A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão entra em um ciclo inédito com a chegada da Inteligência Artificial, que pode se tornar peça central na estratégia de campanhas políticas pela facilidade e custo baixo. Por conta disso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) delimitou algumas regras que os partidos deverão seguir à risca para evitar punições na Justiça.

Com a nova regulamentação da Corte, o uso de conteúdos gerados ou alterados por IA passa a exigir a inclusão de um aviso explícito na tela, e audível no rádio, informando sobre a utilização da tecnologia. Além disso, o TSE proibiu o uso de deepfakes para criar, substituir ou alterar a imagem ou voz de candidatos com o intuito de disseminar informações falsas, prevendo punições severas que vão da perda do tempo de propaganda até a cassação do registro do candidato.

"No passado, antes da inteligência artificial, já lidávamos com boatos no ambiente da campanha que causavam estragos antes mesmo de qualquer punição acontecer. A diferença é que, agora, a tecnologia elevou isso a uma escala muito maior”, avalia a cientista política Priscila Lapa.

Diante dos riscos que a IA pode trazer a um eleitorado mais vulnerável a esse tipo de estratégia, Priscila afirma que o combate à desinformação passa a ser visto como um esforço coletivo. “Há um descolamento na vida real entre o que os partidos políticos pensam, agem e propõem e aquilo que o cidadão efetivamente necessita e demanda”, afirma a cientista.

Ainda assim, o combate eficiente às informações falsas esbarra na formação crítica do próprio cidadão. “Não é nem uma questão de maturidade no uso da IA, mas na educação política para compreender os processos eleitorais, conseguir compreender a trajetória dos candidatos, conseguir fazer as leituras críticas necessárias no processo eleitoral. Então, se não tem isso sem IA, com a IA podem criar ali pontos cegos, indução ao erro que a educação política resolveria consideravelmente”, declara.

Guia com IA?

Para a cientista política Priscila Lapa, o uso da inteligência artificial no guia eleitoral pode funcionar de maneiras distintas, a depender do propósito da campanha. “Se esse uso for no sentido de otimizar a organização das informações, adequar a linguagem a partir da necessidade do público e fazer algumas simplificações de atalhos informacionais. Sim, isso pode gerar uma proximidade entre eleitor e candidato”, comenta.

Por outro lado, Priscila adverte que a tecnologia não substitui a “trajetória política eleitoral histórica” porque a artificialidade será percebida pelo eleitor. “Não pode acontecer um sentimento de dissonância entre aquilo que o eleitor já percebe sobre aquele ator político e a campanha tentar fazer uma construção de um novo personagem, de um novo discurso, de uma nova narrativa”, avalia.

Historicamente, o guia de TV era marcado por um abismo técnico entre partidos com vultosos fundos partidários e legendas menores. Um exemplo foi na campanha para presidente de 1989, quando Fernando Collor investiu tanto em seu condicionamento quanto na construção do “Super-Homem brasileiro”, com um trem de prata que quebrava a corrupção e um guia tecnológico.

Segundo Priscila Lapa, um dos grandes benefícios da IA nas produções é justamente ampliar as possibilidades de “não precisar de grandes investimentos para você ter grandes resultados”. “Isso de alguma forma é mais democratizado com o uso da IA, de você ter produções com o custo muito mais barato e que conseguem possibilitar resultados efetivos”, aponta.

Ela pondera, contudo, que a técnica não atropele a linha política: “Não muda o fato de que o que tem que tá por trás de tudo isso é estratégia. Não é só a produção pela produção”.