A escrava virou rainha, virou filme, virou livro, novela e até desfile de escola de samba. Agora, 230 anos depois de sua morte, a história de Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, chega ao universo da ópera em uma nova criação, que pretende olhar para além dos estereótipos construídos ao longo do tempo.

Após uma pré-estreia na semana passada em Diamantina, cidade do Vale do Jequitinhonha onde a personagem histórica morou boa parte de sua vida, a superprodução – que marca a centésima ópera da Fundação Clóvis Salgado (FCS) – estreia neste sábado (19/9) no Palácio das Artes, com récitas também na segunda (21/9) e na quarta (23/9). A montagem reúne os três corpos artísticos da FCS – Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Cia. de Dança Palácio das Artes – e envolve cerca de 400 profissionais, tendo 163 artistas ao vivo, incluindo 17 solistas e atores. São aproximadamente mil peças, entre figurinos e adereços, 14 cenários e mais de 30 objetos cênicos.  

Mais do que recontar uma história conhecida, a ópera “Chica da Silva” propõe um encontro entre aquilo que se sabe sobre a personagem e as muitas imagens criadas sobre ela ao longo dos séculos. No palco, a mulher que já foi apresentada como símbolo de sensualidade, como uma espécie de “Cinderela negra” ou como personagem mítica, ganha outras camadas: é escravizada, alforriada, mãe, companheira, mulher de negócios e figura de destaque em uma sociedade marcada pela escravidão. 

“A gente teve a preocupação de não fazer uma versão romântica da figura histórica”, explica Flávia Bessone, que assina o libreto ao lado de Marcos Bernstein. Segundo ela, a intenção foi também olhar para as diferentes representações de Chica e entender o que elas revelam sobre a maneira como a sociedade brasileira enxerga a mulher e, especialmente, a mulher negra. “Procuramos incorporar isso à ópera. As várias narrativas diferentes sobre a Chica, mas sem deixar de contar a história dela”, afirma. 


Para Marcos Bernstein, a linguagem do gênero impôs outro desafio. Em uma ópera, explica, o texto precisa estar a serviço da música e da cena. “Tivemos uma preocupação de apresentar uma visão mais contemporânea não no sentido de atualizar a Chica, porém mais contemporânea dentro da história, das análises históricas, com a probabilidade de como a Chica foi e, a partir disso, apresentar as versões”, ressalta. 

O resultado não pretende ser um tratado histórico. A criação parte de pesquisas e documentos, mas assume a liberdade própria da dramaturgia. “Não procuramos romantizar a vida dela, apesar de sermos românticos no sentido de se encantar com uma história bonita de vida. E não importa como você a enxergue, é uma linda história de vida de uma pessoa que superou as piores situações possíveis. Por mais que ela, dentro do mundo da escravização, não tenha, provavelmente, sofrido os piores aviltamentos ou provações, qualquer provação naquele mundo já é parte da defesa”, afirma Marcos Bernstein. 

Amor e sobrevivência 

A relação de Chica com João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes e um dos homens mais poderosos e influentes do Brasil colonial, ocupa lugar importante na narrativa. A história de amor, porém, aparece permeada pelas relações de poder de uma sociedade escravocrata. 

Flávia Bessone destaca que, embora relações entre homens brancos e mulheres negras escravizadas fossem comuns naquele período, a trajetória de Chica teve características particulares. Ela foi comprada por João Fernandes e, pouco tempo depois, recebeu a alforria. “Ela foi um caso muito diferente. Ela foi comprada e, pouco tempo depois, numa noite de Natal, foi presenteada com a alforria dela. Isso não era comum. Tudo leva a crer que realmente foi uma grande história de amor”, observa. 

A soprano Marly Montoni, que interpreta a protagonista, também buscou fugir das imagens cristalizadas da personagem. Para construir sua versão, assistiu ao filme “Xica da Silva” (1976), de Cacá Diegues, e pesquisou outras representações, como a novela homônima estrelada por Taís Araújo, em 1996, na extinta Rede Manchete, além de se debruçar sobre o libreto e trabalhar diretamente com a diretora cênica Julianna Santos.

“A proposta de toda a produção foi trazer uma Chica humana, uma mulher que viveu, que foi amada por um homem branco, que foi escravizada e conseguiu sua alforria”, conta Marly. Na ópera, um aspecto ganha especial importância: a relação da personagem com os filhos. “Temos as filhas e o filho mais novo, ainda bebê. Existe uma relação dela com os filhos que geralmente não aparece em outras representações, como o filme, a novela. Na ópera, trouxemos isso”, cita. 

O tenor Ewandro Stenzowski interpreta João Fernandes. Para ele, justamente por se tratar de personagens históricos – o que não é muito comum numa ópera –, é preciso equilibrar pesquisa e liberdade artística. “A dramaturgia funciona bem, mesmo sendo uma obra biográfica. Pra gente compor um personagem assim, envolve uma questão de respeito com a figura histórica e também um pouco de criatividade”, afirma. 

No caso de João Fernandes, Ewandro preferiu partir do que está escrito no libreto e na partitura para construir um personagem possível. “Essa versão de João Fernandes é uma versão possível dele, porque ele tem inseguranças, incertezas, e demonstra isso. Se esse era o traço principal de caráter dele, não tem como saber. Mas o que está ali na ópera é o que você criou. Aí a gente carrega um pouco mais essa cor, um pouco menos essa, reforça outro lado e tenta achar um caminho e a sua visão sobre ele”, explica o tenor. 

Na concepção de Julianna Santos, o cenário não reproduz literalmente Diamantina. Em vez disso, busca levar para o palco a atmosfera da cidade e os vestígios culturais que atravessam a história de Minas e do Brasil. Muxarabis, referências à arquitetura colonial e símbolos ancestrais africanos, como os adinkras, entram nessa construção visual. 

A diretora também enxerga Chica como uma figura que atravessou os séculos e continua dialogando com outras mulheres. “O que a gente buscou nesse caminho, também na cenografia, na forma de contar essa história, é uma homenagem à resistência dos povos africanos, dos povos que foram escravizados, e tendo essa figura de Chica da Silva como uma figura de ascensão, de cultura, de inteligência. Não deixa de ser uma grande homenagem a ela também”, frisa. 

Já para Marly Montoni, a experiência de interpretar alguém que realmente existiu trouxe uma responsabilidade particular. A pré-estreia em Diamantina foi especialmente simbólica. “Foi muito emocionante encenar a história dela justamente em uma cidade que fez parte da vida dela. Foi muito forte. Ainda mais ali, em cima das pedras por onde ela caminhou”, relata. 

Música conduz  
Se o teatro, a dança, a cenografia e os figurinos constroem o universo da montagem, é a música que conduz a ópera. Composta por Guilherme Bernstein – irmão de Marcos Bernstein, um dos libretistas –, a partitura parte de dois eixos: a relação íntima entre Chica e João Fernandes e a sociedade do Arraial do Tijuco no século XVIII. “Esses eixos possuem personalidade própria, sonoridades características e, dentro deles, cada situação e mesmo, por vezes, cada personagem tem a sua própria sonoridade musical”, explica o compositor, ressaltando que o maior desafio do projeto foi criar, efetivamente, uma história.

“Chica da Silva é cercada de mitos, versões e interpretações. Mas, da vida dela mesmo, não se sabe nada além de alguns poucos documentos. Transformar a vida de qualquer pessoa, mesmo a de uma com a vida mais movimentada, em história para ser contada, é uma tarefa inglória. Pessoas têm eventos interessantes em suas vidas, mas dificilmente têm vidas inteiras interessantes. E, mesmo quando é este o caso, não é possível colocar uma vida no palco. O que se coloca é um acontecimento, um evento, uma ação”, ressalta Guilherme, lembrando que, se conseguiram ou não equilibrar o que se sabe de Chica da Silva histórica com a dramatização inevitável de situações da sua vida e da época, é algo que cada espectador deverá julgar por si mesmo. “Quanto aos mitos, interpretações e versões pessoais de Chica da Silva criados ao longo dos últimos 150 anos, não é caso de estragar a surpresa; nossa resposta se encontra nos minutos finais da ópera. Será preciso assisti-la”, adianta. 

A trilha combina elementos da música erudita e da música popular brasileira. Para o maestro André Brant, responsável pela direção musical e regência, essa diversidade é um dos aspectos marcantes da obra. “É uma música que tem, a meu ver, características tanto da música erudita quanto, também, da música popular, da MPB. Então, a harmonia é muito característica da MPB”, analisa.

Segundo ele, Guilherme Bernstein também consegue escrever de uma forma especialmente adequada para as vozes. “Ele escreve muito bem para a voz, o que também é um grande desafio dos compositores. Existem muitos compositores que escrevem bem para instrumento, mas não para voz, e esse não é o caso. Ou seja, a música funciona muito bem. E, com isso, a gente vai desenvolvendo o trabalho de uma forma muito natural, muito tranquila”, salienta. A ausência de uma tradição anterior à obra, por sua vez, abre espaço para a experimentação. “O fato de ter uma ópera nova, de não ter nenhuma referência anterior, nos dá muito mais liberdade criativa”, observa André. 

Outro diferencial de “Chica da Silva” é o fato de a ópera ser inteiramente cantada em português, algo ainda pouco comum no repertório erudito. Para Marly, a escolha facilita tanto o trabalho dos intérpretes quanto a aproximação com o público.

“Geralmente, quando estudamos canto, aprendemos primeiro o italiano, depois o alemão, o francês e o inglês. Também já cantei ópera em russo e tcheco. Mas o português, por incrível que pareça, ainda enfrenta muita resistência, sobretudo na música erudita. Como cantora, acho maravilhoso, porque você entende rapidamente a mensagem. Quando cantamos em outra língua, mesmo que conheçamos o idioma, precisamos pensar mais para falar, entender o que está dizendo, construir o personagem e dar a inflexão correta às palavras. Em português, não preciso pensar tanto, porque é o idioma que falo na vida. Além disso, o público não precisa ficar tão preso às legendas. Isso aproxima muito mais a ópera das pessoas. Você consegue acompanhar a história, se envolver mais com ela e esquecer a legenda”, acredita a soprano.  

SERVIÇO 

O quê. Ópera “Chica da Silva” 

Quando. Sábado (19/9), às 19h. Segunda (21/9), e quarta (23/9), às 20h 

Onde. Grande Teatro Cemig Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, Centro) 

Quanto. Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia), à venda na plataforma Sympla, na bilheteria do Palácio das Artes e nos totens de autoatendimento 

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