ENCONTRO

Antonio Nóbrega sempre teve um pé no erudito e outro no popular. Sem a interseção do violino com o frevo, tudo seria diferente na vida desse recifense que desde criança soube enxergar que entre um e outro não há barreiras. No fim da década de 60, com fundamental formação clássica – estudou violino e canto lírico – e o corpo franzino de seus 17 anos, Nóbrega tocou com as orquestras sinfônicas do Recife e de João Pessoa ao mesmo tempo em que se enveredava para a música popular em um conjunto formado com as irmãs. Em 1971, ele foi convidado por Ariano Suassuna para integrar o Quinteto Armorial, mas isso será assunto para mais adiante.

Antonio Nóbrega, que na adolescência frequentou a Escola de Belas Artes de Recife, não sabe o que seria de sua vida se não fosse o casamento entre a cultura erudita, que para ele é sinônimo de cultura ocidental, e a cultura popular brasileira, com sua oralidade, seu folclore e seus versos e ritmos que contam da tradição de um povo e de uma região.


Músico, ator, dançarino, cantor e compositor, ele diz já ter feito exercícios mentais para tentar fazer uma ideia do que seria Antonio Nóbrega sem essa união. Ele só sabe que tudo seria “diametralmente diferente”. “A presença desses universos na minha vida foi de tal forma que influenciou não só meu fazer artístico, mas também minha visão de mundo, minha forma de pensar. Está tudo contaminado com o mundo cultural popular”, ele pontua.

Por isso, quando subir ao palco com a Orquestra Ouro Preto, parceria de outros tempos, Nóbrega estará em casa, sobretudo porque será acompanhado por uma companhia que nasceu há 21 anos com o propósito de eliminar qualquer barreira musical e estética entre o popular e o erudito.

Neste domingo (20), no Sesc Palladium (detalhes no fim da matéria), Nóbrega e orquestra apresentam o espetáculo “Tirando a Casaca” e inauguram a temporada 2022 da série “Domingos Clássicos”. O repertório inclui músicas já apresentadas por eles em outras ocasiões e algumas canções que serão interpretadas pela primeira vez, entre as quais “Ponteio Acutilado” e “Romance da Nau Catarineta”.

“É um repertório, sobretudo, em cima do meu universo, com obras desde a época do Quinteto Armorial e outras mais recentes. Eu me divido entre o violino, basicamente, e a interpretação. É sempre reconfortante tocar com a Orquestra Ouro Preto porque me identifico com a sonoridade dela e também porque há uma empatia entre mim, o regente (Rodrigo Toffolo) e os músicos. É uma grande jornada de trabalho”, afirma o artista. 

Sobre essa tabelinha à la Dirceu Lopes e Tostão, Antonio Nóbrega explica que a sintonia entre ele e a Orquestra Ouro Preto reflete tudo aquilo que o influenciou na juventude: “Quando ela incorpora pandeiro, instrumentos de percussão como vai fazer comigo, quanto toco um bandolim e canto músicas ritmadas a partir de uma ciranda ou um maracatu, e esse universo é apresentado com uma orquestra, estamos celebrando esse conluio, esse casamento”.

Celebrando o Movimento Armorial


Em 1971, como dito no início do texto, o grande dramaturgo, poeta e ensaísta Ariano Suassuna viu em Antonio Nóbrega a figura perfeita para integrar o Quinteto Armorial, grupo precursor na criação de uma música de câmara brasileira de raízes populares. Suassuna procurava um violinista e ficou maravilhado ao ver Nóbrega tocando Bach em um concerto.

O grupo fazia parte de uma coisa maior, o Movimento Armorial, vertente artístico-cultural idealizada por Suassuna com a proposta de criar uma arte brasileira baseada na raiz da cultura nordestina, o que permitia mesclar teatro, dança, literatura, artes plásticas, cinema e música.

As comemorações dos 50 anos do movimento foram adiadas pela pandemia. Porém, em janeiro deste ano, Nóbrega pôde, enfim, celebrar a efeméride. Ele fez o show “Um Recital Para Ariano” no CCBB-BH, que também abrigou uma grande exposição, a “Mostra Movimento Armorial 50 anos”, sobre “um dos movimentos musicais mais complexos e incríveis que esse Brasil já produziu”, como diz o artista. Inevitavelmente, as lembranças daquele tempo remetem ao caráter inovador do Quinteto e também à presença brilhante de Ariano Suassuna. 

“Tenho recordações variadas dessa minha vivência com o Ariano, que viajou conosco durante uns três anos. Ele apresentava o grupo e contava histórias, praticamente as mesmas histórias sempre. Ele era tão interessante e original na forma de contar que a gente se encantava como se fosse a primeira vez que ouvíamos aquelas histórias”, revela Nóbrega.

No dia 2 de maio, o artista completa 70 anos. O espírito é de 37, e o corpo, de 28. Se pudesse pedir um presente, qualquer presente, Nóbrega já tem o desejo na ponta da língua: “Se o mundo não acabar antes, quero mais 50 anos de vida”. A miséria, a guerra, o colapso ambiental e as desigualdades sociais são, para ele, sinais e resultados da ação bruta e egoísta da civilização ocidental.

Antonio Nóbrega se divide entre a esperança e o negativismo. “Mas sou daquelas pessoas que têm um respeito muito grande pela vida. E como falei, nas condições em que vivo, e sou um privilegiado, viveria mais 50 anos”, diz.

Programe-se


Antonio Nóbrega e Orquestra Ouro Preto apresentam o espetáculo “Tirando a Casa” neste domingo (20), às 11h, no Grande Teatro do Sesc Palladium. Ingressos a partir de R$ 15 na bilheteria ou pela plataforma Sympla.