Festival de Inverno de Garanhuns
 
Na última sexta-feira (15), começou a maratona de 17 dias de eventos culturais que tomam a cidade de Garanhuns na 30ª edição do Festival de Inverno da cidade, o FIG. Após uma cerimônia de abertura no recém-inaugurado Teatro Reinaldo de Oliveira, começaram as apresentações no palco Mestre Dominguinhos, principal polo de shows do evento, que também concentra as atividades do festival neste primeiro final de semana. Para um pátio lotado e sempre acompanhado da tradicional garoa garanhuense, se apresentaram nomes locais e nacionais do samba, como Karynna Spinelli, Amor Eterno, Diogo Nogueira e Mumuzinho, em uma noite de clássicos do ritmo e manifestações políticas. 

Mas antes do samba tomar conta do palco, uma apresentação multicultural, trazendo diversas manifestações culturais da cidade e do estado abriu os trabalhos. Expressões como o reisado, cavalo-marinho, as bandas de pífano, a dança contemporânea, o manguebeat e a musicalidade indígena se revezaram em uma bonita apresentação que recebia o público que começava a não deixar espaços vazios na Praça Guadalajara. 


As apresentações eram intercaladas com um discurso poético que exaltava a riqueza artística de Pernambuco e a cultura como forma de resistência. Também começaram as primeiras falas que tocavam em pontos da política nacional atual. Nomes não foram citados, mas se falou em “Messias homicida” e “governo genocida”, além de apelos contra o racismo e o fascismo. Manifestações essas que foram recebidas com entusiasmo pelo público presente. 


O samba começou de fato com o show da banda Amor Eterno, local de Garanhuns, tocando sucessos do pagode. Em seguida, foi a vez da recifense Karynna Spinelli, que subiu ao palco em um elaborado feminino para uma apresentação de discursos fortes, sambas clássicos e exaltação aos orixás das religiosidades de matriz africana. “Hoje vai ter muito samba, mas eu vou tocar macumba”, afirmou em uma entrevista coletiva pouco antes de subir ao palco. 


“Estamos vivos, mas também precisamos honrar os que partiram, nossa música também é para isso. A gente precisa aprender o que é política, como faz, o que é respeito. Trazer nossos filhos e o futuro do país para que nunca mais aconteça o que deixamos acontecer. Não podemos ter um genocida conduzindo nosso país, somos muito mais. Precisamos uns dos outros, lutar, sem violência. Educação, música, amor e cultura salvam quase tudo no mundo”, afirmou na entrevista, repetindo palavras semelhantes em cima do palco. 


Após o show de Spinelli, veio o carioca Diogo Nogueira, trazendo a Baía de Guanabara estampada no grande telão no fundo do palco. Ovacionado, o cantor trouxe um repertório também repleto de clássicos do cancioneiro nacional, como Andança, emblemática canção de Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi e Edmundo Souto, imortalizada por Beth Carvalho. Também teve espaço para Tim Maia, Zeca Pagodinho, além de canções que se popularizam em sua voz, como Tô fazendo a minha parte. 


Durante essa música, que fala sobre a batalha diária do trabalhador brasileiro, Nogueira começou a fazer um gesto em “L” com os dedos, usado pelos apoiadores do pré-candidato à presidência Lula. Se o recado estava sutil, tudo mudou quando uma camisa com o rosto do ex-presidente foi lançada ao palco e levantada enfaticamente pelo cantor para o público. Pouco depois, ele chegou a colar um adesivo com o rosto do petista em sua roupa, recebendo sempre um apoio entusiasmado da plateia. Ao fim do show, ele distribuiu rosas para os presentes.


A noite foi encerrada com o performático Mumuzinho, já abrindo o show com seu hit Eu mereço ser feliz, que agitou o público que não demonstrava o cansaço da madrugada. Acompanharam a energia do cantor carioca que percorria todo o palco, interagia com a plateia e agradecia aos políticos locais pela oportunidade de tocar no festival. Além de sucessos seus, como Fulminante e Playlist, ele também fez um grande passeio pela trajetória do pagode, passando por Fundo de Quintal, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, chegando também em Ivete Sangalo, Djavan e Luiz Gonzaga.


Durante seu show, subiu ao palco de improviso um cantor local, Jonathan Rangel, da banda garanhuense Vamo que Vamo, que pôde cantar ao lado de Mumuzinho e divulgar seu trabalho, também discursando sobre as dificuldades de se cantar pagode no Nordeste, segundo ele. Outra fã também subiu ao palco e recebeu uma serenata em ritmo de pagode do carioca. Já se aproximava das 3h da manhã quando ele despediu do público, se dizendo agradecido e exaltando o tamanho do festival.


O FIG continua neste sábado, com show de Jorge Vercillo, Jorge Du Peixe e Marina Elali, que substitui o trapper Xamã, que teve seu show cancelado de última hora por problemas de documentação.