Brasil247 – Agentes ligados aos Estados Unidos teriam organizado uma operação em território argentino, com apoio do governo do presidente Javier Milei, para viabilizar a fuga do senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) rumo a Miami. Os estadunidenses assumiram por um “lapso de tempo” o controle de “boa parte do aeroporto de Iguazú”. Integrantes da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), servidores da imigração e agentes alfandegários tiveram sua atuação limitada enquanto representantes estrangeiros conduziam etapas da operação. O parlamentar da extrema direita fugiu em um contexto de restrições judiciais e investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Em reportagem, o jornal Clarín descreve a situação nos seguintes termos: “integrantes da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), assim como funcionários da Imigração e da Alfândega, foram mantidos à distância por enviados ou representantes do exterior, que coordenaram os trâmites necessários para a partida dos Bolsonaro”.

A operação envolveu integrantes de serviços de inteligência, autoridades argentinas e pelo menos três jatos particulares, além de uma quarta aeronave possivelmente utilizada como alternativa. O jornal sustenta que o Departamento de Estado americano participou da coordenação das rotas e que o governo Milei mobilizou funcionários para facilitar o embarque de Flávio e seus familiares, apesar das restrições judiciais impostas ao senador no Brasil.

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil também envolveu mudanças na logística inicialmente planejada, segundo fontes ouvidas pelo jornal argentino. A família teria contratado uma aeronave particular para partir de Brasília em direção à região da tríplice fronteira. O proprietário do avião desistiu de realizar o transporte depois que vieram a público as medidas judiciais que restringiam o deslocamento internacional do senador.

Com a recusa, os responsáveis pela operação teriam organizado uma viagem terrestre entre a capital federal e a fronteira com a Argentina, em um percurso superior a 1.600 quilômetros. O trajeto teria mobilizado seis automóveis, que deixaram a residência do parlamentar em Brasília como parte de uma estratégia para dificultar a identificação do veículo utilizado por ele e por seus familiares.

O parlamentar da extrema direita brasileiro foi derrotado durante o segundo turno da eleição presidencial brasileira, que ocorreu no último domingo (25), quando o presidente Lula venceu por 51,79% (64 milhões de votos), contra 48,21% (59 milhões) de Flávio Bolsonaro.

Após o resultado, o presidente dos EUA, Donald Trump, adotou uma tática golpista e questionou a confiança das urnas brasileiras. A mesma posição foi adotada pelo ex-estrategista da Casa Branca Seteve Bannon e pelo bilionário Elon Musk.

Investigações

O senador deixou o território brasileiro na terça-feira (27), após atravessar por terra a fronteira com a Argentina. De lá, seguiu para os EUA em um avião particular, cujo itinerário incluiu uma escala no Equador e foi planejado de maneira a não sobrevoar o Brasil. A saída ocorreu em meio a restrições judiciais e investigações conduzidas pelo STF.

Antes da viagem, a Polícia Federal (PF) havia comunicado à Justiça a possibilidade de o parlamentar tentar sair do país e defendido a imposição de medidas para evitar seu deslocamento ao exterior. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o cancelamento dos passaportes brasileiros do senador e exigiu que ele apresentasse quaisquer documentos estrangeiros que também permitissem viagens internacionais. Flávio, entretanto, não cumpriu a ordem dentro do período fixado.

O parlamentar é investigado em dois procedimentos que tramitam no Supremo. Um deles busca esclarecer a origem e a regularidade dos recursos utilizados no financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica dedicada à trajetória de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por sua participação na articulação golpista.

A segunda apuração concentra-se em movimentações financeiras suspeitas envolvendo empresas do mercado de apostas vinculadas ao advogado Willer Tomaz, que mantém relações pessoais com o senador. Os investigadores procuram identificar possíveis mecanismos utilizados para dissimular a procedência de valores associados a essas operações.

Milei teria determinado participação de assessor na operação

O presidente argentino, Javier Milei, teria acompanhado os preparativos por meio de seu assessor Santiago Caputo, integrante do núcleo político do governo e com influência sobre estruturas de inteligência do país. O ultradireitista determinou que Caputo viajasse à província de Misiones para supervisionar os procedimentos necessários à saída de Flávio Bolsonaro. O assessor manteve contatos com representantes da empresa responsável pelo transporte aéreo e acompanhou a movimentação no aeroporto.

A atuação de Caputo teria incluído a articulação entre funcionários públicos, serviços de segurança e representantes envolvidos na contratação das aeronaves. O objetivo era garantir que a família embarcasse sem encontrar obstáculos durante os procedimentos de saída da Argentina.

Também foi identificada a participação de integrantes da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE), de órgãos migratórios e de funcionários ligados ao Ente Binacional Yacyretá, instituição responsável por atividades relacionadas ao complexo hidrelétrico compartilhado pela Argentina e pelo Paraguai.

A participação de representantes do governo argentino levantou questionamentos sobre o eventual emprego de recursos públicos na operação. A Justiça argentina arquivou a denúncia relativa à suposta irregularidade migratória, mas manteve sob análise a atuação de funcionários e o possível uso de veículos e estruturas estatais.

Plano de fuga teria mobilizado quatro aeronaves particulares

A operação também contou com uma estrutura de transporte aéreo que buscava criar alternativas para a partida de Flávio Bolsonaro e dificultar o acompanhamento de seus deslocamentos. Foram pelo menos três aeronaves contratadas e uma quarta possivelmente vinculada ao planejamento. Os jatos circularam entre aeroportos argentinos, cidades próximas à fronteira brasileira, o Paraguai e os Estados Unidos.

A principal aeronave utilizada no transporte da família foi um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, pertencente à empresa argentina Baires Fly. O avião chegou ao aeroporto de Puerto Iguazú na segunda-feira (26) e permaneceu no local até a madrugada de quarta-feira (28).

Segundo a investigação, representantes ligados aos Estados Unidos participaram da contratação do voo. A aeronave aguardou instruções enquanto os organizadores ajustavam os horários e as condições para o embarque.

Outro avião, um Learjet 45 de matrícula LV-JZQ, também passou pelo aeroporto. O jato deixou a região antes da chegada de Flávio e de seus familiares, em uma movimentação que o periódico interpreta como possível estratégia de distração.

Houve, ainda, a circulação de dois Gulfstream com matrículas americanas, N776MA e N772MS, em trajetos associados à Flórida e à cidade argentina de Posadas, capital da província de Misiones.

Uma dessas aeronaves teria seguido para Assunção, no Paraguai, onde permaneceu como alternativa caso a transferência pelo aeroporto de Iguazú enfrentasse dificuldades. O jornal não conseguiu estabelecer conclusivamente qual dos dois aviões realizou esse deslocamento.

A investigação sustenta que as rotas teriam contado com coordenação de representantes do Departamento de Estado americano. A eventual participação direta da diplomacia dos Estados Unidos no planejamento dos voos ainda depende de confirmação independente.

Família Bolsonaro entrou na Argentina antes do embarque

Registros divulgados pela Direção Nacional de Migrações da Argentina indicam que Flávio Bolsonaro, sua esposa e suas duas filhas cruzaram a fronteira na noite de terça-feira (27), pelo posto internacional da Ponte Tancredo Neves. A autoridade migratória argentina registrou a entrada da família às 22h50. Pouco depois, veículos seguiram em direção ao aeroporto de Puerto Iguazú, onde a aeronave contratada aguardava a chegada dos passageiros.

Imagens divulgadas pela imprensa argentina mostraram veículos com vidros escurecidos circulando nas proximidades da instalação aeroportuária. Ao menos uma das vans teria contado com escolta de integrantes da Polícia de Segurança Aeroportuária. Uma das movimentações registradas pela imprensa também serviu para desviar a atenção do percurso efetivamente utilizado pela família até o avião.

O Gulfstream LV-JQW decolou às 0h21 da quarta-feira, com destino inicial a Guayaquil, no Equador. A escala antecedeu a continuidade da viagem para os Estados Unidos, onde Flávio Bolsonaro pretendia permanecer.

Justiça argentina mantém apuração sobre recursos públicos

As revelações também provocaram questionamentos sobre a utilização de órgãos e funcionários argentinos em uma operação de transporte de um parlamentar estrangeiro submetido a medidas judiciais no país de origem.

A Justiça argentina analisou uma denúncia relativa à entrada e à saída de Flávio Bolsonaro e concluiu que os procedimentos migratórios não configuraram crime segundo a legislação local. O Ministério Público argentino, por sua vez, encaminhou para análise em Buenos Aires as suspeitas relacionadas ao possível emprego irregular de veículos oficiais, servidores e outros recursos públicos.

A investigação preliminar inclui pedidos de obtenção de fotografias e gravações do aeroporto de Puerto Iguazú, além da apuração sobre a participação de autoridades argentinas na organização do deslocamento.