ARTE E MEMÓRIA

BRUMADINHO - Recontar histórias que nunca foram contadas. É com esse objetivo que o Instituto Inhotim, em Brumadinho, inaugura a exposição Dupla Cura, do artista goiano Dalton Paula, como parte da programação de 20 anos do museu. A mostra reúne obras de diferentes fases da carreira do artista em uma apresentação inédita, a primeira panorâmica já realizada com seus trabalhos no mundo.

Mais do que uma reunião de peças, a exposição propõe um percurso pela trajetória de Dalton, marcada por investigações sobre imagem, memória e história negra no Brasil. Ao reunir obras que estavam dispersas em coleções e instituições, o Inhotim constrói uma narrativa que evidencia a coerência e a insistência do artista ao longo de quase três décadas de produção.

“Dalton Paula é um dos precursores de uma gramática visual que reconfigurou a arte brasileira contemporânea”, destacou a curadoria.

São Cosme e São Damião

O conceito de Dupla Cura atravessa toda a exposição e está ligado a dimensões espirituais e coletivas da obra do artista. Segundo a curadoria, a ideia parte da presença simbólica de entidades como São Cosme e São Damião, muito presentes na trajetória de Dalton, e se desdobra na noção de que a cura individual está diretamente conectada à cura coletiva.

“Essa dupla cura também está curando o indivíduo, cura familiares, cura a história negra também e todos que entram na nossa galeria”, explicou a equipe curatorial.

Um dos destaques da exposição é a série “Infâncias Negras”, que ocupa papel central na narrativa. Nela, Dalton desloca o olhar sobre a infância negra, historicamente marcada por ausências e estereótipos, para um campo de potência, afeto e protagonismo.

A obra Fanfarra, a maior pintura já realizada pelo artista, sintetiza essa proposta. Com 9,60 metros de comprimento, o trabalho foi construído a partir de um coral formado por 17 crianças negras em Goiânia, reunindo elementos como música, espiritualidade e memória.

“Foi esse o caminho pelo qual eu escolhi para tratar de questões como racismo […] usando o universo das crianças”, afirmou Dalton Paula. 

Dignidade, alegria e pertencimento

Ao optar por abordar temas complexos por meio da ludicidade e da leveza, o artista propõe uma inversão de perspectiva: em vez de reforçar imagens de violência, ele constrói narrativas baseadas em dignidade, alegria e pertencimento.

A exposição também dialoga com o projeto Sertão Negro, criado por Dalton em Goiânia, que funciona como uma escola voltada à arte, à comunidade e aos saberes tradicionais. A iniciativa, que completou cinco anos, é considerada pela curadoria um dos gestos mais radicais da arte contemporânea brasileira.

Neste sábado (25), o coral do Sertão Negro fará uma apresentação, junto da Escola de Música do Inhotim. O evento será realizado às 14h, na Galeria Mata. 

Além da Galeria Mata, Dupla Cura se expande para outras áreas do Inhotim, incluindo jardins e ações educativas, em diálogo com territórios quilombolas da região de Brumadinho. A proposta reforça a ideia de que a exposição não se limita ao espaço expositivo, mas se desdobra em práticas coletivas e no fortalecimento de memórias.