Estudo do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE) mostra que o crescimento no número de suicídios no estado – como noticiado por O TEMPO – coincide com a falta de estrutura da saúde pública para lidar com o adoecimento mental. Levando em conta a realidade em 66 microrregiões, o estado tem verdadeiros desertos assistenciais com uma distribuição desigual dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e baixa oferta de psiquiatras. 

Nos casos mais extremos, há áreas com um único centro para atender uma população de 200 mil pessoas. Também é comum encontrar áreas com um único psiquiatra para cada 100 mil habitantes. A pesquisa mostrou que quanto mais restrita a rede assistencial, maiores as taxas de mortes desse perfil.

“Esse estudo sinaliza para uma clara e preocupante desconexão entre as necessidades epidemiológicas e a alocação de recursos”, diz o TCE após analisar a realidade no estado de 2018 a 2023. O estudo, divulgado em 2025, mostrou que as cinco microrregiões com as menores taxas de cobertura de Caps em Minas são: Diamantina, com um serviço para 86 mil habitantes; Governador Valadares, um para cada 137 mil; Itaguara, um para aproximadamente 72 mil; Itajubá, um para 200 mil; e São João del-Rei, um para 198 mil moradores.

A microrregião de Itajubá, no Sul de Minas, que apresenta a menor disponibilidade de estrutura, tem uma média de dez suicídios por 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, na microrregião de Aimorés, no Rio Doce, que apresenta uma das menores taxas de mortes do tipo, a média é de cerca de quatro suicídios por 100 mil habitantes. Em todo o estado, o número de autoextermínios subiu 34% de 2014 a 2024, passando de 1.357 para 1.825.

Em Consolação, no extremo leste da microrregião de Itajubá, no Sul de Minas, o secretário municipal de Saúde, André Luiz de Matos, precisou acionar o Ministério Público de Minas Gerais para garantir a lotação de um psicólogo e de um psiquiatra na Unidade Básica de Saúde (UBS) da cidade. A medida ocorreu há mais de dez anos, quando ele compunha o Conselho Tutelar.

Apesar do atendimento especializado na UBS, em casos de crises em saúde mental, os moradores precisam ser encaminhados a Itajubá, a 72 km de distância. “A prefeitura entra com o transporte. Em situações mais graves, utilizamos leitos de retaguarda em Paraisópolis. Já foi necessário acionar o Samu para conter uma pessoa em surto e prestar socorro imediato, com apoio da Polícia Militar”.

Segundo o psicólogo Thales Coutinho, a falta de estrutura preocupa. “Isso funciona como uma segunda barreira. Além do estigma, que faz com que muitos tenham medo de relatar o adoecimento, surge a barreira institucional: mesmo quando a pessoa procura ajuda, não há suporte”, diz.

A presidente do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais (CES-MG), Lourdes Machado, explica que o atendimento em rede de urgência e não especializado apresenta riscos de abordagens equivocadas. “Chegamos a discutir, no ano passado, por exemplo, dois atendimentos de urgência de pessoas que foram agredidas ao entrarem em crise”, conta.

O estudo do TCE mostrou ainda falta de psiquiatras no estado. As regiões com menor número de profissionais têm média de um a cada 100 mil habitantes. A melhor taxa é a de microrregião de Mantena, no Vale do Rio Doce, com oito profissionais para cada 100 mil habitantes. 

Resposta
A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais afirmou que, desde 2019, aplicou mais de R$ 700 milhões no cuidado com a saúde mental. Pela Rede de Atenção Psicossocial (Raps), o órgão conta com ações na atenção básica, psicossocial especializada e de urgência e emergência. Minas Gerais tem 453 Caps, sendo 65 destinados ao atendimento de crianças e adolescentes. O estado afirma ainda oferecer apoio técnico aos municípios.

Grupos de apoio: enlutados precisam buscar ajuda em BH
Desde que viu o filho Tarcísio, de 22 anos, atravessar pela última vez a porta da sala de casa, com o olhar vazio como nunca antes na vida, Maria Aparecida Antônia Mapa Soares, de 52 anos, sentiu na pele a falta de estrutura para lidar com saúde mental. Moradora de Ouro Preto, ela não conseguiu encontrar grupos de apoio para enlutados pelo suicídio na cidade e teve que recorrer à capital.

“As pessoas aqui não falam sobre suicídios, mesmo eles acontecendo o tempo todo. Me olham torto, julgam”, relata. Até mesmo uma psicóloga que conseguisse ajudá-la a dar vazão a essa dor foi difícil encontrar. “Quando uma psicóloga começou a falar que meu filho escolheu isso, desconsiderando que ele estava doente, eu dei ‘tchau’ para ela e busquei outra”, conta.

O apoio profissional foi importante para que ela voltasse a ver motivos para ficar viva. “O suicídio é devastador. Minha casa silenciou depois que ele se foi. E eu tive que buscar forças pela terapia”, diz. 

 

Estigma tira saúde mental do foco de investimentos públicos
Aos 16 anos, a advogada Helena* (nome fictício) ajudou a carregar nos braços o corpo da mãe, encontrada sem vida no banheiro. No hospital, a família, com a ajuda de um médico, contou à adolescente que a mulher, na época com 44 anos, havia morrido por conta de um aneurisma. Helena sentiu uma tristeza imensa, mas não sabia que, 40 anos depois, seria outra vez atravessada pela dor de perder uma das pessoas que mais amou na vida.

Após décadas, ela ouviu o pai contar para alguém que, na verdade, a mãe dela havia se suicidado. Atualmente idosa, ela sentiu perder a mãe novamente, mas os sentimentos eram totalmente novos: desespero, raiva, vergonha e ressentimento por ter sido enganada.

O relato de Helena, em que o suicídio foi tratado como algo a ser escondido não só dos outros, mas do próprio núcleo familiar, e com o aval do médico, remonta à própria história secular do suicídio – um fenômeno que, da Antiguidade à contemporaneidade, ainda é atravessado por estigmas de vergonha, fracasso e culpa.

“O suicídio sempre foi um tabu desenvolvido, em grande parte, por uma questão religiosa. Sempre se ouvia dizer que quem tira a própria vida não tem salvação. A sociedade, em qualquer ocasião, ‘precisa’ procurar um culpado. Por isso, em casos como esse, há tantos julgamentos”, explica o sociólogo Luciano Gomes.

Segundo ele, o investimento insuficiente em ações de combate ao suicídio é um reflexo da visão da sociedade quanto ao tema. No caso de Helena, além de a família ter decidido “proteger” a adolescente, também temeu os julgamentos. Ela conta que, desde que soube a real história, nunca mais foi a mesma. Passou a se sentir desconectada do restante das pessoas.

“Você se sente como se estivesse no mundo e não tivesse afinidade com mais ninguém, nem com as pessoas que ama. No primeiro momento, quando descobri a verdade, pensei: ‘Por que não passei o resto da vida sem saber?’. Mas depois eu concluí que isso não estava certo. É importante respeitar a pessoa da história que se foi, e falar dela é uma maneira de respeitá-la”, diz.

A estudante de psicologia Victória Mendonça, de 28 anos, tinha um ano quando o pai, Roberto, se suicidou aos 34 anos. Ela conta que o assunto sempre foi um tabu, sobretudo porque ela ainda era um bebê quando tudo aconteceu. Vinte e um anos se passaram até que ela experimentou a dor de perder mais uma pessoa por suicídio: a mãe Alcyone, com 52 anos. Na ocasião, não tinha ninguém com a familiar em casa, e Victória soube da morte por telefone.

“Eu sou filha adotiva e, no enterro da minha mãe, perguntei para a minha madrinha: ‘Por que todo mundo vai embora da minha vida?’”, conta.

O estigma é tão grande que motivou a psicóloga Daniela Piroli a direcionar a vida profissional com base no que vivenciou. “A morte do meu avô por suicídio em 2009, quando eu era recém-formada em psicologia, me deixou muito frustrada. Aí eu notei que nem na formação de psicologia o assunto foi de fato debatido e por isso direcionei meu mestrado para entender melhor o fenômeno”, conta. Ela escreveu o livro “Os Sentidos do Luto – Vida após o Suicídio”. Agora, media um grupo de apoio a enlutados por suicídio e se dedica a estudar estratégias de prevenção no doutorado.

Alguns dados
Setembro Amarelo: em seis anos, o investimento das prefeituras mineiras em ações ligadas à campanha Setembro Amarelo, com foco em combate ao suicídio, mais do que dobrou, ao passar de R$ 48,5 milhões para R$ 117 milhões, segundo o TCE-MG. O órgão ponderou sobre a necessidade de focar mais em ações práticas do que em campanhas.

Profissionais: o Brasil, com média de 6,69 psiquiatras a cada 100 mil habitantes, apresenta um dos menores contingentes de especialistas do mundo. É o terceiro pior resultado em 41 países avaliados por estudo da Associação Médica Brasileira (AMB). O país supera apenas o México e a Colômbia. A taxa média dos 41 países é de 17,83 por 100 mil pessoas.