Líderes das intenções de voto nas pesquisas que balizam a disputa pelas duas cadeiras de Minas Gerais no Senado Federal, o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), e a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) aparecem, entre o eleitorado, formando uma 'dobradinha' informal. O chamado voto ‘Marécio’ tem ganhado força entre eleitores de ambos os lados e recebe boa avaliação entre integrantes das duas campanhas e aliados de Marília e Aécio. 

Nos bastidores, reservadamente, interlocutores ouvidos por O TEMPO rechaçam que a dobradinha esteja surgindo por iniciativa dos dois candidatos, e classificam o cenário como um movimento espontâneo puxado por eleitores e também por prefeitos com identificação política com Marília e Aécio. “Foge completamente do nosso controle, né? Não é uma construção da campanha da Marília ou do Aécio”, disse um interlocutor ligado à campanha petista. 

No aspecto formal, Marília Campos tem como candidata ao segundo voto a ex-deputada federal Áurea Carolina (PSOL). No entanto, a leitura entre pares da candidata do PT é que, mesmo de modo informal, a associação com Aécio traz ganhos à campanha da petista. As últimas pesquisas mostram a ex-prefeita de Contagem na dianteira da disputa, sendo a candidata preferida no primeiro voto, até o momento. Na última rodada divulgada pelo DATATEMPO (MG-03794/2026 e BR-08275/2026), ainda sem Aécio na disputa, ela pontuou 12,6%. 

Já na Quaest, divulgada nessa terça-feira (8/9), Marília manteve a liderança, mas o ex-governador assumiu a segunda colocação. No levantamento, a ex-prefeita aparece à frente no primeiro e segundo voto, enquanto Aécio é o segundo candidato mais lembrado. O entendimento é que a conjuntura da petista que tem se distanciado de debates ideológicos, fato aliado à dobradinha com o tucano, pode acelerar a aproximação com um eleitorado ligado ao centro.

“A associação pode ampliar o alcance dela entre eleitores que reconhecem a trajetória dele, sem tirar dela a identidade própria e o diálogo com a esquerda e a centro-esquerda”, salientou outra fonte sob reservas. Ainda conforme relatos obtidos, não há um temor na campanha da petista de que Marília possa perder votos com a associação informal que se forma com Aécio. A leitura é de que o tucano ajuda a consolidar Marília como a “candidata do primeiro voto”, cenário já construído por influência dos quatro mandatos à frente da Prefeitura de Contagem. 

Tucanos aprovam, mas sem fechar portas
Do lado de Aécio, há também um sentimento de aprovação ao voto ‘Marécio’. “Daquelas coisas naturais que acontecem na campanha e não tem como você impedir. Não tem como estimular, mas também não tem como conter. Não estamos arquitetando isso”, resumiu um interlocutor do PSDB. Entre os tucanos, há um entendimento de que Aécio, na campanha ao Senado, pode fisgar votos tanto de eleitores que votam em Marília Campos, como em quem tem como opções outros candidatos à direita, como Domingos Sávio (PL), Marcelo Aro (PP) e Carlos Viana (PSD). 

Marco Antônio Costa (Novo) é tratado como uma associação menos provável, em função do perfil classificado como “bolsonarista mais extremo”. Dentro do PSDB, o entendimento é que Aécio mantenha uma campanha ao centro. A estratégia, conforme a leitura interna, pode contribuir para recolocar o ex-governador na liderança das pesquisas - cenário observado até meados de agosto. Para alguns interlocutores, os últimos levantamentos ainda não transparecem o conhecimento do eleitorado da entrada de Aécio na disputa. 

Na associação com a petista, apesar da informalidade, pesa uma “ótima relação” de Aécio com Marília, fato que não justificaria a “criação de obstáculos” à dobradinha, segundo interlocutores. Apesar das portas abertas, há uma cautela para que o cenário não inviabilize outras alianças também não oficiais. Na região Centro-Oeste de Minas, por exemplo, a leitura é de que Aécio, que raízes familiares em Cláudio, deve ter uma votação importante entre eleitores de Domingos Sávio. 

O candidato do PL é de Divinópolis e teve, durante os mandatos de Aécio no governo de Minas, participação na indicação de recursos para execução de obras e projetos na região, conforme relatos. 

Incômodo 

Na campanha de Marília, oficialmente, há um incômodo com a associação com Marília, em função da candidatura de Áurea Carolina. Em nota, assinada por PT, PCdoB, PV, PSOL e Rede, que integram a coligação petista em Minas, o bloco diz que a “coordenação da campanha não articulou, orientou e não autorizou” associações com candidatos de outras coligações. 

“A campanha reafirma que qualquer movimento nesse sentido, onde quer que tenha ocorrido, não tem respaldo da candidata nem da coordenação. Onde identificarmos, vamos orientar diretamente as lideranças sobre a posição oficial da chapa. O compromisso de Marília com a chapa é integral e público. Todo o material oficial da campanha pede o segundo voto para Áurea Carolina, e é isso que a candidata diz em agendas, nas redes e no horário eleitoral. Esse compromisso não está em discussão e seguirá assim até o dia da eleição”, diz o texto encaminhado a representantes das legendas da coligação.