Um dos maiores ícones da história do cinema, Marilyn Monroe completaria 100 anos em 1° de junho. O fato de ter morrido aos 36 anos, após uma overdose de barbitúricos, ajudou a eternizar o ícone de sensualidade, que será para sempre lembrada como a “loira fatal”, uma presença tão magnética – dentro e fora das telas - que, até hoje, é símbolo de culto, por sua influência na cultura de massa.

O sucesso midiático de Norma Jeane Mortenson (nome de batismo) se deve, mais do que ao talento artístico, à confecção de uma fantasia, alimentada pela mídia e pelo estúdio – a Fox, que moldou a Marilyn curvilínea, sedutora, ousada e exalando sexo, a ponto de a atriz reclamar, muitas vezes, da percepção errônea que os homens tinham dela quando a conheciam no mundo real.

Embora os filmes tenham reforçado o lado sex symbol, como em “O Pecado Mora ao Lado” (1955), quando atravessa um exaustor que levanta o vestido branco – uma das dez imagens mais reproduzidas da história do cinema -, ela também tinha carisma e um bom timing cômico, evidentes em “Os Homens Preferem as Loiras” (1953), “Como Agarrar um Milionário” (1953) e “O Pecado Mora ao Lado” (1955).

O cinema, que no auge da carreira de MM já tinha mais de meio século, forjou várias estrelas antes dela, mas Norma Jeane foi a primeira a juntar a sexualidade com uma certa ingenuidade. "A pessoa que era de fato, não conseguiu revelar, porque as pessoas não enxergavam além do corpo. Ela passa para a posterioridade como um símbolo sexual, sendo vista única e exclusivamente assim", afirma a crítica Lorenna Montenegro.

Originária do Pará, Lorenna conta que sempre teve uma obsessão, até mesmo antes de estudar cinema e construir uma carreira como crítica, pelas estrelas de Hollywood. E Marilyn era um dos nomes que lhe chamavam a atenção, endossado por textos assinados por teóricos como Edgar Morin e escritores adeptos do “New Journalism”, nas décadas de 1960 e 1970, como Truman Capote e Gay Talese.

“Hoje entendo que nenhum desses homens, por mais que tenham mostrado alguma empatia por ela, conseguiu desnudar a alma da Marilyn. A sensação é a mesma que Elton John descreveu na música ‘Candle in the Wind’, percebendo-a, ainda criança, como uma vela acesa que não conseguia se firmar em lugar nenhum. E quando ele tentou saber mais sobre ela, essa vela já tinha sido apagada há muito tempo”, cita Lorenna.

“Marilyn era uma pessoa que se sentia muito deslocada, sozinha e carente. Talvez tivesse um distúrbio não diagnosticado de borderline, em que sentia tudo com muita intensidade”, salienta a jornalista, que ressalta a passagem da atriz por orfanatos e lares temporários durante boa parte da infância e adolescência. Ela foi adotada pela amiga de infância da mãe, período que considerou o mais feliz de sua vida.

"Depois ela se casou muito cedo e começou a se envolver com homens muito abusivos. No casamento com (o escritor) Arthur Miller, ele cometia muita violência psicológica contra ela, reduzindo-a a um objeto sexual, além de forçá-la a se converter ao judaísmo", lamenta Lorenna. Para a crítica paraense, a grande exceção talvez tenha sido o jogador de beisebol Joe DiMaggio, que visitava o memorial de Marilyn após a morte dela.

Um dos aspectos destacados por Lorenna e que ajudam a desmistificar a questão da atriz inculta é o fato de ela sempre carregar livros para o set, algo que chamava a atenção de colegas. "Mas, geralmente, ela foi muito oprimida durante a vida - e explorada, principalmente depois da morte. Os direitos de uso comercial do nome estão com um grupo de mídia dos Estados Unidos, faturando cerca de US$ 12 milhões por ano".

Embora destaque vários filmes da atriz, inclusive de viés mais dramático, como "Os Desajustados" (1960), Lorenna também enfatiza uma mulher que sofreu muito, que não pôde exercer a vontade de ser mãe, enfrentando dois abortos e uma endometriose que lhe provocava dores excruciantes. "E quem é que sabia disso? Por isso era tachada de problemática. Tudo isso foi fragilizando uma pessoa que já era frágil".

Femme Fatale
Fernando Brito, pesquisador e curador da Versátil Home Video, analisa que a figura de Marilyn, vista em retrospecto, ganha cada vez mais um relevo histórico. “Hoje a gente fala muito em empoderamento feminino, de lugar de fala, e olhando a importância da mulher na história do cinema agora vemos nomes como Ida Lupino e Marilyn Monroe numa luta por protagonismo numa indústria que era misógina”.

“Ela foi descoberta durante a Segunda Guerra quando estava trabalhando nas fábricas (substituindo os homens que estavam no front). Isso é uma das razões para a configuração do arquétipo da femme fatale, que é um personagem misógino. Na trama do filme noir, a femme fatale é a mulher que vai ser ativa, coordenando os eventos, em oposição ao anjo do lar, presente no zeitgeist (espírito da época) do cinema dos anos 40”, destaca.

Após participar de seus primeiros filmes em pequenas aparições, Marilyn só vai se tornar a pin-up como a conhecemos, a partir de um corpo muito voluptuoso, madeixas loiras e sorriso cativante, a partir de, estreando como protagonista em “Torrentes de Paixão”, em 1953. “Ela foi uma das primeiras grandes estrelas femininas, como um fenômeno absurdo”, reforça o pesquisador.

“Se você pegar as bilheterias atualizadas dos filmes dela, eles renderam cerca de  US$ 2 bilhões, mesmo tendo feito poucos trabalhos como personagem principal. É uma renda super considerável, mesmo para os dias de hoje. Mas isso veio a partir de um estereótipo feminino, como a loira burra. ‘Como Agarrar um Milionário’ e ‘Os Homens Preferem as Loiras’, apesar deste ser um filme belíssimo, usam deste estereótipo”, aponta.

Brito lembra que era uma estratégia dos estúdios vincular determinados atores a um tipo de papel, com o objetivo de agradar as expectativas do público. “Mas ela vai se revoltar contra isso, fundando a própria companhia e impondo regras de maior controle sobre os papéis, além de estudar atuação, trabalhando com Lee Strasberg no prestigiado Actors Studio e contratando uma tutora que irá lhe acompanhar nos sets”.

Para ele, essa ação era uma batalha interna, em que Norma Jeane buscava vencer o seu “doppelganger” (termo alemão para duplos) Marilyn. “Ela queria se afirmar enquanto voz feminina. Neste ponto, ela é muito relevante, tentando ter mais voz sobre um processo criativo. Uma mulher ativa, à frente de seu tempo, mas foi uma busca que representou uma tortura para ela e a levou ao suicídio”.

Influência na moda
O nome de Marilyn Monroe não só foi determinante no mundo do cinema. Na moda, ela exerceu grande influência no estilo e no comportamento nas décadas de 1950 e 1960, com a valorização das curvas, com cintura, quadril e bustos marcados, garantindo uma sensualidade muito forte, de acordo com Glauciene de Oliveira, bacharel em design de moda e professora da faculdade UNA.

“No pós-Segunda Guerra, tivemos uma data muito especial que foi o ano de 1947, quando (o estilista francês) Dior lançou no ‘new look’ (novo visual). Até então a moda estava muito influenciada pela guerra, com uma coisa bem militar. O ‘new look’ traz a feminilidade de volta, com uma cintura marcada, uma saia volumosa e uma silhueta mais ampulheta. A Marilyn pega isso e leva para o cinema”, explica.

“A dobradinha sensualidade e elegância não era tão comum antes. A elegância era muito mais associada à seriedade, à disciplina, uma coisa mais austera, quase aristocrática. A sensualidade trazia um cunho mais provocativo, quase marginalizado. Com Marilyn, ela conseguiu misturar os dois, sem ser vulgar”, diz Glauciene, que ressalta que o estilo continuou reverberando na década de 1960, mesmo após a morte de Marilyn.

A professora destaca a o vestido branco de frente única, com amarração no pescoço e as costas de fora, como uma das peças mais famosas usadas por Marilyn (em “O Pecado...”), mas lembra que, fora das câmeras, a atriz se valeu de um estilo casual chic que também fez época. “Apesar de outros ícones da moda usarem esse estilo, com calça capri, suéteres mais ajustados e a famosa camisa tradicional, o sucesso veio dela”.

O estilo ditado por Marilyn Monroe ainda se faz presente, com a revalorização da silhueta e a ideia de uma mulher loira com batom forte, muito utilizados em editoriais de moda e desfiles. “Esse padrão de loira de traços muito marcados, com silhueta bem angulosa e um ar meio vulnerável e ao mesmo tempo sensual, a gente consegue perceber de maneira bem forte em influencers e celebridades”, registra.