Os nove governadores do Nordeste divulgaram uma nota pública repudiando declarações recentes dadas  pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema (NOVO), sob alegação de que elas “insultam” os estados e os cidadãos nordestinos. Os governadores, que representam cinco partidos diferentes (PT, PSD, PSDB, PSB e MDB) classificaram como “falaciosa” a narrativa e afirmaram que a federação é um pacto de solidariedade e não de hostilidade.

“Transformar diferenças econômicas em hierarquias morais de regiões e de pessoas é oportunismo eleitoral que empobrece o debate e fragiliza o Brasil. Esse tipo de retórica divide o país, desrespeita milhões de cidadãos e compromete o ambiente de negócios, porque cria incertezas institucionais”, afirmam.

De acordo com a nota, “o Brasil só avançará com cooperação federativa, respeito e verdade. “O que está em debate não é apenas uma disputa política circunstancial, mas a forma como o país encara suas desigualdades históricas e projeta o futuro de sua economia e de sua gente”. 

Divulgada pelo Consórcio Nordeste, que representa os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, a nota diz ainda repudiar “toda forma de racismo, xenofobia e estigmatização regional”. “O Nordeste não aceitará ser transformado em bode expiatório de disputas eleitorais. Nossa cidadania é indivisível e exige respeito, com políticas públicas baseadas em dados e evidências, não em preconceitos e estereótipos”. 

Em entrevista na quarta-feira, ao ser questionado sobre declarações anteriores dadas pelo governador de que o Sudeste financia os estados do Nordeste, Zema alegou que os repasses federais teriam transformado a região em eternamente dependente de verbas do Planalto, que usa essa ajuda como moeda eleitoral. 

"Tem pessoas que precisam de ajuda, tem cidades que precisam, tem estados que precisam e você deve estar viabilizando aquela ajuda para evitar que a pessoa passe fome, para evitar que uma empresa tenha que demitir milhares de funcionários. Precisa ter tempo de sanar essa situação. E o que existe no Brasil? Uma ajuda eterna e que não acaba nunca. Aí eu sou contra”, afirmou Zema, que neste mês se lançou candidato a presidente da República, em um evento do Partido Novo, em São Paulo. 

De acordo com a nota, a “verdade dos números desmente a narrativa falaciosa do governador Romeu Zema”. Citando dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), a nota afirma que, no ano passado, a instituição desembolsou R$ 133,7 bilhões, dos quais R$ 48,7 bilhões foram para o Sudeste e R$ 48,8 bilhões para o Sul, enquanto o nordeste recebeu R$ 13,3 bilhões, o Centro-oeste R$ 13 bilhões e o Norte R$ 9,7 bilhões. “Ou seja, 73% de todos os desembolsos concentram-se no eixo sul-sudeste. Minas Gerais, sozinho, recebeu R$ 12,7 bilhões, sendo o quarto estado mais beneficiado”, afirmam os governadores. 

Eles afirmam ainda que a mesma lógica de distribuição de recursos, acontece em relação às renúncias tributárias de impostos federais. “Em 2025, estima-se que o país renuncie a R$ 536,4 bilhões em tributos, dos quais R$ 256,2 bilhões ficarão no sudeste e R$ 89,3 bilhões no Sul, enquanto o Nordeste receberá R$ 79,3 bilhões desses recursos”. A nota lembra ainda que o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) também cobre o norte de Minas Gerais. 

“Os dados, portanto, são claros: não procede a ideia de que ‘o nordeste vive de subsídios’ ou que ‘Minas é prejudicada’. Também não procede a insinuação de que os estados nordestinos seriam os principais responsáveis pelo endividamento do país”, afirma. 

A nota cita ainda os dados sobre endividamento dos estados  brasileiros com a União e lembra que a maior parte desses débitos está concentrada nas regiões Sul e Sudeste

“Dados atualizados até abril deste ano mostram que os estados brasileiros devem R$ 827,1 bilhões à União, sendo 92% dessa dívida concentrada nos estados do Sul e do Sudeste. O Nordeste responde por apenas 3% do total, proporção que desmente a narrativa de desequilíbrio e evidencia onde se encontra a real concentração do passivo”.

Minas Gerais deve cerca de R$ 170 bilhões para a União e é o estado mais endividado do país, com uma dívida total de R$ 195,3 bilhões, segundo dados da Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais. 

Os governadores afirmam ainda que o estado brasileiros sempre privilegiou o eixo Sudeste-Sul, enquanto o Nordeste foi marcado “por migrações forçadas, desestruturação agrária e políticas emergenciais diante da seca” e que somente nas últimas décadas a situação vem sendo revertida com investimento em educação.

Apesar de “os recursos públicos destinados à modernização produtiva” , de acordo com a nota, ainda se concentrarem majoritariamente nas regiões Sudeste e Sul.

“O Nordeste nunca reivindicou esmolas, mas lutou pela criação de políticas de desenvolvimento regional capazes de valorizar suas potencialidades e apoiar seus empreendedores”, assinalam os governadores na nota pública.

A reportagem procurou o governador mineiro, mas ele não se manifestou sobre a nota. 

Esta não é a primeira vez que Zema é rebatido pelos governadores do Nordeste. Em 2023, políticos da região rechaçaram declarações de Zema, que, ao criticar a formação de um fundo para o Nordeste, Centro-Oeste e Norte, previsto na Reforma Tributária, disse que a região estaria tendo “um tratamento bom para vaquinhas que produzem pouco e deixa de lado as que estão produzindo muito”. 

O governador também falou sobre o Nordeste no lançamento de sua candidatura, neste mês. Segundo ele, "receber eternamente o Bolsa Família não melhora" a região.