NEGÓCIO BILIONÁRIO

BRASÍLIA – A compra do Banco Master pelo BRB, o Banco de Brasília, do Governo do Distrito Federal, é investigada pelo Ministério Público (MPDFT) e pelo Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPCDF).

A negociação também é acompanhada pela Câmara Legislativa do DF e instituições do Governo Federal. Já o mercado financeiro vê a transação com preocupação, por causa do histórico da instituição privada.

O negócio chamou a atenção do mercado financeiro pelo rápido crescimento do Master, além de alertas de operações do banco fora do padrão levados ao Banco Central (BC).

Na quarta-feira (2), a Moody's, agência de classificação de risco, divulgou relatório sobre a operação alertando que ela apresenta riscos de execução e integração devido ao fato de envolver um banco público, com governança complexa, e um banco privado com estrutura complexa e alta concentração de empréstimos, uma parte deles sendo “recebíveis ilíquidos”. 

Entenda o negócio:

Em 28 de março, o BRB informou aos acionistas e ao mercado sobre o contrato de compra e venda de ações do Banco Master S.A.;

O Conselho do BRB aprovou a compra de 58% da instituição financeira privada. O negócio é estimado entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões;

O BRB afirmou que a operação envolveu 49% das ações ordinárias, 100% das ações preferenciais e 58% do capital total do Master.

O banco estatal diz ainda que duas empresas vão atuar apartadas, mas dividindo governança e coordenação estratégica. 

O que falta para o negócio ser fechado:

O BC e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) têm 360 dias para analisar a negociação e concluir ou não a operação.

O fechamento da operação está sujeito a condicionantes para que o negócio seja concretizado, o que inclui a auditoria do BRB nos ativos e passivos do Master, além de obtenção das aprovações antitruste.

As diferentes frentes de investigação do negócio:

MPDFT: A investigação é conduzida pela Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social (Prodep), que instaurou um inquérito civil, de ofício, na terça-feira (1°);

MPCDF: O Ministério Público de Contas do DF também informou que investiga a compra. Ele pediu ao BRB informações e acesso à íntegra do processo administrativo relacionado à aquisição de participação no Master;

Governo federal: Secretaria de Regime Próprio e Complementar (SRPC) do Ministério da Previdência Social (MPS), analisa aplicações de R$ 960 milhões da Rioprevidência no Master. 

A Rioprevidência é responsável pela gestão de recursos que pagam aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores públicos estaduais do Estado do Rio de Janeiro.

Como o legislativo acompanha a negociação:

Senado: A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal aprovou, na terça-feira, um requerimento de informações do BC sobre a transação; Damares Alves (Republicanos-DF), Leila Barros (PDT-DF) e Izalci Lucas (PL-DF), os três senadores do DF, foram ao BC pedir explicação do presidente da instituição, Gabriel Galípolo. Ele prometeu “uma análise técnica”;

Câmara Legislativa do DF: Deputados distritais do PT protocolaram um pedido de convocação do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, para explicar a transação. O deputado Chico Vigilante (PT) criticou a operação e disse que a oposição vai tomar providências e que “fará de tudo” para tentar impedir a concretização da compra do Master pelo banco estatal.

Os donos do BRB e do Banco Master e suas relações na política

O Banco Master pertence ao mineiro Daniel Vorcaro, 41 anos, que é sócio em empresas de diversos ramos (como o Fasano do Itaim, em São Paulo, e o Will Bank) e dono de aproximadamente 26% da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) do Atlético Mineiro.

Em 2023, Vorcaro ganhou destaque nacional ao gastar cerca de R$ 15 milhões na realização da festa de 15 anos da filha em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, com direito a show do DJ Alok. Na mesma época, ele teria comprado a mansão mais cara já negociada em Orlando, na Flórida, por US$ 37 milhões.

Daniel Vorcaro é próximo do ex-ministro Ciro Nogueira e do presidente do União Brasil, Antonio Rueda. Augusto Lima, o sócio baiano do Master, é casado com a ex-deputada federal e ex-ministra do governo Bolsonaro Flávia Peres (ex-Arruda), próxima de Ibaneis Rocha (MDB), o governador do DF, controlador do BRB.

O BRB foi criado em dezembro de 1964 para ser um agente financeiro para captar os recursos necessários para o desenvolvimento do Distrito Federal. Em 1991, passou a ser um banco com as carteiras: comercial, câmbio, desenvolvimento e imobiliária.

A empresa é uma sociedade de economia mista, de capital aberto, e o acionista majoritário é o Governo do Distrito Federal (71,92%). O BRB é uma instituição financeira com atuação no Distrito Federal e com agências no Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Paraíba.

Sindicato dos bancários vê transação com ‘profunda preocupação’

Já o Sindicato dos Bancários do Distrito Federal disse, em nota publicada no último domingo (30), que tem “profunda preocupação” com a possibilidade de gestão temerária do BRB, diante da compra do Banco Master, no que tange ao interesse público e à segurança econômica da instituição.

“Ressalta-se que, em um passado próximo, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou a concentração da carteira do Banco Master em precatórios, uma carteira sem liquidez, o que agrava as incertezas em torno da aquisição proposta pelo BRB”, destacou o sindicato em nota.

O Banco Master foi fundado em 1974 como corretora de valores e títulos imobiliários. Teve a aprovação do BC para operar como instituição financeira em 1990, ainda com o nome de Banco Máxima. Após a compra do Banco Vipal, a instituição foi renomeada como Banco Master, em 2021.

O Master acelerou o crescimento nos últimos anos com uma estratégia considerada agressiva. Ofereceu CDBs a taxas que chegaram a 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), enquanto o mercado mal encosta em 100%. Na posição de banco de pequeno porte, colocava o produto no mercado por meio de outras instituições. Na outra ponta, fazia empréstimos e investimentos em empresas consideradas problemáticas.