O entrave, neste momento, seria financeiro. Durante a audiência, Jussara afirmou que não há recursos disponíveis para executar essa etapa prévia e que, por isso, a prefeitura considerou “conveniente adiar as intervenções para o início do ano que vem, quando haveria maior disponibilidade orçamentária”. Ela ressaltou que tanto o projeto quanto o planejamento orçamentário da motofaixa já estão prontos.
Os recursos, contudo, não foram utilizados porque o projeto ainda dependia, à época, da autorização da Senatran. Com o sinal verde, a expectativa era de que a obra finalmente pudesse avançar. Em coletiva de imprensa logo após receber o aval federal, o prefeito Álvaro Damião (União Brasil) sinalizou que a implantação seria rápida, embora não tenha cravado uma data. “Agora é bem rápido. Não tem nada muito demorado, não”, afirmou. Na ocasião, o chefe do Executivo municipal também destacou que a autorização federal era o último passo necessário para que o projeto finalmente saísse do papel.
Agora, a decisão de condicionar a implantação do Corredor Azul ao recapeamento da via “frusta” a expectativa e é questionada por vereadores e representantes da categoria. “Recapeamento não pode ser custo de implementação de motofaixa. É tudo muito burocrático. O próprio prefeito anunciou que seria implementada assim que saísse a autorização. Para mim é uma desculpa muito esfarrapada”, afirmou o vereador Braulio Lara (Novo) ao O TEMPO.
Escala de acidentes reforçam pressão
O corredor será instalado entre as faixas 1 e 2, a partir da esquerda da pista, com aproximadamente 1,5 metro de largura. As quatro faixas de circulação de veículos em cada sentido serão mantidas, e a implantação também prevê nova sinalização horizontal e vertical.
A Via Expressa foi escolhida porque, segundo a representante da PBH na audiência, é a única entre as principais avenidas da capital que apresenta largura suficiente para receber a estrutura dentro dos parâmetros estabelecidos pela Senatran. A exigência é de pelo menos 1,2 metro de espaço para a implantação da motofaixa.
Em outras avenidas, os números são ainda maiores. A Cristiano Machado lidera, com 580 acidentes envolvendo motocicletas neste ano, seguida pela Antônio Carlos, com 383, e pelo Anel Rodoviário, com 347.
No mesmo intervalo, foram registrados 12.542 sinistros envolvendo motocicletas, segundo dados do Painel de Acidentes de Trânsito do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais. O número representa quase um terço dos 52.904 acidentes registrados na cidade neste ano.
Também houve aumento em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e julho de 2025, foram contabilizados 12.088 acidentes envolvendo motos. Em média, são 59 acidentes com motocicletas por dia em Belo Horizonte.
A ideia de criar um corredor exclusivo para motociclistas na capital não é nova. Rogério dos Santos Lara, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas e Ciclistas de Minas Gerais, afirma que a discussão já existia no início dos anos 2000, muito antes da implantação do modelo paulista.
Em 2015, o sindicato chegou a fazer um levantamento para defender a criação de uma estrutura semelhante em Belo Horizonte. A proposta, porém, não avançou.
Motociclista, Lara conhece de perto a insegurança enfrentada diariamente nas ruas. Ainda assim, defende que a implantação seja planejada considerando os diferentes usuários do trânsito, para que uma solução para os motociclistas não se transforme em outro problema para motoristas e demais públicos. “A faixa sempre vai trazer segurança. Ver esse projeto parado é muito frustrante”, afirma.
Para Jurandir Junior, uma das lideranças do movimento Motoca Defende Motoca, a motofaixa tem potencial para reduzir acidentes e conflitos no trânsito e representa uma medida de proteção à vida dos motociclistas. “O que a gente está pedindo aqui não é uma simples motofaixa, é o respeito com o cidadão que quer voltar para casa”, declarou.
Os motociclistas ainda defendem soluções menores para pontos onde não exista espaço físico para um corredor como o da Via Expressa. Uma das propostas é a criação do chamado corredor azul em trechos de maior fluxo e estrangulamento do trânsito, permitindo que as motos avancem de maneira organizada até os bolsões de espera nos semáforos, conhecidos popularmente como motoboxes. A proposta, endossada pelos vereadores, é criar corredores, ainda que mais curtos, que permitam o acesso a esses pontos de forma mais segura.
Braulio Lara reconhece que a largura das faixas pode inviabilizar uma motofaixa em algumas das principais avenidas, mas argumenta que justamente os pontos de maior congestionamento deveriam ser priorizados. “Sabemos que existem dificuldades com relação à largura das faixas nas principais avenidas, mas a motofaixa é mais importante onde tem mais trânsito”, afirma.
A audiência pública também acolheu uma sugestão apresentada pelo Executivo para a destinação de recursos à instalação de grades de proteção em viadutos que ainda não possuem o equipamento. A proposta inclui o Anel Rodoviário, na altura do bairro Madre Gertrudes. A intenção é reduzir o risco de que motociclistas envolvidos em acidentes atravessem para o outro lado da rodovia e acabem atropelados após uma queda.
Betim amplia projeto
Enquanto Belo Horizonte ainda discute quando poderá colocar sua primeira motofaixa em funcionamento, outras cidades mineiras já adotaram o modelo. Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, tornou-se a segunda cidade do estado a implementar o corredor azul, em março do ano passado. Desde então, o projeto foi ampliado e o município já conta com 12,1 quilômetros de faixas exclusivas para motociclistas.
Pouso Alegre, no Sul de Minas, foi a pioneira no estado. O município adotou a motofaixa em 2022, inspirado no modelo paulista. Em São Paulo, onde a experiência começou com um trecho de cinco quilômetros, o projeto ganhou escala ao longo dos anos. Hoje, a capital paulista soma 215 quilômetros de motofaixas distribuídos por mais de 46 vias.







