Vivendo um cenário de devastação após chuvas extremas — com ao menos 47 mortes e 13 desaparecidos —, Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, tem a nona maior população do Brasil vivendo em áreas de risco. São cerca de 130 mil pessoas suscetíveis a deslizamentos, inundações e enxurradas, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O levantamento do Cemaden compreende 1.942 cidades brasileiras. Em Minas Gerais, Juiz de Fora é o terceiro município com maior população vivendo em áreas de risco, atrás apenas de Belo Horizonte e Ribeirão das Neves. Os números integram uma nota técnica de 2023, produzida como subsídio ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. 

O estudo analisa os municípios do país com maior suscetibilidade a deslizamentos e enchentes, com base no número de pessoas que vivem em áreas mapeadas como de risco geo-hidrológico.

Conforme o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Juiz de Fora tem uma população estimada em 540.756 pessoas. Com isso, quase um quarto dos moradores vive em áreas vulneráveis a eventos extremos, como as chuvas que atingiram a cidade nos últimos dias e levaram à decretação de calamidade pública.

Segundo o Corpo de Bombeiros, houve pelo menos 46 mortes na Zona da Mata em decorrência do temporal. Além dos 41 óbitos em Juiz de Fora, que contabiliza 3,5 mil desabrigados e desalojados, outras seis pessoas morreram em Ubá.

Ranking nacional

Juiz de Fora aparece na nona posição entre os municípios brasileiros com maior número absoluto de moradores em áreas de risco. Veja a lista:

Salvador (BA): 1.217.527 pessoas
São Paulo (SP): 674.329 pessoas
Rio de Janeiro (RJ): 444.893 pessoas
Belo Horizonte (MG): 389.218 pessoas
Recife (PE): 206.761 pessoas
Jaboatão dos Guararapes (PE): 188.026 pessoas
Ribeirão das Neves (MG): 179.314 pessoas
Serra (ES): 132.433 pessoas
Juiz de Fora (MG): 128.946 pessoas

Alertas e riscos recorrentes

Há um ano, a diretora do Cemaden, Regina Alvalá, alertou que cerca de 130 mil moradores de Juiz de Fora vivem em áreas suscetíveis a desastres relacionados ao clima. A declaração foi feita durante o evento “Câmara Debate: Os desafios e impactos dos desastres naturais em Juiz de Fora”, promovido pelas Comissões de Meio Ambiente e Urbanismo, em fevereiro de 2025.

Na ocasião, a diretora informou que, em 2024, o município registrou 10 ocorrências de risco geológico, como deslizamentos de terra, ocupando o quarto lugar no ranking nacional. Também foram emitidos 12 alertas de risco hidrológico, relacionados a inundações e enchentes, colocando a cidade na 12ª posição no país.

Ela destacou ainda a importância de melhorar a comunicação com moradores dessas áreas. “Comunicação de risco é diferente de comunicação de desastre. Se a gente não comunicar direito, a população não põe crédito na informação que está recebendo. Se ela não põe crédito, não age para se proteger. Então precisamos envolver a comunidade”, afirmou.

No mesmo evento, o subsecretário de Defesa Civil de Juiz de Fora, Luís Fernando Martins, informou que o município possui 142 áreas de risco geológico, 27 áreas de risco hidrológico e oito áreas de risco tecnológico, relacionadas a barragens.

"Juiz de Fora é o terceiro município mineiro com maior população em áreas de risco. Isso significa que 24,98% dos moradores vivem em locais vulneráveis", disse à época.

Previsão de mais chuva em Juiz de Fora

A previsão do tempo indica que a chuva deve continuar em Juiz de Fora e em outras cidades da Zona da Mata ao menos até sexta-feira (27/2). A instabilidade é provocada por uma área de baixa pressão no litoral do Sudeste, que mantém o fluxo de umidade e favorece a formação de nuvens carregadas. O céu deve permanecer encoberto a nublado, com pancadas de chuva que podem ser fortes e acompanhadas de trovoadas.

Devido ao acumulado de chuva, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mantém alerta vermelho para a região, indicando grande perigo. Há previsão de chuva de até 60 milímetros por hora ou acumulado superior a 100 milímetros ao longo do dia. O cenário aumenta o risco de alagamentos, transbordamento de rios e novos deslizamentos, especialmente porque o solo já está encharcado após o temporal que atingiu a região.

A partir de sábado, a chuva ainda pode ocorrer, mas com tendência de redução gradual. A expectativa é de tempo aberto a partir de domingo. As autoridades orientam que os moradores mantenham atenção e acionem a Defesa Civil (199) ou o Corpo de Bombeiros (193) em caso de emergência.