Cacá Diegues já dava sinais de impaciência. O filme “Xica da Silva” estava praticamente pronto, e nada de Jorge Ben Jor compor e gravar a música-título. “Só falta você, cara, só falta a sua música”, exasperou-se o diretor alagoano, que teve que recorrer a Dadi, ex-Novos Baianos e baixista da banda do cantor.

“Eles estavam indo fazer uma temporada de shows no México e foram para o estúdio um pouco antes de embarcar. Jorge pegou a sinopse que Cacá tinha enviado para ele e musicou na hora”, conta Kamille Viola, autora do livro “África Brasil: um dia Jorge Ben voou para toda a gente ver”.

O filme embalou a música presente no álbum “África do Brasil”. Os dois estão completando 50 anos em 2026. Tanto o longa quanto o disco marcaram época, reverenciados pelo forte protagonismo negro, seja na pele de Zezé Motta, como personagem principal de “Xica da Silva”, seja pelas influências do soul e do funk nas 11 faixas do vinil.

“África Brasil” é uma obra muita emblemática na carreira de Jorge Ben. Nos shows, ele sempre toca ‘Xica da Silva’, ‘Ponta de Lança Africano’, ‘Taj Mahal’... São músicas que permaneceram”, sublinha Kamille, que lançou a biografia sobre o disco em 2020, como parte da coleção “Discos da Música Brasileira”, da Edições Sesc.

Na publicação, o rapper BNegão pontua que “Xica da Silva” é a primeira referência musical que ele teve sobre uma personalidade negra. Mano Brown, do Racionais MC's, ressalta que é a canção mais bonita do repertório brasileiro. “Ele fala que, sem Jorge Ben, não existiria Mano Brown ou Racionais”.

Kamille destaca que o “pessoal do rap em geral no Brasil é muito fã de Jorge, porque ele chegava e falava do poder negro, da beleza negra”. Não por acaso, o veterano, hoje com 87 anos, é considerado um dos precursores do rap no país, ao abraçar o movimento do Spoken Word criado nos Estados Unidos na década de 1970, mesclando poesia e jazz.

“É a poesia falada em forma de música, com o disco trazendo várias faixas em que ele canta desta forma. Foi algo antecessor do rap, (estilo) que só chegaria aqui muito tempo depois. Mesmo nos Estados Unidos, o rap era uma coisa de gueto naquela época e o Jorge traz isso para o Brasil, de forma precursora. Ele faz uma mistura com o soul e o funk americanos”, destaca.

“A gente já tinha, no fim dos anos de 1960, alguns nomes que eram influenciados pelo soul e pelo funk, como Dom Salvador e Tim Maia. Só que o Jorge simplesmente não tocava somente soul, misturando-o com várias outras influências que já compunham a música dele, entre elas o samba-rock e uma percussão latina, principalmente cubana”, comenta a jornalista.

A disco music, que virou uma febre na década de 1970, também estava presente, principalmente em “Taj Mahal”, que acabou sendo plagiada por Rod Stewart na música “Da Ya Think I'm Sexy?”. Em sua autobiografia, o cantor admitiu a "inspiração", após vir ao Brasil em 1978 para curtir o Carnaval.

“Musicalmente, 'África Brasil' aponta para muitos caminhos. Para usar uma palavra que está numa das músicas, ele faz uma alquimia. E o que é interessante é que ele não precisava mudar, não precisaria mexer em time que estava ganhando”, aponta Kamille.

A grande mudança foi trocar o violão, instrumento que era muito associado ao cantor, pela guitarra. “Ele teve a coragem de romper com o que estava dando muito certo. A coisa de que mais falavam da obra dele era o violão, que ele tocava de uma forma muito diferente. Uma sonoridade única, num estilo difícil de definir”.

A biógrafa lembra que, dois anos antes, Jorge Ben Jor tinha lançado “A Tábua da Esmeralda”, todo centrado no violão e que foi muito bem recebido pela crítica. No ano seguinte, ele fez o disco “Solta o Pavão”, em que usa um violão de nylon eletrificado, que estava na moda.

“Em ‘Solta o Pavão’ não era uma guitarra ainda, o que só foi acontecer em ‘África Brasil’. A primeira música deste disco foi ‘Ponta de Lança Africano’, que tem um riff muito poderoso. A partir dali, ele assumiu para sempre a guitarra”, analisa Kamille Viola.

Um bom exemplo do que significa essa mudança na música de Ben Jor é “Zumbi", presente em "A Tábua da Esmeralda” e “África Brasil”. A primeira, que vem sendo usada para a abertura da novela “A Nobreza do Amor”, da TV Globo, não tem a guitarra roqueira e a poesia falada da regravação.

“Ele começa essa música gritando, numa pegada mais forte e militante, digamos assim. Ao longo da carreira, o Jorge vai dando evidências de que entrou em contato com a milícia negra dos Estados Unidos. Zumbi não era um personagem que a gente aprendia na escola”, assinala.

Com tantas referências no radar de Jorge Ben, Kamille diz que o cantor foi ousado ao investir em algo que fazia sentido para ele naquele momento, sem saber se poderia comprometer a carreira de sucesso. “Não foi simples, porque o Brasil naquele tempo era muito mais limitado em termos técnicos”.

 Produtor do disco, Mazzola recorda, no livro, a dificuldade de registrar tantos instrumentos, já que os estúdios tinham poucos canais para gravação e mixagem. “Isso também é uma característica do Jorge, né? Ele é um artista muito detalhista, perfeccionista musicalmente”, define.

Homenagem no Carnaval de BH

Um dos blocos carnavalescos mais diferenciados do Carnaval belo-horizontino, ao investir na mistura de ritmos como samba, funk, soul e reggae, o Chama o Síndico sempre teve Jorge Ben Jor como uma espécie de patrono, ao lado de Tim Maia. Na festa momesca deste ano, porém, essa reverência virou homenagem, ao lembrar o cinquentenário de “África Brasil”.

“A gente já traz na essência do projeto a pesquisa sobre a obra deles. Mas de alguns anos para cá começou a vir mais forte essa questão do tema, do enredo, para podermos trabalhar artisticamente. Quando percebemos que o disco estava completando 50 anos, aquilo despontou como um mote maravilhoso”, registra Nara Torres, uma das criadoras do bloco e regente da bateria.

 “Virou mote para toda uma direção artística, envolvendo desde o repertório da banda e do bloco até a parte visual, como os figurinos, o design e a decoração do trio elétrico. Isso também influenciou na escolha dos convidados, como a Julia Tizumba e o Sérgio Pererê. No repertório, nós já tocávamos algumas músicas e acabamos incluindo outras”, destaca Nara.

A percussionista ressalta a importância de “África Brasil” para a música do país. “No nosso DNA já trazemos essa mistura presente no disco, que é o fundamento da música brasileira. Como diria o maestro Letieres Leite: ‘Toda música brasileira é afro-brasileira’. A gente entende que esse tema, apesar de o Jorge ter trazido há 50 anos, é totalmente contemporâneo”.