Fernanda Montenegro ficou marcada no cinema por papéis fortes em “A Falecida” (1964), “Tudo Bem” (1978), “Eles Não Usam Black-Tie” (1981) e “Central do Brasil” (1998), pelo qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Em sua anunciada despedida da tela grande, aos 96 anos, ela embarca numa produção mais leve, atuando numa comédia policial que nos faz lembrar os momentos cômicos vividos na TV, como nas novelas “Guerra dos Sexos” e “Cambalacho”, exibidas na década de 1980.

O trunfo de “Velhos Bandidos”, que estreia hoje nos cinemas, é a dobradinha de Fernanda com Ary Fontoura, uma junção que fica muito próxima do trabalho dela e de Paulo Autran em “Guerra dos Sexos”, dominando a cena numa batalha conjugal interminável e divertida. É essa mesma pegada que vemos no filme dirigido por Claudio Torres (filho da atriz). O casal central não vive às turras, mas tem a mesma sinergia para mostrar que a idade avançada não é impeditivo para viver grandes aventuras.

Para reforçar essa ousadia etária, o filme faz um espelhamento entre o casal do título e o formado por Vladimir Brichta e Bruna Marquezine, que acaba sendo passado para trás pelo primeiro. Os dois mais jovens iniciam o filme roubando a casa de idosos viajantes, com o objetivo de juntar dinheiro suficiente para montar uma pousada em Bora-Bora, sem contar que poderiam encontrar uma dupla mais esperta e com outros planos em mente, como aproveitá-la para um grande assalto a banco. 

Nessa ação que inverte a lógica dos velhinhos simpáticos e dos jovens cheios de ímpeto, a expectativa é que eles se tornem ainda mais sórdidos e gananciosos, como já vimos em algumas produções de Hollywood, entre elas “Red: Aposentados e Perigosos” (2010) e “Despedida em Grande Estilo” (2017). Lá fora, eles pegam em armas, brigam, trabalham como assassinos profissionais e desafiam a idade sem qualquer remorso. E boa parte da graça reside aí, acentuando as sequências de ação e comicidade absurda.

“Velhos Bandidos” vai por outro caminho. Tem cenas de ação e humor sim, mas boa parte da trama é usada para isentar seus personagens. Por fim, todos terão uma intenção nobre, o que deixa o filme sem antagonistas. É uma opção que tira muito da força e da agilidade narrativa, além de tornar a trama bastante previsível. O roteiro não acredita na possibilidade de que, ao exibir personagens octogenários mais complexos, com falhas e imperfeições, eles seriam capazes de provocar o nosso fascínio – quem não gosta de um pouco de vilania?

Com ótima mão para comédias românticas (“A Mulher Invisível” e “O Homem do Futuro”) e sarcásticas (“Redentor”), Torres não tem afinidade com a ação, o que quebra outro pilar importante nesse subgênero. O filme gasta mais tempo no planejamento do assalto do que na execução em si, com um resultado anticlimático. Os autores podem argumentar que a maior expectativa está no pós-roubo, sobre como os dois casais vão se comportar depois; porém, mais uma vez, há explicação demais, com direito a três finais diferentes até ficar claro o desejo de criar uma relação mais sólida entre os quatro.

É como no final das telenovelas: tem que ser bom para todo mundo – até mesmo para um quinto elemento dessa gangue que, se tirado da trama, faria pouca falta. O humor é bastante ingênuo, como se estivéssemos vendo um filme dos Trapalhões, acentuado pelas caras e bocas do personagem de Brichta. Por mais estranho que pareça, ele é o que melhor se encaixa no propósito de “Velhos Bandidos”, um filme que se contenta mais com seus instantes de farsa inofensiva, em que cada um conta pequenas mentiras para o outro. 

É bem a cara de um Brasil que prefere imputar a culpa ao outro. Mas o último filme de Fernanda Montenegro não pretende discutir essa questão. A entrada dos velhinhos no mundo do crime ocorre porque foram lesados por corruptos do sistema financeiro – algo, diga-se, bem atual. Mas, diferentemente de “Redentor”, é tudo muito superficial, indolor, sem qualquer referência direta ou indireta, de forma satírica ou não. Se todos terminassem felizes, mas destampando um bocado de fraudes e falácias, teria algo a se defender.