Com a previsão de uma nova atuação do El Niño e o risco de uma temporada mais severa de queimadas, o governo de Minas lançou nesta segunda-feira (8/6) o Plano Estadual de Enfrentamento aos Incêndios Florestais 2026-2031. A iniciativa prevê investimento de R$ 440 milhões nos próximos cinco anos para ampliar a prevenção, o monitoramento e a resposta aos incêndios em vegetação.

Desde 1985, Minas Gerais registra uma média anual de 492 mil hectares queimados, o que equivale a cerca de 15 vezes a área de Belo Horizonte. Durante o lançamento, autoridades estaduais destacaram que Minas pode enfrentar um cenário climático ainda mais desafiador nos próximos meses. A preocupação é que o fenômeno climático intensifique períodos de seca, ondas de calor e outras condições favoráveis à propagação do fogo.

“Estamos na iminência de um período crítico. Todos sabemos o cenário que enfrentaremos em 2026 e 2027”, afirmou a comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), coronel Jordana Daldegan.

Segundo ela, o estado chega mais preparado após a experiência de 2024, apontado pelo governo como um dos anos mais críticos da série histórica para os incêndios florestais. Na ocasião, foram queimados cerca de 500 mil hectares. Foi nesse ano que o El Niño atuou pela última vez.

“Aprendemos muito. Foi extremamente desafiador. Em 2025 avançamos, conseguimos redução das áreas queimadas trabalhando de forma integrada e usando tecnologia”, disse.

Para o governador Mateus Simões, o próximo ano exigirá atenção especial dos órgãos de resposta e defesa civil. “O ano que vem será de muito desafio para os bombeiros e para a Defesa Civil. Estamos falando de um ano de super El Niño. Ou seja, vamos extremar condições climáticas que já estavam extremadas no último ano”, afirmou.

Bases avançadas

Entre as medidas previstas está a instalação de oito Bases Operacionais Avançadas em unidades de conservação consideradas estratégicas pelo governo. Uma delas no Parque Estadual da Serra do Papagaio. Também foram instaladas bases nos parques estaduais Rola-Moça e Serra Verde e na Área de Preservação Ambiental (APA) Alto Mucuri. 

De acordo com a coronel Jordana, os locais foram definidos com base em levantamentos sobre as áreas mais atingidas por queimadas no estado. “Nossa inteligência operacional nos permite mapear os pontos com mais áreas queimadas. Estabelecemos essas bases porque sabemos que a agilidade no combate é essencial para que o fogo não se alastre”, disse.

Os recursos também serão destinados à contratação de brigadistas, locação de aeronaves e veículos, aquisição de equipamentos, reforço da infraestrutura de comunicação e ampliação das ferramentas de monitoramento.

Maioria dos incêndios tem origem humana

Apesar da preocupação com as condições climáticas, o governo destacou que a maior parte dos incêndios registrados no estado ocorre por ações humanas. “O incêndio natural é muito raro. A maior parte tem na sua raiz uma causa humana. Não necessariamente criminosa; pode ser acidental, mas humana”, afirmou Simões.

Por isso, além do reforço operacional, o plano prevê campanhas educativas e ações de conscientização voltadas para escolas, produtores rurais e comunidades. Segundo o governador, a proposta é substituir uma lógica focada apenas na reação aos incêndios por uma estratégia permanente de prevenção.

Historicamente a gente pensa os incêndios para o ano. O que mudamos é parar de pensar no ano e pensar no contínuo. Educar uma criança hoje pode prevenir um incêndio daqui a dez anos”, disse.

El Niño preocupa autoridades

O lançamento do plano ocorre em meio ao aumento da preocupação com a possibilidade de um novo episódio de El Niño. Em nota técnica, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e outros órgãos federais apontaram alta probabilidade de formação do fenômeno ao longo do segundo semestre de 2026. A previsão indica chance superior a 80% de configuração do El Niño no período, com possibilidade de persistência até o início de 2027.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. No Brasil, o fenômeno costuma provocar alterações nos padrões de chuva e temperatura. Em partes do Sudeste, incluindo Minas Gerais, pode favorecer períodos mais secos e quentes, aumentando o risco de incêndios florestais.