que ele facilita o nosso trabalho, porque, sinceramente, as pessoas são muito boas para identificar o ridículo. E o governador Romeu Zema está numa situação muito difícil. Eu me coloco no lugar dele, ele quer uma cadeira para concorrer à presidência da República. Entretanto, não tem viabilidade eleitoral para isso, como todas as pesquisas nos mostram. O candidato preferido da direita numa eventual ausência do do ex-presidente Jair Bolsonaro é Tarcísio de Freitas (Republicanos), não é ele. Ele tenta cavar então uma cadeira de vice, mas não existe candidato a vice, a gente é candidato ao cargo e numa negociação, numa conversa pode-se pode haver uma mudança de posição para vice. E aí ele tenta extremar o mau discurso para pegar essa franja mais radical, essa franja mais autoritária, mais grotesca mesmo, que é justamente a franja que está sendo alvo do Supremo Tribunal Federal. 

Ele está numa situação muito desesperada de alguém que procura uma posição, um lugar ao sol enquanto a fila tá congestionada. Tem o Tarcísio na frente dele, mas tem o Ratinho Júnior, mas tem o Ronaldo Caiado, o Eduardo Leite, tem um monte de gente e ele não se destaca pelo brilhantismo da sua gestão.Vamos lembrar que Minas Gerais está mais endividada do que estava quando ele pegou, que o governo federal de quem ele fala tão mal, pagou uma parte expressiva da dívida em juros.

No cenário de Minas Gerais, você enxerga algum nome para disputar o governo da direita? Seja Cleitinho, que é de Divinópolis, e Mateus Simões. O que que a senhora pensa sobre isso?

Quando eu era cidadã em Divinópolis, sem ocupar cargo público, em 2016, o Cleitinho foi candidato a vereador porque o problema à época eram os vereadores. Então, ele teria que ser eleito vereador para moralizar a Câmara, para resolver a Câmara. Aí ele ganha para vereador. O problema em 2018 é que como vereador ele não tem poder para resolver as coisas da cidade, não tem emenda, aí ele teve que ser candidato a deputado estadual, porque aí sim ele iria conseguir cuidar de Divinópolis e do Centro-Oeste mineiro.

Aí ele ganha para deputado estadual com uma votação muito expressiva em 2020, mas o problema é que o prefeito não era aliado deles, barra as emendas que ele coloca, não deixa as coisas que ele coloca caminharem e tudo mais. Então ele tem que eleger como prefeito o irmão dele, que ninguém sabe o nome e não ganharia para síndico de prédio, se não fosse o irmão do Cleitinho. 

Em 2022, o problema é que como deputado estadual, ele tem uma um sistema que ele tem que enfrentar e ele precisa ir para Brasília, porque é lá que o poder está, ele tem que ser candidato a senador para poder efetivamente fazer alguma coisa. Eu fico pensando se o Cleitinho vai ter que ser presidente do universo para ele dar conta de fazer alguma coisa. 

Isso é muito sério, porque Divinópolis não virou uma Suíça nesses últimos anos. Pelo contrário, a cidade continuou com menos de 10% de tratamento de esgoto. A cidade continua não atendendo para vagas em creche para crianças menores de dois anos prejudicando muito as mães trabalhadoras. A cidade continua com problemas do ponto de vista ambiental enormes, inclusive em contato com o Ministério Público para resolver a contaminação de água, questão de lixão. A cidade continua com problemas na saúde imensos, alinhamento político tem que servir para alguma coisa. 

Eu acredito que se o Cleitinho for candidato a governador, ele é um player importante. Mas é importante que o mineiro e a mineira saibam que lá em Divinópolis, a terra dele, nem ele, nem a família dele que ele ajudou a entrar na política resolveram os problemas que eles se propuseram a resolver. 

A senhora pretende ir para mais um mandato na assembleia, tentar alçar um voo para a Câmara dos Deputados. Como é que está isso no seu planejamento?

O que eu tenho conversado com os nossos vereadores aliados internamente no partido é sobre uma pré-candidatura a deputada federal. Isso tem sido construído inclusive como interesse do partido, porque a gente precisa ter deputados federais nos estados mais populosos. Minas Gerais é um desses estados e com questões que são muito alinhadas com o partido. A defesa do meio ambiente em Minas, talvez seja mais sensível do que em vários estados, porque a gente tem três biomas, temos a maior área preservada de Mata Atlântica aqui no estado. Eu venho de uma cidade coberta por dois rios caudalosos.

A defesa da pauta ambiental, que é tão intrínseca ao meu partido, também impulsiona quando a gente observa esse absurdo que é o PV não ter conseguido eleger nenhum deputado federal na última eleição. O nosso estado não pode ficar sem uma representação federal do PV, e a gente tem deputados estaduais do partido do mais alto nível para nos representar e cuidar da pauta na assembleia, além dos que virão candidatos em 2026 que tenham sido construídos.

Existe hoje dentro do PV uma corrente que propõe o fim da Federação com o PCdoB e o PT. Qual é a visão da senhora nessa situação? Como a senhora acha que isso pode ter impacto na eleição de 2026? 

A federação foi uma alternativa jurídica criada pelo Congresso para que os partidos pequenos pudessem se juntar e ganhar um prazo de mais 4 anos, tornando as suas chapas mais fortalecidas, obviamente, se juntando com quem tenha o mínimo de afinidade programática. Porque tem uma perspectiva de ficar junto em duas eleições, a nacional e a municipal que se segue, e eu consegui enfrentar esse problema. 

Para a gente foi muito positivo em alguns aspectos e muito negativo em outros aspectos. Eu defendi desde o início que a gente apoiasse o prefeito Fuad para que a gente conseguisse pautar aquilo que a gente defendia, aquilo que a gente acreditava dentro de um governo com chance eleitoral. E apesar de gostar muito do deputado Rogério Correia (PT), as pesquisas mostravam uma dificuldade muito grande. Além disso, eu também entendi uma questão de lealdade, porque o prefeito Fuad Noman apoiou o presidente Lula, e eu acredito que quem apoiou o presidente Lula naquela eleição tão definitiva para o rumo da democracia desse país, tem que ser honrado e respeitado. Então a gente viu essa mesma dificuldade no interior, lá no Centro-Oeste.

Hoje essa discussão está sendo feita em plano nacional, eu estou vice-presidente estadual do partido, nosso presidente participa mais dessas discussões, mas parece que essa mesma visão dividida, ela aparece nos outros partidos também. Vamos ver, ainda tem alguns meses para que isso seja decidido, mas o PV, se não estiver federado com o Partido dos Trabalhadores e com o PCdoB, vai estar federado com outro partido do nosso campo também. O que a gente quer é ajudar a eleger deputados federais progressistas. 

Nos bastidores houveram algumas conversas sobre uma possível mudança de partido da senhora. Existe a possibilidade dessa migração? 

Eu acho que hoje não faz sentido pensar numa saída do partido. Obviamente, a gente precisa ter construções de chapa, decidir essa questão da federação, mas eu entendo que a vida política já dá para a gente muita inconsistência, muita insegurança. O partido não pode ser mais um desses lugares, tem que ser terra firme para a gente pisar. E a gente conseguiu construir isso, graças ao nosso presidente e a todas as outras figuras da executiva e hoje minha pretensão é continuar no PV. 

É perceptível uma ausência de nomes públicos ligados à esquerda, enquanto nomes de direita se mobilizam de forma mais concreta na disputa pelo governo de Minas.  Qual é a sua opinião sobre a mobilização da esquerda, é satisfatória para você? O que precisa melhorar ali dentro para que vocês possam de fato competir com essa questão da popularidade?

Eu acho que a gente não pode negar que o campo progressista tem vivido momentos difíceis, mas isso tem motivo. Vamos lembrar o que que aconteceu nos últimos anos e a quantidade de ataques que o nosso campo sofreu, teve um impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e o Michel Temer (MDB) assumindo, desmantelando várias políticas públicas importantes. Depois o ex-presidente Jair Bolsonaro, que assume com uma retórica muito bélica. Tivemos o governador Romeu Zema aqui em Minas, e críticas ao trabalho do ex-governador Fernando Pimentel (PT), inclusive dentro do nosso campo. 

Então eu entendo que a gente passou por um momento muito difícil em nível nacional e em nível estadual e que a gente tá se recolocando e se reconstruindo agora. Se por um lado poucos nomes é um problema, muitos nomes também é um problema, porque esse povo do lado de lá tá se matando.  O governador tá comendo banana com casca para tentar aparecer. Quando eu uso o adjetivo ridículo, não é à toa. Esse congestionamento de espaço faz com que eles façam coisas muito malucas para poder tentar ter visibilidade, para poder tentar para ter curtida. Então assim, nós temos um nome que nos unifica a nível nacional, o que eles têm está inelegível, pode ser condenado à prisão. Eles tem 200 nomes, todos se matando e brigando entre si. A gente tem um que está sentado na cadeira e nos unifica.