No período de 14 meses à frente da Secretaria de Estado de Governo de Minas Gerais (Segov), o ex-secretário e hoje candidato ao Senado, Marcelo Aro (PP), firmou mais de R$ 2 bilhões em convênios com prefeituras para a execução de emendas destinadas por deputados federais e estaduais. Foram 839 dentre os 853 municípios mineiros que foram beneficiados com as verbas bilionárias.

O número, apresentado no portal Fiscaliza Minas, que busca dados diretamente na base do governo e de responsabilidade do administrador Rafael Tiradentes, coincide com declarações de Marcelo Aro em entrevistas concedidas e pronunciamentos públicos revelando que possui o apoio de 844 prefeitos - número impressionante que ultrapassa qualquer adesão eleitoral já registrada na história de Minas.

Aro ditou as cartas da pasta entre 15 de fevereiro de 2025 e 2 abril de 2026, quando deixou a Segov para atender a determinação da Justiça Eleitoral de desincompatibilização do cargo para concorrer nas eleições. No seu lugar, entrou Castellar Guimarães Neto, sócio dele em negócios de criação bovina,  que comandou a secretaria até 31 de julho, quando o governador Mateus Simões (PSD) exonerou Castellar depois de romper com Aro.

Entre fevereiro de 2025 e abril de 2026, o valor movimentado na formalização de convênios foi de R$ 2.035.678.800, segundo dados da plataforma Fiscaliza Minas. Os termos foram firmados para executar recursos obtidos distribuídos via Segov por meio de emendas parlamentares. Em entrevista ao Café com Política, de O TEMPO, no dia 1º de julho, Aro estimou sua rede política de apoios.

“Minas tem 853 prefeitos. Eu tenho o apoio declarado e público de 844 prefeitos. Só nove não me apoiam”. Nos bastidores, interlocutores afirmam, reservadamente, que a capilaridade política que Aro obteve junto aos prefeitos foi construída, justamente, a partir da liberação de emendas e recursos aos municípios. Segundo interlocutores, os prefeitos, para acelerar as liberações de recursos, fizeram declaração de apoio a Aro. 

Alguns prefeitos, inclusive, reservadamente, confirmaram que anunciaram o apoio a Aro para receber as verbas. Na prática, embora as emendas fossem aprovadas pela Assembleia Legislativa, a execução dependia da disponibilidade e da liberação pelo governo. Nesse processo, recursos para obras como escolas, quadras e pavimentação de ruas teriam sido direcionados a municípios cujos prefeitos sinalizavam apoio a Aro, para o segundo voto para o Senado 

Ainda de acordo com relatos obtidos pela reportagem, Aro anunciava os recursos como destinações individuais ligadas às atividades exercidas por ele na Segov, sem citar, por exemplo, o nome do governador e candidato à reeleição Mateus Simões (PSD). Como mostrou O TEMPO, a engenharia política para forçar apoios de prefeitos à sua candidatura ao Senado perdeu força. 

O desembarque de administradores municipais da campanha se deu, especialmente, depois do rompimento com o chefe do Executivo estadual e do  “chega pra lá” da campanha de Cleitinho Azevedo (Republicanos), que se distanciou e não vai mais apoiar Aro na disputa ao Senado. Segundo a plataforma Fiscaliza Minas, Belo Horizonte foi a cidade com maior valor de convênios firmados com a Segov. 

O montante total em acordos formalizados entre a capital e a pasta foi de R$ 55.237.514,00. Em seguida aparece Governador Valadares, com cifras da ordem de R$ 31.429.363,00. Já as cidades com menor valor na formalização de convênios foram Doresópolis, com termo de R$ 83.500,00, e Conceição do Mato Dentro, Luisburgo, Jequeri e Juramento. As quatro cidades assinaram convênios de R$ 100.000,00 cada.

A reportagem questionou Marcelo Aro, via assessoria, se houve uso dos convênios na Segov para barganhar apoio político. No entanto, nenhum retorno foi enviado até a publicação. O espaço segue aberto.