Brasil247 – O jornalista e analista político Breno Altman afirmou que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa mudar de eixo na reta final da eleição e apresentar propostas capazes de mobilizar o eleitorado em torno de um projeto para o futuro do Brasil. Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, ele avaliou que a estratégia baseada na formação de uma frente ampla contra o bolsonarismo pode se tornar insuficiente diante das mudanças no cenário eleitoral.

“É preciso um raio em céu azul. É preciso fazer apostas mais ousadas”, afirmou Altman. Para ele, Lula precisa passar de uma campanha defensiva, organizada principalmente em torno da necessidade de derrotar o bolsonarismo, para uma campanha que apresente ao eleitorado mudanças concretas para um eventual quarto governo.

Segundo Altman, a estratégia adotada até agora procura reunir diferentes setores políticos e econômicos contrários à candidatura de Flávio Bolsonaro. Isso explicaria, em sua avaliação, a cautela da campanha presidencial diante de temas capazes de provocar divergências dentro da frente que sustenta Lula.

O problema, afirmou, é que esse desenho foi concebido para uma disputa polarizada entre Lula e o bolsonarismo. A ascensão de Augusto Cury nas pesquisas, ainda que seja necessário aguardar novos levantamentos para saber se o movimento terá continuidade, introduziu uma variável capaz de alterar essa lógica.

“A ascensão do Augusto Cury pode embananar porque pode oferecer às pessoas uma alternativa entre as duas principais candidaturas. E aí a ideia de frente ampla contra Bolsonaro pode enfraquecer”, disse.

Nesse cenário, Altman considera necessário que Lula deixe de concentrar sua mensagem no argumento de impedir o retorno da direita bolsonarista e passe a explicar o que pretende fazer com um novo mandato.

“Você precisaria inverter o eixo da campanha. De uma campanha defensiva, derrotar o bolsonarismo, para uma campanha ofensiva”, afirmou.

Para o analista, a mudança exigiria a apresentação de propostas que estabelecessem diferenças entre Lula e seus adversários. Altman citou como exemplo a regulamentação das apostas esportivas. Segundo ele, o presidente poderia defender a proibição das bets ou, ao menos, da publicidade dessas empresas, além de propor ao Congresso a convocação de um plebiscito sobre o tema.

A questão das apostas, argumentou, permitiria relacionar uma decisão política a um problema que atinge diretamente as famílias: o endividamento. Altman reconheceu que uma iniciativa desse tipo enfrentaria interesses econômicos, inclusive pela arrecadação tributária proporcionada pelo setor e pela presença das empresas de apostas no financiamento do futebol.

É justamente esse tipo de conflito, porém, que ele considera necessário para estabelecer uma identidade política na campanha.

Outro ponto levantado pelo jornalista é o controle brasileiro sobre as terras raras. Altman afirmou que o discurso de Lula em defesa da soberania precisa ser acompanhado por decisões concretas capazes de demonstrar ao eleitorado como esse princípio será aplicado.

Ao comentar a atuação dos Estados Unidos e a possibilidade de interferência externa na eleição brasileira, Altman reconheceu a importância das manifestações de Lula sobre soberania e das críticas às relações entre a Casa Branca e o bolsonarismo. Para ele, entretanto, somente a narrativa não basta.

“Quando o presidente Lula defende a soberania do Brasil, está excelente. Quando ele denuncia os vínculos entre o bolsonarismo e a Casa Branca, está excelente. Mas creio que faltem propostas concretas, ações práticas que sacudam o país”, afirmou.

Altman utilizou como exemplo a situação da Serra Verde, em Goiás, ligada à exploração de terras raras. Para o jornalista, impedir que recursos considerados estratégicos sejam controlados por interesses estrangeiros permitiria transformar o conceito de soberania em uma decisão compreensível para o eleitorado.

Essa preocupação se conecta, segundo ele, a uma questão mais ampla: qual será o modelo de desenvolvimento brasileiro nos próximos anos.

Altman afirmou que Lula possui propostas sociais capazes de marcar a campanha, como a universalização do ensino integral em dez anos. Mas sustentou que medidas dessa natureza precisam estar associadas a um plano para ampliar a capacidade produtiva do país e gerar os recursos necessários à manutenção das políticas públicas.

“Precisa ter também proposta para o desenvolvimento”, resumiu.

O jornalista apontou a reindustrialização como um dos pontos que deveriam ocupar o centro desse debate. Segundo sua análise, programas como a Nova Indústria Brasil e o Novo PAC não foram suficientes para produzir uma mudança na participação da indústria na economia na dimensão necessária para enfrentar a perda de capacidade produtiva acumulada pelo país.

Altman comparou a trajetória brasileira com a de países asiáticos. Lembrou que o Brasil iniciou sua industrialização automobilística quando a China ainda possuía uma estrutura produtiva inferior à brasileira e afirmou que, décadas depois, a relação se inverteu.

Para ele, enfrentar esse quadro exige conectar políticas sociais, industrialização, tecnologia, defesa e exploração dos recursos naturais. Terras raras e indústria nacional de defesa seriam, nessa perspectiva, partes de uma mesma estratégia de desenvolvimento e soberania.

A necessidade de propostas concretas também se relaciona, na avaliação de Altman, ao ambiente da campanha. O jornalista disse ter identificado pouca mobilização eleitoral nas ruas e afirmou que nem o eleitorado de esquerda nem o bolsonarista demonstram o nível de entusiasmo observado em outras disputas.

“A campanha eleitoral está em banho-maria”, afirmou.

Altman questionou se esse cenário favorece Lula. Para ele, a tentativa de preservar uma frente ampla pode evitar conflitos com setores do centro político e econômico, mas também pode dificultar a construção de uma mensagem capaz de mobilizar a base social da esquerda.

“Frente não ganha eleição”, declarou. Segundo ele, o fator decisivo será a capacidade de Lula convencer os eleitores de que seu projeto representa uma perspectiva concreta de futuro para o país.

O analista considera que parte do eleitorado progressista pode estar cansada de uma campanha estruturada principalmente em torno da necessidade de impedir uma vitória bolsonarista.

“O eleitorado de esquerda pode estar cansado dessa conversa de ‘vamos evitar o pior’. Eles podem estar esperando uma mensagem sobre o que venha a ser o melhor, e não ‘vamos evitar o pior’”, afirmou.

Na avaliação de Altman, a reta final da eleição coloca, portanto, uma escolha diante da campanha presidencial: preservar uma estratégia de menor conflito para manter unida a frente ampla ou assumir propostas capazes de produzir divisões, mas também de estabelecer com maior clareza o projeto político de Lula.

Para o jornalista, a segunda alternativa tornou-se mais necessária diante de um cenário eleitoral que pode estar deixando de obedecer à polarização tradicional dos últimos anos. O desafio de Lula seria transformar sua trajetória e seu discurso sobre democracia, soberania e justiça social em uma mensagem sobre aquilo que pretende mudar no Brasil a partir de 2027.

“Uma campanha que prometa ou que acene para um salto à frente”, resumiu Altman.