CRISE ANUNCIADA

 A tentativa de reaproximação entre o Governo de Minas e as forças de segurança, puxada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL), abriu uma frente de desgaste dentro do PL. O movimento, que na superfície trata de recomposição salarial e diálogo institucional, é lido por aliados como um gesto político com impacto direto no xadrez eleitoral de 2026.

O estopim foi o almoço realizado em Belo Horizonte com representantes das corporações para discutir a PEC 40, proposta parada há quase dois anos na Assembleia Legislativa e que prevê a revisão anual dos vencimentos de policiais e bombeiros. A iniciativa ocorre em meio à pressão da categoria, que cobra perdas acumuladas e mantém relação tensionada com o Executivo desde o início da gestão de Romeu Zema (Novo), agora sob comando de Mateus Simões (PSD).

Mas o gesto de articulação institucional veio acompanhado de ruído político. Deputados ligados diretamente à pauta da segurança, como Cristiano Caporezzo (PL) e Sargento Rodrigues (PL), não foram convidados para o encontro.

A coluna teve acesso a um texto em que Caporezzo faz um relato direto sobre a relação com Nikolas e o cenário interno do PL. Ele começa situando a origem da proximidade. “Eu conheço o Nikolas desde 2018. Antes do sucesso dele, tínhamos amizade. Ele é um quadro muito importante para o partido e que traz a juventude consigo.”

Na sequência, aponta mudança de comportamento. Diz que hoje o deputado atua com “decisões solo” e afirma que ele “não busca a opinião de nenhum dos deputados” do movimento Direita Minas nem daqueles que o apoiaram no início.

Caporezzo também critica a estratégia política recente. Segundo ele, Nikolas está ajudando o candidato do PSD ao governo com “uma quantidade de material audiovisual que jamais dedicou” à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.

O incômodo se estende à pauta da segurança pública. Mesmo sendo policial militar e deputado do mesmo partido, ele afirma que não foi procurado. “Nem eu ou o Sargento Rodrigues fomos procurados para conversar sobre as forças policiais ou, pior, a respeito de apoio ao Mateus Simões.”

Ele diz que o problema ultrapassa a relação pessoal e afeta a atuação política. Relata que, nas bases da Polícia Militar, é cobrado por decisões que não participou. “As pessoas vinculam a minha imagem à dele e questionam porque nós permitimos que ele se aproximasse de alguém tão ruim para a segurança pública.”

Caporezzo também afirma ter sido ignorado em tentativas de diálogo. Conta que, quando era pré-candidato ao Senado com indicação de Jair Bolsonaro, tentou marcar um encontro com Nikolas após agenda com o ex-presidente. “Fui ignorado”, disse. Segundo ele, o senador Cleitinho Azevedo relatou situação semelhante.

Sobre o cenário atual, o deputado faz uma crítica direta à aproximação com o governo. Diz que não concorda com o apoio a Mateus Simões e avalia que Nikolas tem atuado em defesa do governador “melhor do que a equipe de marketing do governo de Minas”.

Ao tratar da tentativa de convencer as forças de segurança, ele ironiza. Afirma que há um histórico negativo que pesa contra o governo e diz que “nem todo o marketing do mundo” será capaz de reverter essa percepção. Em tom mais duro, completa com a expressão “focinho de porco não é tomada”.

Por fim, Caporezzo defende a reorganização do campo da direita. Afirma que é preciso união em torno da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e a construção de um nome competitivo em Minas. E conclui com divergência clara: “Mateus não é esse nome”.

Nos bastidores, a avaliação dentro do grupo do deputado é ainda mais incisiva. Há convicção de que a articulação envolvendo lideranças da segurança pública pode abrir espaço para candidaturas alinhadas ao governo estadual, o que afetaria diretamente nomes do próprio PL.