Brasil247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou em dúvida nesta segunda-feira (26) a legitimidade da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao insinuar que a votação brasileira teria apresentado irregularidades, sem fornecer qualquer evidência para sustentar a acusação. “Eu não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada. Para mim, pareceu muito ruim”, disse. Apesar de questionar o processo eleitoral que garantiu o quarto mandato do petista, o republicano afirmou que mantém um bom relacionamento com o presidente brasileiro. “Eu não governo o Brasil. Eu governo os Estados Unidos. Gosto do Lula. Me dou muito bem com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha.”

A manifestação ocorre um dia depois da confirmação da vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O presidente brasileiro conquistou 51,79% dos votos válidos no segundo turno de domingo (25), enquanto o adversário recebeu 48,21%. Em números absolutos foram 64,2 milhões de votos contra 59,8 milhões obtidos pelo senador da extrema direita.

Nas últimas 24 horas, lideranças do campo progressista brasileiro alertam para risco de tentativa de golpe. O Supremo Tribunal Federal estendeu a votação das 17h às 19h devido à falta de transporte público em pelo menos nove estados. Membros da extrema direita já usam a medida para questionar o resultado. Aliados de Trump, o bilionário Elon Musk e o ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon já iniciaram os ataques ao sistema eleitoral brasileiro.

No Brasil, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, defendeu respeito à vontade popular após o resultado da apuração. 

O resultado das urnas também estabeleceu um precedente na história eleitoral brasileira. Pela primeira vez, um candidato que terminou o primeiro turno na segunda colocação conseguiu reverter a desvantagem e conquistar a Presidência no segundo turno.

Golpismo

Não foi a primeira vez que Trump atacou o sistema eleitoral e sugeriu interferir na soberania brasileira. Em junho, por exemplo, o chefe da Casa Branca compartilhou um artigo que cita as eleições presidenciais no Brasil como um “grande teste” para o “ressurgimento conservador” na América Latina. 

Nos últimos anos, setores ligados ao trumpismo e ao bolsonarismo defenderam iniciativas de ruptura democrática, colocando em questionamento a legitimidade dos processos eleitorais e das instituições responsáveis por garantir seu funcionamento.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outras 28 pessoas por envolvimento na articulação de uma tentativa de golpe de Estado. Em outro conjunto de processos, os ministros da Corte também condenaram mais de 1,4 mil participantes dos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando grupos golpistas invadiram as sedes dos Três Poderes, em Brasília.

As eleições presidenciais de 2022 também motivaram investigações sobre ações que poderiam prejudicar a participação dos eleitores. Durante a administração Bolsonaro, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) ampliou as operações de fiscalização no Nordeste, região que concentrava parte expressiva do apoio eleitoral ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A concentração das abordagens levantou suspeitas de uma tentativa de dificultar o deslocamento da população até os locais de votação.

Em setembro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o arquivamento da investigação contra três antigos diretores da PRF. Eles enfrentavam suspeitas de envolvimento em iniciativas destinadas a restringir ou atrasar o transporte de eleitores durante o pleito de 2022. A decisão acompanhou o entendimento da Procuradoria-Geral da República (PGR), que não identificou provas suficientes para apresentar denúncia criminal contra os investigados.

Nos EUA, o questionamento da ordem democrática também esteve associado à atuação de apoiadores de Trump. Em 2021, depois da derrota do republicano para Joe Biden, do Partido Democrata, manifestantes alinhados ao então presidente invadiram o Congresso norte-americano. Os participantes contestavam o resultado eleitoral e difundiam acusações de fraude sem apresentar evidências que sustentassem as alegações.

A ofensiva contra as instituições judiciais também integra o repertório político desses movimentos. Uma das estratégias adotadas por setores da extrema direita consiste em apresentar o Judiciário como um obstáculo à atuação dos governos, procurando enfraquecer a confiança da população nas decisões dos tribunais.

Cinco anos depois da invasão do Capitólio, o bolsonarismo manteve o confronto político com a Justiça brasileira. As manifestações de seus representantes passaram a reforçar a ideia de que o sistema judicial atua de acordo com interesses partidários, comete falhas e direciona suas decisões contra integrantes da extrema direita.

A desconfiança propagada por esse campo político também se estendeu ao sistema de votação. Em 21 de julho de 2026, durante um encontro com diplomatas em Brasília (DF), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contestou a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. Na ocasião, estabeleceu uma associação entre os equipamentos utilizados nas eleições nacionais e os produzidos pela empresa Smartmatic, alegando uma origem comum.

Para justificar suas afirmações, o parlamentar citou um documento que atribuiu à Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). De acordo com a interpretação apresentada pelo senador, o material apontaria um suposto envolvimento da Smartmatic em um esquema de manipulação de votos nas eleições venezuelanas de 2012, sob responsabilidade do governo daquele país.

“Muitas dessas máquinas utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa. Há denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela”, afirmou Flávio Bolsonaro.