PÓS-ELEIÇÃO

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial e os movimentos da família após o resultado das urnas evidenciam desgaste ao grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro: a interlocução com lideranças evangélicas. Pastores e bispos que apoiaram o senador durante a campanha passaram a adotar um discurso mais cauteloso, marcado pela expectativa sobre os próximos passos da família, pelo reconhecimento da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e por críticas pontuais à condução política dos Bolsonaro.

Embora não haja um rompimento generalizado, as manifestações indicam que a relação com o segmento religioso, um dos pilares eleitorais do bolsonarismo, atravessa um momento de incerteza. O bispo Robson Rodovalho, fundador da Sara Nossa Terra e um dos interlocutores religiosos de Jair Bolsonaro, avalia que o cenário ainda está indefinido.

Conselheiro espiritual do ex-presidente desde Bolsonaro começou a cumprir pena, Rodovalho afirma que o respeito e o carinho pela família permanecem, mas a atuação política dependerá das decisões que serão tomadas daqui para frente. "Acho que todo mundo está em ritmo de espera para entender um pouco mais o que aconteceu. Tivemos um resultado muito na contramão da expectativa", afirma. Para o bispo, a situação de Jair Bolsonaro, que permanece preso, e a saída de Flávio do país são fatores que tornam o futuro político do grupo ainda mais incerto.

"Acho que todo mundo está em ritmo de espera para entender um pouco mais o que aconteceu, né? Tivemos aí um resultado muito na contramão da expectativa"Robson Rodovalho, fundador da Sara Nossa Terra

A postura de cautela é compartilhada, mas não necessariamente acompanhada de uma mudança de apoio. A ex-deputada distrital e pastora Sandra Faraj vê a movimentação de lideranças como Silas Malafaia e Edir Macedo relacionada à dinâmica partidária. Faraj avalia que o Republicanos, ligado à Igreja Universal, tende a se acomodar, sem assumir uma oposição permanente. "A partir do momento que a resposta do jogo político não foi o esperado, (...) existe um movimento natural de os partidos se acomodarem com o atual governo", acredita. Na avaliação da pastora, a aproximação de setores religiosos com o governo Lula pode ocorrer por pragmatismo, sem significar uma mudança de convicções.

Sandra Faraj, contudo, rejeita a ideia de que a cautela represente uma ruptura entre o meio evangélico e os Bolsonaro. Segundo ela, lideranças cristãs que não têm envolvimento político ou partidário tendem a continuar apoiando a família Bolsonaro por afinidade de princípios. "O que nos leva é o compartilhamento de princípios. Os princípios que nós dividimos são os mesmos", afirma. A ex-distrital considera que o fim do período eleitoral reduz o tom incisivo das manifestações, mas não altera necessariamente a posição política dos religiosos. "Isso não muda o apoio das lideranças. As lideranças hoje vêm de prudência, lógico, tem que ter prudência, mas acho que não muda a visão da situação", declara.

Entre as manifestações mais contundentes de insatisfação está a do pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e um dos aliados religiosos mais próximos de Jair Bolsonaro durante o governo. Em mensagem privada divulgada pelo O Globo enviada a interlocutores, divulgada após a carta de Flávio nos Estados Unidos, Malafaia criticou a condução política dos filhos do ex-presidente. "Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige", escreveu. A crítica foi dirigida à reação de Flávio após a derrota, quando o senador se declarou "verdadeiro presidente eleito" em uma carta com alegações de fraude eleitoral. 

A mensagem, no entanto, não representa um rompimento integral de Malafaia com a família. No dia seguinte à divulgação, o pastor afirmou que o conteúdo havia sido enviado em uma conversa reservada e vazada por um amigo. Ele também voltou a defender Flávio pela decisão de deixar o Brasil, a quem chamou de perseguido político. O episódio revela uma relação marcada por proximidade histórica, apoio eleitoral e críticas à estratégia dos filhos do ex-presidente. Malafaia esteve ao lado de Jair Bolsonaro em mobilizações políticas e respaldou a candidatura de Flávio, mas passou a expor divergências sobre a forma como o grupo conduz a reação à derrota. O Correio entrou em contato com Malafaia, mas até o fechamento desta matéria não havia respondido. O espaço permanece aberto. 

Outro sinal de distanciamento veio do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Diferentemente de 2022, quando a denominação apoiou a reeleição de Jair Bolsonaro, a Universal evitou declarar apoio a Lula ou a Flávio no segundo turno. Durante um culto realizado no dia da votação, Macedo criticou o lema "Deus, pátria e família", associado ao bolsonarismo, e defendeu outra ordem de prioridades. "Eu não aprovo aquela teoria 'Deus, pátria e família' (…). Primeiro Deus, segundo a família, e terceiro o Estado, ou o que mais queira ser", afirmou. O bispo também questionou: "Se não houver família, vai haver pátria? Impossível!". A fala foi interpretada como uma crítica ao discurso político da família Bolsonaro, embora não constitua uma declaração formal de rompimento.

Rodovalho também chama a atenção para um possível movimento de afastamento das igrejas da atuação político-partidária. Segundo ele, parte das lideranças defende uma retomada do foco na missão religiosa. "Tenho ouvido vários líderes dizendo que realmente nossa missão é mais espiritual, vamos ficar nesse raio, que é mais claro biblicamente falando. E que a igreja possa se mover", relata. O bispo, no entanto, pondera que a participação no debate público não pode ser tratada de maneira simplista, especialmente quando estão em jogo a democracia e a liberdade religiosa.

Força eleitoral 
 
O movimento ocorre em meio à força eleitoral do segmento evangélico. O Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contabilizou 47,4 milhões de evangélicos com 10 anos ou mais, o equivalente a 26,9% da população nessa faixa etária. Em 2010, eram 35 milhões, ou 21,6%. O crescimento de 5,3 pontos percentuais em 12 anos consolidou os evangélicos como um dos grupos religiosos de maior expansão no país e ampliou sua relevância para candidaturas que buscam construir maioria nacional.

A influência das lideranças religiosas sobre o voto também é significativa. Pesquisa Datafolha divulgada em outubro indicou que 39% dos evangélicos consideram que a opinião de líderes religiosos exerce algum grau de influência na escolha presidencial. Entre católicos, o índice era de 31%; no conjunto do eleitorado, de 30%. O dado ajuda a explicar por que pastores e bispos são procurados por candidatos e partidos durante as campanhas. A influência, entretanto, não significa que o eleitor evangélico siga de forma automática a orientação de sua igreja, já que a decisão também envolve fatores econômicos, sociais e políticos.