O governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), e o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União), declararam guerra por causa de investimentos na capital mineira. O chefe do Poder Executivo municipal reclama que o Palácio Tiradentes não repassa recursos para infraestrutura e deveria contribuir com mais verbas para a saúde da capital. Simões, por sua vez, diz que Damião se refere a seu governo com "ingratidão".

As declarações não foram dadas frente a frente, já que não há indícios de que o prefeito e o governador tenham se encontrado recentemente, mas em declarações ao Café com Política, que vai ao ar no canal do jornal O TEMPO no YouTube. O embate entre os dois pode ter reflexos nas eleições de 2026, já que Damião é o coordenador da federação formada por seu partido e pelo PP no estado. Segundo Simões, o grupo político o apoia em sua tentativa de reeleição ao Palácio Tiradentes.

Em relação à saúde, Damião levou o embate ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante visita do chefe do Poder Executivo federal a Belo Horizonte, na sexta-feira (10/06), o prefeito, em discurso ao lado de Lula, disse que a prefeitura investe mais recursos do que o estado no setor, mas atende moradores de outras partes de Minas. A divisão atual, conforme o prefeito, são 43% para a prefeitura, 41% para o governo federal e 16% para o estado.

"Quando me perguntam quantos habitantes há em Belo Horizonte, eu digo, entre 2,3 milhões e 2,4 milhões. E você cuida da saúde de todos esses? Eu falo ‘não, cuido da saúde de 6 milhões de pessoas’, porque Belo Horizonte recebe o estado de Minas Gerais inteiro", declarou o prefeito, em discurso ao lado do presidente. Na avaliação do prefeito, a divisão deveria ser igual para os três entes. Uma reunião em Brasília será marcada para discutir a divisão, conforme Damião.

A primeira vez em que o prefeito reclamou sobre a falta de recursos do estado foi durante entrevista ao Café com Política em abril. Ao ser questionado sobre quem apoiaria na disputa pelo governo do estado em outubro, disse que a decisão passaria pelos interesses da cidade que governa. Além de mencionar a falta de recursos para a saúde por parte do estado, reclamou também da falta de dinheiro do Palácio Tiradentes para obras viárias. "Eu tenho que asfaltar a Cristiano Machado, onde passa o ônibus do Move Metropolitano (sistema administrado pelo estado), não tem um Real do governo do Estado", disse.

Damião citou o mesmo para as obras na Antônio Carlos, pela qual também trafega o Move, e a trincheira na região de Venda Nova. "Vai desafogar inclusive todo o vetor norte. E aí não é Belo Horizonte, aí já é É Vespasiano, é Santa Luzia, é Lagoa Santa, e não tem 1 Real do Estado", declarou. As cobranças do prefeito acontecem em momento de pressão no caixa da prefeitura, advindas principalmente do subsídio pago às empresa de ônibus, que em 2026 deverá ficar próximo a R$ 800 milhões. O repasse é feito, conforme a prefeitura, para evitar que a passagem, hoje em R$ 6,25, fique ainda mais cara.

Também em entrevista ao Café com Política, em junho, Simões reclamou das declarações de Damião. "Acho que o prefeito da capital se refere ao governo do Estado com uma ingratidão imperdoável em vários momentos. É o prefeito que mais recebe repasses da saúde, que mais tem efetivo de polícia empenhado, que mais tem investimentos do estado. E (ele) já disse por três ou quatro vezes, que não recebe nada do estado", afirmou o governador.

Segundo Simões, Damião insiste em governar contra a administração do estado. "Isso é um equívoco, porque a prefeitura só se prejudica com isso. Quem é que garante segurança nos jogos de futebol de Belo Horizonte? Quem é que mantém os hospitais de Belo Horizonte funcionando? Porque eu coloco R$ 1 bilhão por ano nos hospitais da rede Fhemig aqui dentro. Nenhuma outra cidade do estado recebe uma fração disso. Eu pago R$ 1 bilhão pelos hospitais funcionando. Nós colocamos o metrô para rodar dentro da cidade", declarou o governador.

Para Simões, no entanto, o embate por investimentos com Damião não deverá afetar as articulações das legendas de ambos para as eleições de 2026, ainda que não haja qualquer definição sobre apoio do prefeito ao governador. "Como coordenador da federação, nossa relação é ótima, institucional, tranquila", afirmou Simões, na entrevista.

Até o momento, o único apoio já declarado por Damião no pleito de outubro é ao ex-secretário de estado de Governo, Marcelo Aro (PP), pré-candidato ao Senado na chapa de Simões. A reportagem entrou em contato com as assessorias do prefeito e do governador nesta segunda-feira (22/06) para informações sobre o confronto por investimentos na capital, mas não houve retorno.