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Em outro, ouve de José Saramago, também laureado com o Nobel, a confidência de que, pela primeira vez na vida, havia sentido “o vento das palmas” ao ser ovacionado por uma plateia em um evento idealizado por ele.
Em mais um capítulo, convence Luis Fernando Veríssimo a fazer duas sessões de bate-papo no mesmo dia, depois que a procura pelo encontro se mostra o dobro da prevista, e o escritor gaúcho aceita sem pestanejar.
Histórias como essas talvez estariam escritas em uma possível obra do “Sempre um Papo”, projeto de Afonso Borges que completa 40 anos em agosto.
Ao longo de quatro décadas, o gestor cultural viabilizou mais de nove mil encontros literários em Minas Gerais e fora do estado, em que reuniu escritores, pensadores, artistas e milhares de leitores em auditórios, teatros, praças e escolas.
O projeto consolidou-se como uma das mais longevas ações de difusão da literatura no país. Em seus palcos, passaram grandes nomes da literatura brasileira e mundial, de vencedores do Nobel a autores estreantes. “As pessoas adoram ler, a gente só precisa proporcionar condições para tanto”, sintetiza Borges.
O gestor cultural percebeu isso logo nos primórdios do “Sempre um Papo.” Quando criou o projeto em 1986, ele se resumia a “apenas um bate-papo com os artistas”, mas no semestre seguinte, durante o lançamento de um livro de Frei Betto, notou uma lacuna na “profissionalização do marketing do livro e da literatura.”
A partir dessa constatação, decidiu aplicar ao universo literário estratégias já comuns na divulgação de shows e espetáculos. Se artistas lotavam teatros graças a campanhas de comunicação bem estruturadas, por que os livros não poderiam receber o mesmo tratamento?
“Até então, nunca um lançamento de livro tinha sido divulgado com tamanha intensidade. Peguei esse gancho e construí uma excelente estratégia para divulgar o livro e o autor”, lembra.
A proposta não se limitou à venda de exemplares. O objetivo era criar uma rede de relacionamento capaz de aproximar escritores e leitores. Ao longo dos anos, essa filosofia também passou a orientar a forma como os convidados são recebidos.
“Desde o momento em que o escritor sai de casa, ele é acompanhado. Não existe isso de chegar ao aeroporto e não ter ninguém para recebê-lo. Existe um cuidado permanente. O autor precisa se sentir acolhido. Se alguém me perguntar qual é o segredo do sucesso do ‘Sempre um Papo’, digo que é o cuidado e o profissionalismo”, destaca ele, sem perder de vista o livro, protagonista do projeto.
“Posso trazer o mesmo autor diversas vezes para o evento, mas sempre com seu lançamento mais recente. Raramente trago alguém avulso. Sou jornalista também, então, sempre procuro a novidade”, denota.
Borges acredita que a permanência do projeto por quatro décadas se justifica, sobretudo, pelo impacto que a literatura é capaz de provocar nas pessoas. “Quem participa de um encontro sai dali transformado. O olho no olho é fundamental”, analisa.
E embora tenha colecionado encontros históricos com escritores de renome mundial, ele ressalta que o maior legado está na capacidade de formar leitores e cidadãos mais conscientes.
Como exemplo, o gestor cultural cita a produção contemporânea de escritores negros brasileiros, que, em sua avaliação, vem ampliando o entendimento da sociedade sobre temas como racismo e desigualdade.
“Nós estamos sendo reeducados pela literatura negra contemporânea. Autores como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Jefferson Tenório e Itamar Vieira Junior nos fazem compreender aspectos da nossa história que muitas vezes não aprendemos na escola”, compreende.
Mudança de patrocinador e comemorações pelos 40 anos de "Sempre um Papo"
No início do ano, o “Sempre um Papo” perdeu seu patrocínio com a Cemig, conquistado há 40 anos. O apoio da Companhia Energética de Minas Gerais obtido via Lei Rouanet abrangia a realização do projeto inclusive em outros estados, com exceção de São Paulo, onde há uma longeva parceria com o SESC SP.
Mas mais recentemente, o “Sempre um Papo” voltou a contar com patrocínio, desta vez de um “triângulo” composto por Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, Copasa e Itaú. “O TCE é o local onde realizarei todos os encontros deste e do ano que vem”, adianta Afonso Borges. Ele fala das comemorações pelos 40 anos do “Sempre um Papo”, que incluirão o lançamento de livros de Bruna Lombardi, Cristovão Tezza, Djamila Ribeiro e Rita von Hunty.
Projeto literário segue rendendo bons frutos
Quatro décadas depois, os frutos do “Sempre um Papo” extrapolam os encontros para celebrar o livro. O projeto deu origem a festivais literários e construiu um grande acervo audiovisual sobre literatura no Brasil.
Foi dessa expansão que nasceram eventos como o Fliaraxá, o Flitabira, o Fliparacatu e o Flipetrópolis. “Os festivais têm uma capacidade enorme de transformar uma cidade. Quando um município fica tomado por grandes autores durante alguns dias, algo muda. A literatura ocupa as ruas, movimenta a economia, desperta curiosidade e deixa um legado”, realça Afonso Borges.
O gestor cultural explica que a curadoria dos festivais busca representar a diversidade da sociedade brasileira. “Fazemos um equilíbrio entre homens e mulheres, entre autores negros, brancos e indígenas. É um cuidado permanente. Eu gosto de dizer que eles funcionam como um laboratório do mundo ideal. São exemplos de uma sociedade que respeita a diversidade e promove o diálogo”, elabora.
E se os festivais ampliaram a presença física do projeto pelo país, a internet permitiu que ele chegasse ainda mais longe. Ao longo dos anos, o “Sempre um Papo” reuniu um acervo de cerca de dois mil vídeos disponibilizados gratuitamente no YouTube, que acumulam quase dez milhões de visualizações. “É um patrimônio de memória da literatura brasileira”, orgulha-se.
Além do canal no YouTube, o projeto mantém presença constante nas redes sociais, com publicação de trechos de entrevistas e frases de escritores. O gestor cultural também cita com regozijo seu programa na rádio Alvorada, o “Mondolivro”.
“Falo na rádio há 26 anos, e tenho cerca de 2,5 milhões de plays”, celebra. Aos 64 anos, Afonso Borges tem muitos capítulos a acrescentar em seu livro da vida, mas comemora o que já escreveu até aqui. “Acho que o objetivo da minha vida é, por meio da literatura e da educação, ajudar a mudar mentalidades. A literatura nos ensina aquilo que muitas vezes a escola não consegue ensinar”, arremata.
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Em mais um capítulo, convence Luis Fernando Veríssimo a fazer duas sessões de bate-papo no mesmo dia, depois que a procura pelo encontro se mostra o dobro da prevista, e o escritor gaúcho aceita sem pestanejar.
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O projeto consolidou-se como uma das mais longevas ações de difusão da literatura no país. Em seus palcos, passaram grandes nomes da literatura brasileira e mundial, de vencedores do Nobel a autores estreantes. “As pessoas adoram ler, a gente só precisa proporcionar condições para tanto”, sintetiza Borges.
O gestor cultural percebeu isso logo nos primórdios do “Sempre um Papo.” Quando criou o projeto em 1986, ele se resumia a “apenas um bate-papo com os artistas”, mas no semestre seguinte, durante o lançamento de um livro de Frei Betto, notou uma lacuna na “profissionalização do marketing do livro e da literatura.”
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“Até então, nunca um lançamento de livro tinha sido divulgado com tamanha intensidade. Peguei esse gancho e construí uma excelente estratégia para divulgar o livro e o autor”, lembra.
A proposta não se limitou à venda de exemplares. O objetivo era criar uma rede de relacionamento capaz de aproximar escritores e leitores. Ao longo dos anos, essa filosofia também passou a orientar a forma como os convidados são recebidos.
“Desde o momento em que o escritor sai de casa, ele é acompanhado. Não existe isso de chegar ao aeroporto e não ter ninguém para recebê-lo. Existe um cuidado permanente. O autor precisa se sentir acolhido. Se alguém me perguntar qual é o segredo do sucesso do ‘Sempre um Papo’, digo que é o cuidado e o profissionalismo”, destaca ele, sem perder de vista o livro, protagonista do projeto.
“Posso trazer o mesmo autor diversas vezes para o evento, mas sempre com seu lançamento mais recente. Raramente trago alguém avulso. Sou jornalista também, então, sempre procuro a novidade”, denota.
Borges acredita que a permanência do projeto por quatro décadas se justifica, sobretudo, pelo impacto que a literatura é capaz de provocar nas pessoas. “Quem participa de um encontro sai dali transformado. O olho no olho é fundamental”, analisa.
E embora tenha colecionado encontros históricos com escritores de renome mundial, ele ressalta que o maior legado está na capacidade de formar leitores e cidadãos mais conscientes.
Como exemplo, o gestor cultural cita a produção contemporânea de escritores negros brasileiros, que, em sua avaliação, vem ampliando o entendimento da sociedade sobre temas como racismo e desigualdade.
“Nós estamos sendo reeducados pela literatura negra contemporânea. Autores como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Jefferson Tenório e Itamar Vieira Junior nos fazem compreender aspectos da nossa história que muitas vezes não aprendemos na escola”, compreende.
Mudança de patrocinador e comemorações pelos 40 anos de "Sempre um Papo"
No início do ano, o “Sempre um Papo” perdeu seu patrocínio com a Cemig, conquistado há 40 anos. O apoio da Companhia Energética de Minas Gerais obtido via Lei Rouanet abrangia a realização do projeto inclusive em outros estados, com exceção de São Paulo, onde há uma longeva parceria com o SESC SP.
Mas mais recentemente, o “Sempre um Papo” voltou a contar com patrocínio, desta vez de um “triângulo” composto por Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, Copasa e Itaú. “O TCE é o local onde realizarei todos os encontros deste e do ano que vem”, adianta Afonso Borges. Ele fala das comemorações pelos 40 anos do “Sempre um Papo”, que incluirão o lançamento de livros de Bruna Lombardi, Cristovão Tezza, Djamila Ribeiro e Rita von Hunty.
Projeto literário segue rendendo bons frutos
Quatro décadas depois, os frutos do “Sempre um Papo” extrapolam os encontros para celebrar o livro. O projeto deu origem a festivais literários e construiu um grande acervo audiovisual sobre literatura no Brasil.
Foi dessa expansão que nasceram eventos como o Fliaraxá, o Flitabira, o Fliparacatu e o Flipetrópolis. “Os festivais têm uma capacidade enorme de transformar uma cidade. Quando um município fica tomado por grandes autores durante alguns dias, algo muda. A literatura ocupa as ruas, movimenta a economia, desperta curiosidade e deixa um legado”, realça Afonso Borges.
O gestor cultural explica que a curadoria dos festivais busca representar a diversidade da sociedade brasileira. “Fazemos um equilíbrio entre homens e mulheres, entre autores negros, brancos e indígenas. É um cuidado permanente. Eu gosto de dizer que eles funcionam como um laboratório do mundo ideal. São exemplos de uma sociedade que respeita a diversidade e promove o diálogo”, elabora.
E se os festivais ampliaram a presença física do projeto pelo país, a internet permitiu que ele chegasse ainda mais longe. Ao longo dos anos, o “Sempre um Papo” reuniu um acervo de cerca de dois mil vídeos disponibilizados gratuitamente no YouTube, que acumulam quase dez milhões de visualizações. “É um patrimônio de memória da literatura brasileira”, orgulha-se.
Além do canal no YouTube, o projeto mantém presença constante nas redes sociais, com publicação de trechos de entrevistas e frases de escritores. O gestor cultural também cita com regozijo seu programa na rádio Alvorada, o “Mondolivro”.
“Falo na rádio há 26 anos, e tenho cerca de 2,5 milhões de plays”, celebra. Aos 64 anos, Afonso Borges tem muitos capítulos a acrescentar em seu livro da vida, mas comemora o que já escreveu até aqui. “Acho que o objetivo da minha vida é, por meio da literatura e da educação, ajudar a mudar mentalidades. A literatura nos ensina aquilo que muitas vezes a escola não consegue ensinar”, arremata.