O nome de Altamiro Tibiriçá Dias não está em nenhuma composição ou ramificação familiar de João Bosco, mas é dele que o artista mineiro se lembra ao comentar a chegada de seus 80 anos, em 13 de julho. O professor de cálculo infinitesimal dos tempos em que estudava engenharia civil na Escola de Minas, em Ouro Preto, no final da década de 1960, virou sinônimo de um tempo filosófico, como define o ex-aluno, que logo abandonou as ciências exatas para se dedicar à música no Rio de Janeiro.

“A aula dele era sobre cálculo, mas havia uma dose muito grande de filosofia, e isso era encantador. Uma das coisas de que mais sinto falta da Escola de Minas são essas aulas de Altamiro Tibiriçá Dias. Eu não entendia nada do que ele falava, mas achava aquilo tudo muito lindo. É parecido com a música. Às vezes você não entende o que o cara está dizendo, mas gosta de tudo aquilo. Eu não entendia bulhufas do que o professor falava, mas talvez esteja aí o lado filosófico da vida”, destaca.

O compositor está em contagem regressiva para iniciar uma turnê celebrativa, a partir da Universidade de Princeton, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, onde tocará no McCarter Theatre Center, no próximo dia 25. A presença no campus norte-americano promoverá, acredita ele, uma volta à época da Escola de Minas, “de um momento em que as ciências exatas não eram tão exatas assim”, o que poderá influenciar a escolha do repertório, por uma questão sentimental, já adianta João Bosco.

“As ciências exatas têm grande parte de filosofia. A gente tem que lembrar o seguinte: grande parte dos professores do passado era matemáticos e também filósofos. Quando Newton vê uma maçã caindo de uma macieira e deduz que é a força da gravidade, ora, isso é mais filosofia do que matemática. É uma observação filosófica. Ao observar a velocidade, Einstein percebeu que, quanto mais o ciclista anda, o aro do pneu, ao invés de ir para frente, anda para trás... É aquela teoria de que, quando você passa um tempo em um lugar do espaço, o seu tempo não anda para a frente”, sublinha. 

 “O tempo transcende a ideia de exatidão”, explica o ponte-novense. João Bosco fala de um tempo em que tudo é fluxo, principalmente a vida. “Vou completar 80 anos agora. Caramba, eu não sinto isso. Eu não sei lhe dizer o que é fazer 80 anos, porque eu não sinto essa medida. O que eu sinto é a vida que vivi e a que tenho vivido. O que eu mais aprendi, durante esse período todo, é que existe algo chamado ‘desejo’, que é para mim a chama da vida”, afirma.

“Quando você deseja algo”, continua o autor de clássicos da MPB como “O Bêbado e a Equilibrista” (ao lado do parceiro Aldir Blanc), “você vive mais, porque, se ainda não conseguiu, é porque deseja. E, se deseja, você tem que continuar vivo para poder conseguir. É um pouco como postergar o seu final, entendeu? Então, o desejo é fundamental. Dessa forma, desejar a música é, para mim, o que me mantém vivo”, receita, após informar a produção de três álbuns ainda neste ano.

Ao lembrar a passagem por Ouro Preto, João Bosco é taxativo: “Tudo vem de lá!”. Não é exagero. Além de Altamiro Tibiriçá Dias, que marcou profundamente o então discente, a época teve uma produção musical efusiva, principalmente com o carioca Blanc, que, como ele, tirava seu sustento inicialmente de outras fontes – Bosco chegou a trabalhar numa empresa de engenharia, na capital fluminense. “Aldir trabalhava num consultório de psiquiatria. Aí resolvemos, ao mesmo tempo, parar com tudo. Não voltei à empresa nem para buscar o salário”, lembra.

De Ponte Nova, ele diz sentir muita falta. Desde que os pais e a irmã mais velha faleceram, não voltou à cidade da Zona da Mata. “Sinto falta, principalmente das pessoas de meu tempo e, obviamente, da minha família, mas procuro trazer isso tudo para dentro de mim”, ressalta. Foi lá que se deu a descoberta musical. “Eu devia ter uns 11 para 12 anos e já estava tocando o meu violão”, lembra, logo deixando claro que “a Angela também é de lá”. Angela é sua companheira de vida e a musa que o inspirou a compor “Papel-Machê”, juntamente com Capinam.

“Quando conheci a Angela, devia estar entre o primeiro e o segundo ano de engenharia. Sempre ia para Ponte Nova para a gente namorar. Todo final de semana praticamente. E hoje ela está comigo exatamente desde a minha saída de Minas para o Rio, porque, quando resolvi sair de Minas, Angela veio comigo. Lembro que a Clara Nunes disse que, no dia que deixou Minas, ela trouxe ouro em pó. O meu ouro é a Angela”, declara. Prova disso é que continua compondo. Entre os discos que vai lançar, há um só de inéditas.

“Eu já tenho algumas músicas, mas ainda há outras a completar esse caminho. Então, falar sobre esse disco é complicado, porque ainda não o tenho, por inteiro, na minha cabeça. À medida que vou compondo, as peças vão armando um mosaico, um desenho no qual você, no final, olhará para o disco e entenderá o que ele é”, afirma. Ele adianta algumas canções “até um pouco experimentais” dentro da sua carreira, “num lugar onde não havia adentrado”. Mais uma vez, a questão do tempo se faz presente.

Bosco ressalta que a música é uma arte abstrata, na qual está sempre dialogando com coisas que viveu e que gostaria de viver. “O poeta T. S. Eliot já dizia que o que poderia ter sido e o que foi deságuam no mesmo tempo, o tempo presente. Então, muitas vezes aquilo que está imaginando, e ainda não aconteceu, quando você fizer, mesmo estando num tempo à frente de você, viverá o tempo presente. Isso é o que é bonito na arte abstrata: ela não depende do tempo propriamente dito”, conclui.