Em tempos em que a ideia de família é instrumentalizada por um viés muitas vezes demagógico e até hipócrita, a família Gil, à sua maneira, devolve a essa estrutura basilar da sociedade seu sentido mais sacro e, simultaneamente, cotidiano. Não é de se estranhar, portanto, que ao falar sobre a série que transpõe músicas de Gilberto Gil para livros infantis ilustrados, idealizada pelo artista Daniel Kondo, a empresária e produtora cultural Flora Gil deixe de lado qualquer apreciação mais técnica ou de mercado, indicando que, para ela, o principal crivo para levar a empreitada a frente era a aprovação da própria família – inclusive de seus membros mais jovens.

“O foco (do projeto) não era – e até hoje não é – financeiro. O foco sempre foi o de transferir aquelas obras da materialidade da canção para o papel de uma forma muito lúdica. Então, como o Gil gostou, como eu gostei e como as crianças da família gostaram, achamos que seria uma boa”, relata ela, que, nesta quarta-feira (6/5), apresenta os frutos dessa iniciativa na 6ª Feira Literária Internacional de Tiradentes (Fliti).

Na cidade histórica mineira localizada na região de Campo das Vertentes, Flora conduz a mesa “Entre a canção e o livro” ao lado de Daniel Kondo e Bento Gil. Cabe a ela, no evento, falar sobre as histórias das composições, enquanto o ilustrador traz detalhes do processo de construção gráfica das obras. Já Bento – filho de Bem Gil e de Bárbara Ohana e, portanto, neto de Gil e Flora – fica encarregado de interpretar, ao vivo, canções que inspiraram as obras. Vale registrar, aos 22 anos, ele lança neste mês o seu álbum de estreia, o “Silêncio Azul”.

Sobre a coletânea de livros em formação – hoje, são cinco volumes –, a empresária lembra que partiu de Kondo o convite. “Ele é o designer responsável e que concebeu toda a ideia de levar canções do Gil para histórias ilustradas de livro infantis”, narra.

Antes de conhecer o artista, porém, Flora conheceu seu traço. O primeiro contato se deu quando Kondo colaborou com um projeto de Lulu Santos – o songbook “Lulu Traços e Versos”, de 2021, que reúne 40 letras e cifras de músicas ilustradas. A produtora cultural gostou do que viu e convidou o designer para criar a marca da turnê “Nós, a gente”, que Gil realizou ao lado da família entre 2022 e 2023. Foi a partir dessa experiência, quando acompanhou de perto o dia a dia dos Gil, que germinou a ideia dos livros.

“Ele trabalhou com a nossa equipe e nos entendemos muito bem. Nós gostamos do resultado e, como ele é um poço de ideias, disparando várias por minuto, começaram a pintar sugestões. Um dia, ele disse: ‘E se a gente fizer um livro infantil com as músicas da turnê?’. Logo, já chegou com o material pronto em PDF. Nós adoramos e mais frutos vieram”, remora Flora.

Selou a parceria, portanto, o trabalho com o cancioneiro de “Nós, a gente” (WMF Martins Fontes), organizado por Guilherme Gontijo Flores – parceiro de Kondo em obras como “A mancha” e em vários videopoemas. O livro reúne 40 músicas de Gilberto Gil, mesclando sucessos populares como “Palco”, “Expresso 2222”, “Aquele abraço” e “Tempo Rei” com faixas menos conhecidas, como “Babá Alapalá”, “Serafim” e “Parabolicamará”.

Depois, vieram os livros de “Andar com Fé” (WMF Martins Fontes), seguido de “Sítio do Picapau Amarelo” (Leiturinha), “Refazenda” e, por fim, o “Refloresta” (ambos saíram pela Elo Editora), lançado no ano passado durante a COP 30, em Belém.

Em todos os trabalhos, o artista evita representações excessivamente figurativas de pessoas ou paisagens, privilegiando os detalhes e, por vezes, optando por criar enigmas visuais. Ao ilustrar “Aquele abraço”, por exemplo, ele desenha o espectro de um morro semelhante à Pedra da Gávea, sob um céu listrado de azul e branco – listras que, considerando o contexto da canção escrita após a prisão de Gil pela ditadura e sua partida forçada do Brasil, podem remeter ao cárcere. Já em “Andar com fé”, na passagem que fala sobre a fé que também está para morrer triste na solidão, Kondo desenhou um violão sem a corda central. Ao virar o livro, o instrumento assume o formato de uma caveira, símbolo da mortalidade.

“O resultado foi ficando cada vez mais interessante, não só pra mim, como resultado gráfico, mas para o público. A gente passou a ver que as crianças passaram a gostar. E a gente também gostou dessa ideia do Daniel de transformar a música em um objeto”, reconhece. “Eu gosto porque o traço dele dialoga com a proposta do Gil. Não é nada rebuscado, não tem aquele ‘fru-fru’. É fácil e, ao mesmo tempo, tem uma poesia bem bonita na relação das cores com os versos”, exalta.

Uma turista em Tiradentes
Também partiu de Daniel Kondo o convite para que Flora e Bento Gil participassem da mesa na Fliti. E, mais uma vez, a ideia pareceu irrecusável aos olhos da empresária. “Eu vou te contar um segredo: eu ainda não conheço Tiradentes. Estou louca para conhecer, porque eu sou louca por Minas Gerais!”, explica ela, que conversou com a reportagem enquanto viajava do Rio, onde vive, para a cidade mineira. Um trajeto que fazia cheia de expectativa. “Já marquei um lugar para poder comer, porque eu adoro o tempero mineiro. Então, foi como juntar a fome com a vontade de comer”, brinca.

Flora lembra que não tem, propriamente, vínculos familiares em Minas – “eu até vinha às vezes quando era pequena porque meu avô tinha alguns parentes, mas era algo mais distante, de forma que o estado nunca foi um destino para férias, para passeios”, pondera ela, que é paulista de nascimento e moradora do Rio –, se considera uma cidadã baiana e hoje se sente em casa quando está entre mineiros. 

“Eu passei a conhecer Minas depois que me casei com o Gil, quando o acompanhava em turnês. E todas as vezes que vinha, eu ficava cada vez mais impactada. Além disso, sou fã de Milton Nascimento – que carrega Minas por onde quer que ele passe”, situa. “Eu gosto do queijo, eu gosto da comida, eu gosto dos mercados. Quando tem show em Belo Horizonte eu não deixo de ir, porque eu quero ir naqueles lugares que eu gosto, ver os amigos que tenho na cidade. Enfim, é um lugar que eu gosto muito de estar”, ressalta, antecipando os planos de acompanhar o marido no show que ele realiza na cidade, no Parque Ecológico da Pampulha, no dia 8 de agosto, no segundo dia do Festival Sensacional!. “Minas está dentro desse ‘quarteto de afeto’, com São Paulo, Rio e Bahia”, resume.

SERVIÇO
O quê. Flora Gil, Daniel Kondo e Bento Gil na mesa 'Entre a canção e o livro' na FLITI 2026
Quando. Nesta quarta (6/5), às 15h; a programação da FLITI se estende até 10/5.
Onde. Centro Histórico de Tiradentes, no Campo das Vertentes
Quanto. Gratuito