CRIME AMBIENTAL

No final da tarde deste sábado (15/2), dezenas de tsurus, origami de garças, voavam sob faixas de protesto que tinham como dizeres: “responsabilização já” e “quem mandou matar as garças?”. Elas representavam as aves mortas na última segunda-feira. A ação, na Praça Piquenique Literário, no bairro Joana d’Arc, na orla da Lagoa Central, fez parte do ato de repúdio com cerca de 50 moradores e visitantes de Lagoa Santa contra a poda irregular, que resultou na morte dos animais.

O clima de indignação e comoção tomou conta da cidade desde o ocorrido. “Pra não passar batido, durante a poda, a supressão violenta das árvores na orla da lagoa, coordenada pela prefeitura municipal, morreram 68 garças. E estamos aqui para registrar que não esqueceremos. O episódio que aconteceu aqui na segunda-feira foi um crime ambiental. Se há culpa em que executou, existe culpa para quem ordenou. Vamos buscar a responsabilização do maior massacre de garças que já vimos”, observa Marcelo Monteiro, vereador de Lagoa Santa e organizador do protesto.

Participante do ato, o biólogo Fernando Quintela fez uma analogia ao crime ambiental, o que emocionou os presentes: “imagine você que é pai e mãe e tem um filho pequeno em casa. Um dia você chega do trabalho e descobre que a sua casa foi destruída com o berço e criança lá dentro. Um descaso e que a gente não esqueça o que aconteceu aqui”. 

 

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O organizador do ato, o vereador Marcelo Monteiro (centro) elogiou a participação dos biólogos Fernanda Sá e Fernando Quintela na última segunda-feira /Carlos Altman/EM

Para a bióloga Fernanda Sá, é importante que os órgãos públicos se atentem à preservação do local, por se tratar de ninhal de aves migratórias que visitam Lagoa Santa, de outubro a março. “O que aconteceu foi só a pontinha do iceberg do descaso registrado há muitos anos. É importante que a população se junte para cuidar desse patrimônio que é nosso e cobrar medidas mais certeiras de preservação ambiental.


Santuário 

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Com um grande abraço, participantes se comprometeram em se tornar os guardiões das garças de Lagoa Santa

/Carlos Altman/EM

Para a historiadora Ana Paula Luchezotti, é momento de refletir sobre qual Lagoa Santa os moradores desejam viver. “O grande bem que a cidade oferece é o ecossistema, a natureza e a lagoa. Querem transformar aqui em uma cidade-cenário: limpa, bonitinha. E aí a gente acaba destruindo a nossa fauna e nossa flora .Se aqui é um local de reprodução das garças, e querem tudo limpinho, que mude o local da praça”, avalia.

Para o vereador Marcelo Monteiro, a Praça Piquenique Literário é um santuário e grande ninhal das garças e o local deveria ser preservado. “Todo mundo sabe, que elas (garças) reproduzem aqui. E Lagoa Santa deveria aproveitar esse potencial turístico e biológico, de observação de pássaros e atrair gente do Brasil inteiro. Transformar o local em um parque para que as pessoas possam fotografar e realizar estudos científicos. Além de visita de escolas, com a presença das crianças. A gente é que precisa se adaptar e não é contando árvores”, finaliza

Ao final do evento, os participantes fizeram um grande abraço e criaram um grupo para se tornarem os guardiões da natureza. A ideia é que o grupo fiscalize as ações dos órgãos públicos e denuncie caso crimes ambientais voltem a repetir. O participantes também levaram para a casa os tsurus que viraram símbolo de luta e resistência.

Entenda o caso:

Uma poda de árvores realizada na tarde de segunda-feira (10/2), na Praça do Piquenique Literário, na Avenida Getúlio Vargas, no Bairro Joana Darc, em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, resultou na morte de 68 garças e deixou mais de 150 aves feridas. O impacto ambiental gerado pela ação, em plena época de reprodução da espécie, revoltou moradores e ativistas da causa animal.

O chão da orla, segundo relatos, estava coberto de filhotes agonizando, ovos destruídos e corpos de garças espalhados. “Parecia uma zona de guerra”, descreveu um dos denunciantes que estava presente no local. “A gente que mora aqui, sabe que, todos os anos, elas (garças) voltam. São muitos animais, e as árvores são ninhos gigantes. Foi muito triste. A gente passa na lagoa, e elas estavam sobrevoando à procura dos filhotes. Tem décadas que essas aves vêm para cá”, lamentou.

Segundo o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), muitas das garças que estavam nos galhos caíram ao chão junto com os ninhos. Além das aves mortas e feridas, ovos foram destruídos, e filhotes acabaram atingidos.

Ação das autoridades municipais

Um dia após a repercussão do corte de árvores, o prefeito Breno Salomão anunciou o afastamento de servidores municipais envolvidos. No entanto, ele não especificou quantas pessoas foram afastadas, nem se entre elas estão aqueles que ordenaram a poda. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito Breno Salomão aparece ao lado de dois agentes da Polícia Ambiental e afirma que foram aplicadas as devidas sanções, incluindo notificação e multa por crime ambiental, além do afastamento dos servidores envolvidos. A gravação também mostra a presença do Sargento Pacheco e do Cabo Roosevelt, que acompanharam a fiscalização no local.

Em um pedido oficial encaminhado à Corregedoria Municipal de Lagoa Santa, o prefeito determinou a instauração de uma sindicância administrativa para investigar o caso. "Considerando os fatos ocorridos em 10 de fevereiro de 2025, referentes à supressão indevida de vegetação na orla da Lagoa Central, determino a imediata instauração de processo de sindicância administrativa para a apuração rigorosa dos eventos mencionados, bem como o afastamento preventivo de todos os servidores envolvidos, a fim de garantir a isenção e lisura do procedimento investigativo", escreveu.

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que está apurando as circunstâncias e a responsabilidade pelo possível dano ambiental causado pela poda de árvores. Segundo nota divulgada pelo órgão, a perícia oficial esteve no local para coleta de vestígios e análise do ocorrido. “Oportunamente, outras informações poderão ser divulgadas”, declarou a corporação.

Apesar de a poda estar autorizada, os responsáveis pelo serviço foram autuados e encaminhados à delegacia. Eles podem responder com base no artigo 29 da Lei 9.605/98, que trata de crimes contra a fauna, além de maus-tratos a animais. Ainda não foi divulgado quem são os envolvidos e quais acusações foram formalizadas.