Brasil247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que aproveitará seu pronunciamento na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), marcado para o próximo dia 23 de setembro, para fazer uma cobrança contundente aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da entidade.

A declaração foi proferida nesta quarta-feira (16), no Palácio do Planalto, durante reunião com pastores evangélicos do Brasil — vinculados à Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito — e com lideranças religiosas oriundas dos Estados Unidos e de Cuba. No evento, acompanhado pela primeira-dama Janja Lula da Silva e por autoridades como a senadora Zenaide Maia e os religiosos Danilda e Oriol Valde, Lula classificou a postura das grandes potências globais frente aos conflitos armados como “covarde” e apontou a urgência de refundar os compromissos pacíficos da diplomacia internacional.

“No dia 23 eu vou fazer um discurso na ONU para chamar a atenção dos cinco membros mais importantes do Conselho de Segurança da ONU. Vocês estão desrespeitando a razão pela qual foi criado o Conselho de Segurança da ONU. Foi criado para fazer paz, para fazer harmonia, e não para fazer guerra. Se vocês se abstêm quando têm que tomar decisão, vocês são covardes. Se vocês não tomam atenção na hora certa, significa que vocês não merecem estar no Conselho de Segurança. Se a gente não disser isso, alto e bom som, não vai valer a pena fazer política”, enfatizou o presidente.

Lula apontou diretamente os países detentores de assento permanente e poder de veto no órgão multilateral — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — como os principais responsáveis pelo agravamento das crises bélicas e pelo desvio de recursos sociais no planeta.

O chefe do Executivo ressaltou que o ano corrente registra o maior volume de confrontos armados no mundo desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial, evidenciando o contraste entre a retórica diplomática e a realidade do comércio armamentista.

“Cinco são os poderosos: França, Inglaterra, Estados Unidos, Rússia e China. Cinco pessoas que poderiam acabar com todas as guerras, que poderiam não começar nenhuma guerra. Mas são eles que começam as guerras, são eles que produzem armas, são eles que vendem armas. Eles têm o poder de veto. Poderiam evitar muitas coisas, mas só evitam aquilo que é em benefício da ONU. Aquilo que é do mal, não vetam”, disparou.

O presidente rebateu o volume de recursos direcionados à indústria bélica global, lembrando que a despesa anual militar ultrapassou a marca de quase 3 trilhões de dólares no último ano, enquanto investimentos básicos para suprir a fome, a saúde e a educação são negligenciados. “E quanto se gastou em alimentos? Quanto se gastou em saúde? Quanto se gastou com a educação? Numa demonstração de que o pobre continua sendo tratado como se fosse número, não como se fosse ser humano. Qual o governante que está preocupado com isso? Você conta nos dedos da minha mão, só tem quatro dedos”, ponderou.

Impactos geopolíticos, Gaza e diálogos internacionais

Durante o discurso, o mandatário brasileiro repercutiu os principais conflitos da atualidade, questionando as justificativas da guerra entre Rússia e Ucrânia e abordando a intervenção militar dos Estados Unidos no Irã. Lula observou que ações impensadas de chefes de Estado atingem desproporcionalmente as populações vulneráveis e geram impactos socioeconômicos globais, a exemplo das perturbações no fluxo de transporte no estreito de Ormuz, que encareceram a gasolina, a comida e os fertilizantes.

 Lula condenou também o massacre perpetrado contra populações civis na Faixa de Gaza. “Como é que a gente pode achar normal o que aconteceu na Faixa de Gaza? Como é que a gente pode achar normal a atitude do Netanyahu matando mulheres e crianças? Não pode ser normal”, cobrou.

Ele revelou ter mantido conversas diretas de longa duração com líderes mundiais como o ex-presidente americano Donald Trump, o presidente chinês Xi Jinping e o presidente russo Vladimir Putin, exortando-os a sentar-se à mesa para pactuar a paz: “Liguei para o Trump, falei uma hora e vinte minutos. Liguei para o Xi Jinping, falei mais de uma hora. Liguei para o Putin, falei mais de uma hora com ele, pedindo: gente, por favor. Vocês são só cinco pessoas, vocês têm o poder. Vamos gastar esse dinheiro da guerra em educação, em comida, em saúde”.

Religião, política e fé individual

Apesar do tom duro voltado à política externa, Lula dedicou parte expressiva da reunião aos pastores para ressaltar seu absoluto respeito pela fé religiosa e sua convicção de que locais de culto não devem ser instrumentalizados pela política partidária.

“Eu me recuso, toda vez que pede alguém para ir numa igreja falar de política, eu não vou. Eu não vou porque eu respeito muito a fé das pessoas. Então não me convide para ir numa assembleia fazer um comitê que eu não vou. Não vou nem da católica, nem da evangélica. Se eu quiser fazer política e comitê, eu faço na rua. Mas na igreja eu não faço, em nenhuma igreja, porque eu acho que cada ser humano tem que ter o seu momento de paz para conversar com Deus”, salientou.

Ao discorrer sobre a soberania popular e o processo eleitoral, rechaçou sobriedade qualquer tentativa de ingerência externa ou de descrédito ao sistema eletrônico de votação. Lula recordou que disputou inúmeras eleições como opositor e que a lisura das urnas brasileiras é atestada por suas próprias vitórias e derrotas. “Os que negam a democracia dizem que a urna não é válida. Eles estavam no poder e agora estão na cadeia porque tentaram dar um golpe de Estado”, acrescentou.

Miséria, conquistas e políticas sociais

Traçando um paralelo pessoal com a sua trajetória, o presidente resgatou lembranças da infância carente no Nordeste, a migração para São Paulo aos sete anos para fugir da desnutrição extrema e a superação da miséria até alcançar o comando do país pela terceira vez.

Lula apontou a necessidade de enfrentar a desigualdade em suas múltiplas vertentes — financeira, educacional, de atendimento médico e de combate ao preconceito racial —, exaltando o Sistema Único de Saúde (SUS) como um patrimônio de inclusão sem paralelos no mundo para nações com mais de 100 milhões de habitantes.

Por fim, o chefe do Executivo revelou que no próximo ano lançará uma ampla política pública nacional de cuidado voltada à população idosa, voltada para retirar homens e mulheres do isolamento social e garantir redes de convivência, saúde e bem-estar, contando com a parceria das instituições religiosas e comunitárias brasileiras.