Márcio Borges tem hoje 80 anos e uma coleção de imagens sonoras que não consegue mais contemplar com leveza. Girassóis, esquinas, estradas. Os temas de uma vida inteira compartilhada com o irmão Lô Borges estão todos no álbum “A Estrada”, que reúne dez músicas gravadas antes de Lô morrer, em novembro de 2025, aos 73 anos, e chega ao público nesta quarta-feira (10/6), saindo pela gravadora Deck – que já vinha trabalhando com o artista fundamental do Clube da Esquina nos seus trabalhos mais recentes. “Confesso que não consigo ficar ouvindo, lambendo a cria como eu e Lô sempre fizemos”, reconhece Márcio. “É muito doloroso”, arremata.

Ele lembra que Lô Borges mantinha uma rotina quase metódica de composição – duas ou três músicas por semana, “com sol e chuva”, descreve. Desde 2019, o artista vinha lançando álbuns anuais de inéditas, cada um feito com um parceiro diferente, totalizando sete lançamentos em sete anos. “Lô tinha alma de Peter Pan. Com mais de 70 anos ele continuou compondo, viajando e cantando como um jovem adolescente, até o fim”, elogia.

“A Estrada” seria o oitavo, planejado para sair em 2026 como referência ao aniversário de Márcio. “Para minha total infelicidade, meu amado irmão e parceiro não viu nem uma coisa nem outra”, manifesta, ao falar do aniversário e do lançamento.

Apesar disso, porém, ele conheceu bem o disco, cuja ideia tinha surgido bem antes das efemérides que quis celebrar. “O disco ficou pronto quase dois anos antes”, recorda Márcio. “Tanto que, enquanto eu ainda fazia as letras de ‘A Estrada’, o Lô já estava com outros dois discos prontos, feitos com seus novos parceiros”, situa.

A proposta nasceu de um impasse. Durante a pandemia da Covid-19, Márcio, então com 78 anos, trancafiado em casa, disse ao irmão que não conseguia acompanhar o ritmo. “Falei isso para ele, e ele começou a buscar outros parceiros. Mas nós combinamos, então, fazer a saideira, antes de darmos o tempo que eu estava solicitando”, lembra. A saideira, então, virou o álbum. Os irmãos escolheram a imagem de uma estrada percorrida – a metáfora de quase 60 anos compondo juntos – e construíram em torno dela dez canções. “Dedicamos este trabalho aos nossos ídolos de juventude estradeira, Crosby, Stills, Nash & Young”, menciona Márcio.

Do processo de criação, cada um ficou na sua parte. Márcio escrevia as letras a partir dos temas combinados em conjunto; Lô compunha as melodias em casa, na guitarra, no violão, um pouco de piano – “uma levada roqueira”, descreve Márcio –, e depois gravava em um estúdio em Belo Horizonte com os músicos da banda. “Disso eu nunca participava, salvo quando era jovem e produtor de fonogramas”, pontua ele.

No estúdio
O empresário Marcelo Pianetti, sócio de Lô por 23 anos na produtora LBM e produtor executivo do disco, por outro lado, acompanhou o dia a dia das gravações. 

“O Lô quase que semanalmente ia ao estúdio. Ele tinha uma música nova, ele ia ao estúdio fazer o registro da voz dele, do instrumento dele e deixava lá”, conta. Quando julgava ter material suficiente para um álbum, procurava um letrista. No caso de “A Estrada”, voltou a Márcio. Em seguida, os arranjos ficavam a cargo do guitarrista Henrique Matheus, do contrabaixista e tecladista Thiago Corrêa e do baterista Robinson Matos, sempre sob supervisão do próprio Lô. “Ele aprovou todos os arranjos, as gravações e o álbum também foi mixado ano passado, o Lô aprovou a mixagem”, reforça Pianetti.

Já na reta final, antes da mixagem, Lô teve a ideia de convidar o percussionista Marcos Suzano, com quem havia trabalhado na década de 1990 no álbum “Meu Filme”. “O Lô só pediu: ‘olha, eu quero uma coisa bem só para compor mesmo, nada de preencher muita coisa, eu sei que você vai saber fazer dentro do seu feeling’”, conta Pianetti. Suzano recebeu os áudios, gravou em seu estúdio no Rio de Janeiro e as percussões entraram na mixagem final.

Em janeiro deste ano, depois da morte de Lô em novembro, Pianetti se reuniu com os músicos para uma revisão. Pequenos ajustes de mixagem foram feitos, e em abril o disco foi masterizado no Rio, no estúdio da Deck. O single “Campo Alegre KM 500 Mil” – escolha do próprio Lô – saiu em 29 de maio. 

Repertório

O novo trabalho reúne títulos como “Travessia do Deserto”, “Última Parada” e “Um Velho Sentado na Beira da Estrada” ao lado de “Sem Saída” e da própria “Campo Alegre KM 500 Mil” – todos, como pode-se perceber, remetem à ideia de movimento, travessia. 

Para Márcio, porém, o eixo narrativo do disco – a estrada como metáfora da vida de dois compositores, com percalços, encruzilhadas, erros de rota e chegada – ganhou uma dimensão que ele não havia previsto. “Não era pra ser mais do que uma metáfora sobre dois hippies cabeludos ficando velhos na beira de estrada. Só que foi muito pior do que isso”, diz, e logo acrescenta: “Nunca poderia imaginar que ele era também profundamente premonitório da tragédia que estava para se abater sobre a família Borges”, lamenta ele que, ao ser perguntado sobre o que “A Estrada” diz da trajetória dos irmãos, localiza os temas do disco numa continuidade de décadas: “São meus temas recorrentes de sempre, agora fechados no luto”.

Pianetti, por sua vez, confirma que existe material inédito gravado por Lô além de “A Estrada”, mas prefere não antecipar detalhes. “Ele registrava música a música e falava ‘deixa essa aí, que se vierem outras similares ou irmãs dela, a gente junta tudo e faz um álbum’”, comenta, acrescentando que a organização e catalogação desse acervo está em andamento, com a expectativa de que novos álbuns póstumos cheguem ao público nos próximos dois ou três anos. “O Lô era muito criterioso, também somos”, conclui.