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Com R$ 900 mil já garantidos, motofaixa de BH atrasa por 'falta de orçamento'

24/08/2026 20h10 - Atualizado em 24/08/2026 20h35 por Silvia Pires /em.com.br

Projeto recebeu sinal verde da Senatran, mas PBH diz que precisa recapear trechos da Via Expressa antes da implantação, que só deve ser concluída em 2027


motofaixabh-transporte-por-moto.pngProjeto já tem autorização, planejamento e R$ 900 mil previstos. Falta, agora, superar orçamento para preparar a Via Expressa/ Foto: Flavio Tavares / O TEMPO
 
 

Garantida no orçamento há pelo menos três anos, a primeira motofaixa de Belo Horizonte ainda não conseguiu sair do papel e, agora, a previsão é que isso só acontença em 2027. Isso porque, antes de pintar a faixa exclusiva para motociclistas, o projeto-piloto na Via Expressa, que já tem o aval da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), terá que aguardar o recapeamento de alguns trechos. Sem recursos para essa etapa neste ano, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) empurrou o início das obras para o ano que vem.

A previsão foi apresentada na última semana pela subsecretária municipal de Operações de Transporte e Trânsito, Jussara Bellavinha, durante audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte convocada justamente para cobrar um cronograma para a implantação da estrutura. Em abril, quando a Senatran autorizou o projeto-piloto, a PBH havia informado que as intervenções levariam cerca de oito semanas.
 

A autorização, no entanto, não foi suficiente para dar início aos trabalhos. Segundo Jussara, após a liberação do projeto, o município identificou a necessidade de repavimentar alguns trechos da Via Expressa antes da pintura da motofaixa, que terá 16 quilômetros de extensão, considerando os dois sentidos, desde o viaduto Itamar Franco até a avenida Babita Camargos, na divisa com Contagem, na Grande BH. Também será necessária, de acordo com a subsecretária, a substituição das defensas existentes por modelos “mais modernos e seguros”.

O entrave, neste momento, seria financeiro. Durante a audiência, Jussara afirmou que não há recursos disponíveis para executar essa etapa prévia e que, por isso, a prefeitura considerou “conveniente adiar as intervenções para o início do ano que vem, quando haveria maior disponibilidade orçamentária”. Ela ressaltou que tanto o projeto quanto o planejamento orçamentário da motofaixa já estão prontos.

 

motofaixa já tem 900 mil em caixa esperando para ser colocada em prática. São R$ 400 mil incluídos na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025, após uma articulação da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), a partir de uma sugestão popular aprovada pela Câmara Municipal. Antes disso, em 2024, outros R$ 500 mil já estavam garantidos por emenda do vereador Braulio Lara (Novo) apresentada no ano anterior.

Os recursos, contudo, não foram utilizados porque o projeto ainda dependia, à época, da autorização da Senatran. Com o sinal verde, a expectativa era de que a obra finalmente pudesse avançar. Em coletiva de imprensa logo após receber o aval federal, o prefeito Álvaro Damião (União Brasil) sinalizou que a implantação seria rápida, embora não tenha cravado uma data. “Agora é bem rápido. Não tem nada muito demorado, não”, afirmou. Na ocasião, o chefe do Executivo municipal também destacou que a autorização federal era o último passo necessário para que o projeto finalmente saísse do papel.

Agora, a decisão de condicionar a implantação do Corredor Azul ao recapeamento da via “frusta” a expectativa e é questionada por vereadores e representantes da categoria. “Recapeamento não pode ser custo de implementação de motofaixa. É tudo muito burocrático. O próprio prefeito anunciou que seria implementada assim que saísse a autorização. Para mim é uma desculpa muito esfarrapada”, afirmou o vereador Braulio Lara (Novo) ao O TEMPO.

 

A reportagem procurou a PBH para saber quanto será necessário para o recapeamento, quais trechos precisarão ser reformados, além de questionar o destino dos recursos já previstos para a motofaixa. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Escala de acidentes reforçam pressão

O corredor será instalado entre as faixas 1 e 2, a partir da esquerda da pista, com aproximadamente 1,5 metro de largura. As quatro faixas de circulação de veículos em cada sentido serão mantidas, e a implantação também prevê nova sinalização horizontal e vertical.

A Via Expressa foi escolhida porque, segundo a representante da PBH na audiência, é a única entre as principais avenidas da capital que apresenta largura suficiente para receber a estrutura dentro dos parâmetros estabelecidos pela Senatran. A exigência é de pelo menos 1,2 metro de espaço para a implantação da motofaixa.

 

A escolha também recaiu sobre uma via que concentra elevado número de acidentes envolvendo motociclistas. Formada pelas avenidas Juscelino Kubitschek e por parte da Tereza Cristina, a Via Expressa registrou 240 ocorrências com motos neste ano, o sexto maior número entre as vias de Belo Horizonte.

Em outras avenidas, os números são ainda maiores. A Cristiano Machado lidera, com 580 acidentes envolvendo motocicletas neste ano, seguida pela Antônio Carlos, com 383, e pelo Anel Rodoviário, com 347.

 

Os dados ajudam a dimensionar a pressão pela criação de espaços mais seguros para motociclistas na capital. Entre janeiro e julho deste ano, 44 motociclistas morreram em acidentes de trânsito em Belo Horizonte. O número corresponde a 62,8% de todas as mortes registradas no trânsito da cidade no período.

No mesmo intervalo, foram registrados 12.542 sinistros envolvendo motocicletas, segundo dados do Painel de Acidentes de Trânsito do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais. O número representa quase um terço dos 52.904 acidentes registrados na cidade neste ano.

Também houve aumento em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e julho de 2025, foram contabilizados 12.088 acidentes envolvendo motos. Em média, são 59 acidentes com motocicletas por dia em Belo Horizonte.

 

Reivindicação atravessa décadas

A ideia de criar um corredor exclusivo para motociclistas na capital não é nova. Rogério dos Santos Lara, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas e Ciclistas de Minas Gerais, afirma que a discussão já existia no início dos anos 2000, muito antes da implantação do modelo paulista.

Em 2015, o sindicato chegou a fazer um levantamento para defender a criação de uma estrutura semelhante em Belo Horizonte. A proposta, porém, não avançou.

Motociclista, Lara conhece de perto a insegurança enfrentada diariamente nas ruas. Ainda assim, defende que a implantação seja planejada considerando os diferentes usuários do trânsito, para que uma solução para os motociclistas não se transforme em outro problema para motoristas e demais públicos. “A faixa sempre vai trazer segurança. Ver esse projeto parado é muito frustrante”, afirma.

 

Para Jurandir Junior, uma das lideranças do movimento Motoca Defende Motoca, a motofaixa tem potencial para reduzir acidentes e conflitos no trânsito e representa uma medida de proteção à vida dos motociclistas. “O que a gente está pedindo aqui não é uma simples motofaixa, é o respeito com o cidadão que quer voltar para casa”, declarou.

Os motociclistas ainda defendem soluções menores para pontos onde não exista espaço físico para um corredor como o da Via Expressa. Uma das propostas é a criação do chamado corredor azul em trechos de maior fluxo e estrangulamento do trânsito, permitindo que as motos avancem de maneira organizada até os bolsões de espera nos semáforos, conhecidos popularmente como motoboxes. A proposta, endossada pelos vereadores, é criar corredores, ainda que mais curtos, que permitam o acesso a esses pontos de forma mais segura.

Braulio Lara reconhece que a largura das faixas pode inviabilizar uma motofaixa em algumas das principais avenidas, mas argumenta que justamente os pontos de maior congestionamento deveriam ser priorizados. “Sabemos que existem dificuldades com relação à largura das faixas nas principais avenidas, mas a motofaixa é mais importante onde tem mais trânsito”, afirma.

 

Os motociclistas também reivindicam campanhas de educação no trânsito, especialmente para reforçar o respeito às áreas exclusivas, como os motoboxes.

A audiência pública também acolheu uma sugestão apresentada pelo Executivo para a destinação de recursos à instalação de grades de proteção em viadutos que ainda não possuem o equipamento. A proposta inclui o Anel Rodoviário, na altura do bairro Madre Gertrudes. A intenção é reduzir o risco de que motociclistas envolvidos em acidentes atravessem para o outro lado da rodovia e acabem atropelados após uma queda.

Betim amplia projeto

Enquanto Belo Horizonte ainda discute quando poderá colocar sua primeira motofaixa em funcionamento, outras cidades mineiras já adotaram o modelo. Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, tornou-se a segunda cidade do estado a implementar o corredor azul, em março do ano passado. Desde então, o projeto foi ampliado e o município já conta com 12,1 quilômetros de faixas exclusivas para motociclistas.

 

A estrutura foi implantada nos dois sentidos da avenida Edmeia Matos Lazzarotti, desde o entroncamento com a avenida Amazonas, passando pelo entorno da Praça do Encontro, até a entrada do bairro Vila das Flores. A intenção ainda é ampliar o padrão de sinalização horizontal e vertical para outras das principais avenidas de Betim. Além da faixa exclusiva, o município também implantou os motoboxes nos semáforos.

Pouso Alegre, no Sul de Minas, foi a pioneira no estado. O município adotou a motofaixa em 2022, inspirado no modelo paulista. Em São Paulo, onde a experiência começou com um trecho de cinco quilômetros, o projeto ganhou escala ao longo dos anos. Hoje, a capital paulista soma 215 quilômetros de motofaixas distribuídos por mais de 46 vias.