O que era uma audiência de prestação de contas da Polícia Militar acabou servindo de palco para expor uma divisão entre grupos políticos, de olho nas eleições de 2026. O embate ocorreu durante a participação da comandante-geral da PM, coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues, na Assembleia Legislativa.

De um lado, o deputado Caporezzo (PL), cabo da Polícia Militar e aliado do senador Flávio Bolsonaro (PL). Do outro, Gustavo Valadares (PSD), uma das principais vozes da base do governador Mateus Simões (PSD) e defensor do projeto político que inclui a candidatura de Romeu Zema (Novo) à Presidência da República. 

Caporezzo aproveitou a audiência para fazer críticas diretas ao ex-governador e atual pré-candidato à presidência. O deputado questionou supostas cobranças por metas de multas de trânsito e levantou críticas à atuação da PM em operações envolvendo os chamados CACs — caçadores, atiradores e colecionadores. 

“Foi eleito defendendo pauta de direita, com os votos dos caçadores, atiradores e colecionadores, com os votos dos sitiantes; levantando essa bandeira junto com o presidente Bolsonaro e que nada fez porque é um falastrão. Ele é maravilhoso com um microfone, concordo com a maioria das coisas que ele fala. Mas com a caneta o Zema é uma porcaria”, declarou.

Segundo ele, haveria uma espécie de “perseguição” ao grupo, com fiscalizações direcionadas para apreensão de armas. Diante da comandante, Caporezzo pediu que a corporação se comprometesse a evitar esse tipo de ação.

Cleide Barcelos, contudo, evitou referendar as críticas. Ela negou a existência de metas para aplicação de multas e afirmou que a atuação da Polícia Militar segue critérios técnicos e impessoais, sem direcionamento contra qualquer segmento específico da população.

A fala da comandante abriu espaço para uma reação imediata de Gustavo Valadares, que saiu em defesa da corporação e do governo. “Me espanta e incomoda que um deputado venha aqui pedir para que a Polícia Militar desobedeça a lei”, afirmou.

Valadares sustentou que a função da PM é cumprir a legislação de forma impessoal e que eventuais discordâncias sobre as regras devem ser debatidas no Congresso Nacional, responsável por elaborar as leis, e não por meio de pressões para que agentes públicos deixem de aplicá-las.

O posicionamento do deputado da base governista acabou encontrando respaldo da oposição ao governo. O deputado Doutor Jean Freire (PT) criticou a intervenção de Caporezzo e reforçou a necessidade de tratamento igualitário. “A Polícia Militar precisa agir de forma impessoal. Como ocorreu em Brasília a apreensão de uma arma registrada em nome do ex-presidente Jair Bolsonaro que estava com uma agente de segurança. Todos são iguais”, disse.

Presidente da audiência, o deputado Sargento Rodrigues (PL) tentou amenizar a polêmica e contextualizar as declarações do colega de partido, que já havia deixado a audiência. “Ele (Caporezzo) destacou aqui o caso de sitiantes em área rural que estão tendo armas apreendidas. Em algumas regiões, até que a Polícia Militar chegue para a ocorrência, são essas armas que garantem proteção dos moradores”, argumentou.

Prestação de contas

Entre as autoridades que prestaram contas na Assembleia Legislativa na tarde desta terça-feira (16/6), estava o secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, Rogério Greco.