BRASÍLIA - O candidato à Presidência e senador Flávio Bolsonaro (PL) mandou, em 2023, uma emenda de R$ 199 mil para um projeto de futebol infantil no reduto dos irmãos Brazão, condenados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018. O pagamento foi negociado entre uma assessora parlamentar do gabinete de Flávio e o miliciano Robson Calixto Fonseca — o "Peixe" — também preso pelo homicídio. As informações constam em reportagens do "Estadão" e da "Piauí" publicadas nesta segunda-feira (21/9).

A Polícia Federal (PF) identificou mensagens trocadas entre a secretária do gabinete de Flávio e Calixto para negociação da emenda. Segundo o inquérito, a assessora chegou a convidar o miliciano para um evento com Flávio, no qual ele poderia pedir a liberação dos recursos. O repasse de R$ 199 mil é alvo de uma investigação mais ampla da PF, que analisa suspeitas sobre pagamentos para entidades no Rio de Janeiro.

Conforme a "Piauí", a emenda teria ido para um projeto de futebol infantil de uma ONG na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, uma área de milícia que é reduto eleitoral dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão — mandantes do homicídio de Marielle Franco. Segundo documento acessado pela revista, "Peixe", braço-direito dos irmãos Brazão, articulava em setembro de 2023 a construção de imóveis em loteamentos na Taquara — território de grupos armados que extorquiam moradores, como expõe a reportagem.

O pedido a Flávio ocorreu no mês seguinte. Peixe solicitou o dinheiro público para projeto social no bairro. Dois dias após solicitar o aporte, o miliciano foi chamado para cerimônia no gabinete do senador no Rio de Janeiro, e a secretária de Flávio o orientou a aproveitar a ocasião para reforçar o pedido oficialmente. As conversas entre "Peixe" e a secretária, identificada como Maria de Fátima Bezerra Castro, se estenderam por cinco meses.

Procurados, Maria de Fátima e Calixto não se manifestaram. Ao "Estadão", Flávio Bolsonaro afirmou por meio de sua assessoria que toda a legislação foi respeitada nos trâmites para o repasse.

"A emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte. A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei", disse por nota.