Com 80 anos completados na última quarta-feira (1º), o cantor Alceu Valença nunca gostou de celebrar aniversários. Neste ano, porém, a data tornou-se tema de turnê: a “80 Girassóis”. O músico acabou gostando da ideia da esposa de circular com um show que narra toda a trajetória do pernambucano, com direito a repertório inédito, banda de pife elétrico e projeções que ajudam a contar toda essa história. 

O primeiro ciclo da turnê se encerrou, e o próximo passo de Alceu é desembarcar na Europa para dar continuidade às apresentações. Durante a etapa de shows em solo brasileiro, Belo Horizonte não ficou de fora. A capital recebeu o show em junho e, de acordo com o cantor, era ponto de parada obrigatório de “80 Girassóis”. 

“Tem uma música do show que foi composta em BH, que é ‘Solidão’”, conta Alceu. A canção, escrita após um show no Palácio das Artes, no Centro da cidade, eternizou BH na memória do músico. “Toda vez que eu canto, eu me lembro disso”, diz.

Em entrevista ao Hoje Em Dia, Alceu Valença conta detalhes sobre a nova turnê e de como o repertório foi construído com o objetivo de contar a própria história. O pernambucano detalha a história da letra feita na metrópole mineira e conta sobre algumas “andanças” na avenida Afonso Pena.

O cantor também revela quais acontecimentos inspiraram algumas composições emblemáticas, como “Táxi Lunar”, “Mensageira dos Anjos” e “Dia Branco” – todas feitas para uma mesma musa.

Como surgiu a ideia de fazer essa turnê celebrando os seus 80 anos?
Foi minha mulher que propôs fazer uma espécie de comemoração, até mesmo porque eu não gosto nem de comemorar o aniversário. E aí gostei da ideia e agora tô comemorando o ano todinho, todo dia falo sobre os 80 anos. Mas sempre digo que é 8 também, porque se você lê 80 ao contrário é 8. Quem me ensinou essa técnica foi minha mãe, ela sempre brincava aos 79 que tava lascada, porque era 97. Então, agora estou com 8.

É interessante essa ideia porque sua música dialoga com várias gerações, e nos registros da turnê dá pra ver que tem muita criança indo aos shows. Como é para você essa relação com o público infantil?

Ah, tem muitas histórias. Aqui no Rio de Janeiro, onde eu caminho muito, encontro centenas de pessoas que me contam muitas situações envolvendo crianças. Já teve uma mulher dizendo que fez um parto ouvindo “Anunciação”, outra mostrou a foto da filha e diz que embalou a menina com música minha, tem vídeo de menino que aprendeu a cantar “La belle de jour”... Todo dia chega um vídeo diferente que alguma família publica de alguma criança cantando Alceu.

E essa energia de “eterna criança” de 8 anos está indo para a turnê? Como está sendo celebrar essa data que você nunca gostou de comemorar?

Está sendo muito bom, porque acho que o maior presente que me foi dado é a dádiva de cantar. Acho muito melhor estar no palco do que assoprar uma vela em um bolo. Pra mim, é um presente todo dia que eu estou fazendo show. E nessa turnê a gente priorizou algumas cidades que a gente conversou antes para ver qual seria elas, e uma delas é BH, que não poderia sair de fora dessa turnê. 

E o que faz BH não poder ficar de fora?
Porque tem até uma música do show que foi composta em BH, que é “Solidão”. Eu tinha acabado de fazer um show no Palácio das Artes. A plateia estava muito participativa, alegre, elegante, entendeu? Era um coral arretado. Aí voltei sozinho para o hotel, peguei a chave e subi para o oitavo andar – ou sétimo, não me lembro bem. Ao abrir a porta do meu quarto, sabe quem estava deitada na minha cama? 

Quem?
“Dona Insônia”. E olha, ela não me deixou dormir, a “Dona Insônia”. Meu Deus do céu, quando chegou 3 horas da madrugada, eu abri a janela que dava para a rua e aí fiquei observando a lua, as estrelas e a rua lá embaixo e pronto! Aquela solidão me fez escrever a música “Solidão”. Toda vez que eu canto, eu me lembro disso. 

E você estava hospedado ali perto do Palácio das Artes? A rua que você observava era a Avenida Afonso Pena?
Isso, era ali pertinho.

Ah, dá pra ter uma ideia de onde essa música foi criada agora...
Eita, meu Deus do céu, eu também fico pensando. Gosto de andar pela Afonso Pena e subo para aquela praça lá em cima no final da avenida, bem longe, que é redonda e os carros passam por ela para subir mais ainda para ir pro bairro Mangabeiras (Praça da Bandeira).

E como foi o processo de escolher o que você ia cantar nessa turnê? O que fez Solidão entrar nesse repertório?
O repertório seguiu uma linha cinematográfica, uma música é interligada a outra. Se estou cantando uma música é que fala de onde eu venho, que é o interior do Nordeste, eu lembro de quem? Luiz Gonzaga. Agora, se estou cantando sobre Olinda, para mim pode até ser sinônimo de outras coisas, mas sobretudo de Carnaval. 

Então se estou cantando uma música que fala em ruas, como “Pelas Ruas Que Andei”, vou me referir à música “Solidão”, que é rua, fala da solidão da rua e também da lua. Aí quando eu estou falando na lua, aí vem “Táxi Lunar”. Tá entendendo? É uma viagem.

E eu sempre faço isso, mas nesse show ficou muito melhor de ser compreendida, porque temos uma projeção incrível, maravilhosa, feita pelo Rafael Todeschini. Então o que acontece? Existem projeções no fundo do palco e um cenário que acompanha essa viagem. Tudo conversa com a música que está sendo cantada. 
É uma coisa... Deixe-me dizer assim... Brasileiríssima. Não seria um cenário que a Madonna ou a Beyoncé fariam. Respeito as duas, não tô dizendo que elas não fazem bem feito, só que pra mim é diferente. Não se compara a nada justamente porque conta minha história.

E vai ter alguma música do início da sua carreira no repertório? Alguma faixa do “Molhado de Suor”, seu primeiro disco solo?
Do “Molhado de Suor” não tem. Da década de 70, eu coloco duas músicas do disco “Espelho Cristalino”, que veio logo depois. Escolhi essas canções porque combinavam mais, elas tinham mais relação com as que vinham antes e depois. Inclusive, me lembrei agora que “Molhado de Suor” tem sim uma faixa que conversa bastante com o repertório, que é “Táxi Lunar”.

A minha parte da letra diz “pela sua cabeleira, vermelha”, que faz referência à musa de “Mensageira dos Anjos”. E o trecho “bela linda criatura, bonita / Nem menina, nem mulher” também se refere a ela. A inspiração foi uma menina que era bailarina. Tenho até o nome dela, mas não vou dizer (risos). Foram tantas namoradas que não vou arrumar confusão agora.

Vi ela pela primeira vez em frente à Igreja da Misericórdia, em Olinda. Foi no dia em que conheci Paulinho Rafael, meu grande irmãozinho que morreu em 2021 e tocou muitos anos comigo. Ela estava vestida de bailarina clássica, havia passado purpurina na cara e tinha o cabelo pintado de vermelho, coisa que pouca gente usava na época. Ela olhou pra gente, deu uma girada e saiu correndo. Desapareceu, ninguém sabia quem era. Fiz muitas músicas pra ela. 

Ah, então é dela que você fala em “Dia Branco”? Quando a letra diz sobre “vestido de bailarina” e “lábios verdes de purpurina”?

É, seria ela a “Mensageira dos Anjos”. Só que quando eu falo “Bebeu da minha saliva/Saiu e não disse nada”, a parte de “bebeu da minha saliva” já é mentira. Licença poética, viu? Ela não me deu beijinho nenhum. (Risos) Desapareceu. Foi embora…

Você cantou “Dia Branco” com a Orquestra Ouro Preto, não foi? Depois desse projeto, você tem planos de colaborar com algum artista mineiro? Tem algum músico daqui de Minas que você acompanha e pensa em fazer uma parceria?
Olha, na banda da turnê “80 Girassóis” temos a Nathália Mitre, que tocou com a gente no projeto da Orquestra Ouro Preto e agora integra a percussão. É uma maravilha ter alguém representando Minas Gerais na minha banda!

No mais, essas coisas (de parceria) comigo acontecem de maneira muito natural. Pode ser gaúcho, mineiro, pernambucano, mas só acontece quando acontece. Inclusive eu só componho quando acontece, quando me vem a inspiração.

Tem uma música que eu canto com a Orquestra Ouro Preto, chamada “Junho”. É um poema do irmão de meu pai, meu tio Geraldo da Valença. Quando eu já estava começando a fazer sucesso no Rio de Janeiro, meu pai sempre dizia: “Você tem que musicar o poema de Geraldo.” E eu respondia: “Pai, só faço quando vier a inspiração.”

Até que um dia a inspiração chegou. A dona Inspiração é diferente da dona Insônia. A dona Insônia é uma chata. Já a dona Inspiração é maravilhosa, gente finíssima. (risos) Quando ela apareceu, eu finalmente musicalizei “Junho”. É assim que as coisas acontecem comigo.

Então você compõe de acordo com o que a natureza manda.
Exatamente. Por exemplo, mostrei para você como nasceu “Solidão”. Agora, tem uma outra música que surgiu de outro jeito. Eu estava morando num pequeno apartamento na Avenue Gobelins, em Paris. Comprei um violão e, de repente, bateu uma saudade enorme de Jackson do Pandeiro e de Geraldo Azevedo. Foi assim que eu compus “Coração Bobo”.

* Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca